Um ano após operação, réus por corrupção no Presídio de Igarassu usam tornozeleira e esperam julgamento

Processo com 14 acusados inclui André de Araújo Albuquerque, ex-secretário executivo de Administração Penitenciária filmado com maços de dinheiro

Por Raphael Guerra Publicado em 25/02/2026 às 9:36 | Atualizado em 25/02/2026 às 9:48

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Um ano após a operação que revelou o forte esquema de corrupção no Presídio de Igarassu, localizado no Grande Recife, o processo com 14 réus - incluindo um ex-secretário executivo, um ex-diretor e oito policiais penais - pouco avançou. Até o momento, a Justiça não marcou audiências para colher depoimentos de testemunhas, e os servidores públicos acusados de participação nos crimes seguem cumprindo medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica. 

A primeira fase da operação La Catedral foi deflagrada pela Polícia Federal em 25 de fevereiro de 2025. Na ocasião, o ex-diretor do Presídio de Igarassu Charles Belarmino de Queiroz e sete policiais penais foram presos preventivamente sob suspeita de envolvimento no esquema de corrupção, que envolvia a liberação de entrada de drogas, bebidas alcoólicas e até mulheres para festas frequentes.

As investigações indicaram que, em troca das regalias para os presos, os servidores públicos recebiam propinas, como pagamentos em dinheiro (em espécie ou via Pix) e até comida por meio de delivery. 

A superlotação e a falta de segurança mínima para controlar a rotina dos detentos contribuíram de forma decisiva para a corrupção no Presídio de Igarassu. 

O esquema criminoso foi descoberto a partir da apreensão de um celular com o presidiário Lyferson Barbosa da Silva, que exercia liderança em um dos pavilhões e que tinha contato direto, sobretudo por meio do WhatsApp, com Charles e outros policiais penais em cargos de supervisão.

No inquérito, há transcrição de diálogos entre Lyferson e os outros réus combinando a entrada de sushi, celulares e liberação de festas. Há ainda vasto material fotográfico do detento com garotas de programa, que eram escolhidas por meio do WhatsApp para entrarem com facilidade no presídio

Reprodução
Investigação descobriu que Lyferson tinha acesso a celulares e garotas de programa no Presídio de Igarassu - Reprodução

Em 2024, diante dos primeiros indícios do escândalo de corrupção, Lyferson foi transferido para a Penitenciária Federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde permanece cumprindo pena por homicídio e outros crimes.

"A unidade prisional deixou de operar sob as diretrizes legais da execução penal, convertendo-se em ambiente de gestão paralela, no qual internos de elevado grau hierárquico passaram a exercer domínio logístico, financeiro e operacional, com anuência, facilitação ou participação direta de agentes públicos", disse trecho do relatório da PF.

Charles exerceu o cargo de diretor do Presídio de Igarassu entre 1º de abril de 2016 até o final de 2024. Segundo denúncia do Ministério Público, "valendo-se de sua posição de comando, autoridade funcional e conhecimento aprofundado da rotina carcerária, estabeleceu e liderou, de forma consciente e voluntária, uma organização criminosa estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas".

O ex-diretor é acusado de receber pagamentos periódicos de dinheiro cobrados de presidiários para permitir atividades ilícitas nos pavilhões e o funcionamento de comércios irregulares.

Em setembro de 2025, a Justiça converteu a prisão preventiva em domiciliar para Charles. Também determinou o uso de tornozeleira eletrônica. 

EX-SECRETÁRIO FILMADO COM MAÇOS DE DINHEIRO

A segunda fase da operação ocorreu em abril do ano passado, quando foi preso André de Araújo Albuquerque, ex-secretário executivo de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap). 

A prisão preventiva foi determinada após um vídeo encontrado no celular de Charles, com data de 6 de setembro de 2024, mostrar o ex-secretário recebendo maços de dinheiro e guardando numa sacola. O detento Antônio de Souza Sobrinho, conhecido como Sertanejo, também aparece nas imagens. 

A gravação ocorreu na sala da diretoria do Presídio de Igarassu e foi feita pelo próprio Charles. Uma perícia federal identificou todos os envolvidos. 

O inquérito policial destacou que o esquema de corrupção na unidade prisional ocorreu pelo menos entre os anos de 2018 e 2024, quando Charles estava à frente da direção do presídio. Ele e André foram exonerados dos cargos no final de 2024, em meio ao avanço das investigações. 

REPRODUÇÃO
Presos faziam festas com música e bebidas alcoólicas com frequência no Presídio de Igarassu - REPRODUÇÃO

No relatório da PF, André é classificado como uma "peça central" na "engrenagem criminosa" que funcionava no Presídio de Igarassu.

"Era dele a responsabilidade pela nomeação, exoneração e fiscalização direta de gestores penitenciários, como Charles, a quem blindava e mantinha no cargo, apesar dos reiterados indícios de desvios de conduta", citou o documento. 

Na denúncia do Ministério Público consta que o ex-secretário negou, em interrogatório, ter participado do esquema de corrupção no presídio. Ele confirmou ter recebido valores de Charles, conforme as imagens, mas disse que se tratava de "presente, em razão de sua atuação religiosa, isto é, sem vinculação com sua atividade funcional". 

Após cerca de oito meses de prisão preventiva, a Justiça concedeu a liberdade provisória de André, mediante a aplicação de medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica e proibição de ter acesso aos presídios do Estado. 

A coluna entrou em contato com as defesas de André e de Charles, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. 

A Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização também foi procurada desde a segunda-feira (23), mas não se posicionou sobre as ações adotadas para evitar a continuidade da corrupção no presídio, que é um dos mais superlotados e precários do País. 

PROCESSOS ADMINISTRATIVOS CONTRA SERVIDORES

Além do processo criminal, sem prazo para julgamento, os servidores públicos estão na mira da Corregedoria da Secretaria de Defesa Social (SDS) e podem ser demitidos ao final do processo administrativo disciplinar. 

Na última segunda-feira (23), o Ministério Público apresentou à Justiça parecer favorável ao compartilhamento de informações com a SDS para auxiliar no andamento da investigação. 

A Corregedoria solicitou a cópia integral dos autos e demais provas técnicas e documentais produzidas, além dos depoimentos de testemunhas. 

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