Recife é uma das seis capitais brasileiras que não evoluíram na coleta de esgoto
De acordo com um estudo do Instituto Trata Brasil, entre os anos de 2019 e 2023, capital pernambucana regrediu no abastecimento de água
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A oito anos do Marco Legal do Saneamento Básico, que estabelece a meta de alcançar 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033, o Recife ainda é uma das capitais brasileiras que não evoluíram na universalização do saneamento.
De acordo com um estudo do Instituto Trata Brasil, entre os anos de 2019 e 2023, o município regrediu no abastecimento de água. O índice era de 89% em 2019 e 2020, chegou a atingir os 98% em 2022 e caiu para 82% no ano seguinte.
Em relação à coleta e tratamento de esgoto, em 2022 mais de 49% da população era atendida, enquanto em 2023, o índice caiu para 41%.
O levantamento marca os cinco anos da implementação do Marco Legal do Saneamento Básico e busca avaliar os avanços sob as perspectivas regulatória e institucional. O estudo tem como base os dados disponibilizados pelo Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA).
O Recife vai de encontro ao avanço de outras 21 capitais brasileiras, que apresentaram evolução nos quesitos avaliados. O município ocupa a 83ª posição do ranking do saneamento realizado em 2025 pelo Trata Brasil. Em relação ao ano anterior, ele caiu sete posições.
Além da capital pernambucana, ocupam as 20 piores posições da tabela, que tem como base os 100 municípios mais populosos do Brasil, Paulista (84º) e Jaboatão dos Guararapes (89º).
Ainda com desafios para a universalização, a expectativa é que todo o estado receba novos investimentos ainda este ano.
“Milhões de brasileiros pagam o preço diário: crianças com diarreia por água contaminada, adultos que faltam ao trabalho, idosos internados por doenças evitáveis. O relógio não para: 2033 está logo ali, e cada dia de lentidão condena uma nova geração ao mesmo ciclo vicioso”, destaca a presidente executiva do Trata Brasil, Luana Pretto.
O que diz a Compesa
Em nota, a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) esclareceu que o ranking do Instituto Trata Brasil 2025 é referente aos investimentos de 2019 a 2023 e que a partir de 2023, o Governo de Pernambuco retomou os aportes no setor.
A Companhia também afirmou que para 2025, o investimento previsto para o Recife é de cerca de R$ 700 milhões, em ações como a setorização dos morros da Zona Norte, a perfuração de novos poços e a recuperação da capacidade dos sistemas de Tapacurá, Pirapama e Alto do Céu.
Veja a nota completa:
"Sobre o ranking do Instituto Trata Brasil 2025, a Compesa esclarece que os dados refletem investimentos entre 2019 e 2023. A partir de 2023, o Governo de Pernambuco retomou os aportes no setor, elegendo água e esgoto como prioridade estratégica e lançando o Programa Águas de Pernambuco, com investimento de R$ 6,1 bilhões. O programa contempla obras estruturadoras como a Adutora do Agreste, novas barragens, expansão de sistemas de esgoto, modernização de unidades e adoção de novas tecnologias.
A Compesa esclarece ainda que os indicadores de Pernambuco no ranking do Instituto Trata Brasil foram impactados pela mudança nos critérios de avaliação, agora baseados no último Censo do IBGE. A revisão da taxa de ocupação populacional influenciou os resultados. Apesar disso, os dados mostram avanço. Comparando os anos de 2022 e 2023, houve crescimento de 2% nas economias totais ativas de água e de 5% nas economias residenciais ativas de esgoto, desempenho 1% acima do crescimento da população residente no período.
Para mudar mais essa realidade no Recife, foram aplicados, em 2024, R$ 416 milhões em ações de abastecimento e esgotamento. Para 2025, a previsão é um investimento em torno de R$ 700 milhões. Entre as ações, destacam-se:
Setorização dos morros da Zona Norte (R$ 40 milhões), beneficiando bairros como Alto José do Pinho, Vasco da Gama, Morro da Conceição e Alto José Bonifácio;
Perfuração de 5 novos poços para eliminar o rodízio em Nova Descoberta e Córrego do Tiro;
Recuperação da capacidade dos sistemas de Tapacurá, Pirapama e Alto do Céu, com impacto também em municípios da RMR.
Na Região Metropolitana do Recife, com benefício direto para a capital, avançam ainda programas voltados à eficiência e combate às perdas de água:
Manutenção das redes de abastecimento (vazamentos) – R$ 368,9 milhões.
Contrato de performance para detectar e reparar vazamentos ocultos – R$ 50 milhões.
Em termos de esgotamento sanitário, obras importantes estão mudando a realidade da coleta e do tratamento dos esgotos da cidade, são elas:
Funcionalidade da 1ª etapa da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Cabanga, entregue em março deste ano, e, em execução, obras de ampliação do sistema de esgoto da Zona Sul do Recife;
Dentre as ações planejadas, o SES Pina e Boa Viagem, SES Morros da Zona Norte (SES Peixinhos 2ª Etapa Útil) e o SES Olinda (2ª Etapa Útil).
Além das iniciativas em curso, o Governo de Pernambuco também avança na concessão parcial dos serviços de água e esgoto, cujo edital foi lançado no último dia 12 e o leilão está marcado marcada para dezembro, atraindo a iniciativa privada para ampliar investimentos no interior do estado. A previsão é captar R$ 19 bilhões, enquanto a Compesa seguirá responsável pela produção de água e pelos serviços de esgotamento sanitário na RMR e em Goiana (Programa Cidade Saneada)."
Anúncio de investimentos
No dia 1º de setembro, a governadora Raquel Lyra (PSD) anunciou o investimento de mais de R$ 1 bilhão na Região Metropolitana do Recife. Dentre os destaque, está a assinatura de ordens de serviço voltadas para melhorar os recursos hídricos do estado.
Uma das obras é do Sistema de Esgotamento Sanitário (SES) de Boa Viagem, no Recife. Ela vai permitir que parte do esgoto coletado em Boa Viagem e na Imbiribeira seja encaminhado para tratamento na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Cabanga, que tem capacidade de processar 1.000 l/s Com investimento na ordem de R$ 78,8 milhões, a intervenção deve beneficiar mais de 150 mil pessoas.
Além dos investimentos anunciados, o estado aguarda pela concessão dos serviços da Compesa. Na última semana, o edital foi publicado e tem previsão de atrair R$ 19 bilhões em investimentos em saneamento.
Com o modelo de concorrência pública internacional, o certame permite que empresas estrangeiras também disputem o direito de assumir a operação. De acordo com o Governo do Estado, a empresa vencedora terá o compromisso de investir o valor durante os 35 anos de concessão, com garantia de aplicação exclusiva dos recursos em saneamento básico.
A abertura das propostas está prevista para acontecer no dia 11 de dezembro e o leilão em 18 de dezembro, na B3, em São Paulo.
A concessão está dividida em dois blocos: um voltado para a Microrregião de Saneamento Básico RMR-Pajeú, com 161 municípios e cerca de 7 milhões de habitantes, e outro para a Microrregião do Sertão, com 24 municípios e 700 mil habitantes.
O modelo que o governo de Pernambuco pretende adotar deve conceder à iniciativa privada os serviços de distribuição de água e esgoto, mantendo sob gestão estadual a captação e o tratamento.
A empresa vencedora do leilão será aquela que oferecer o maior desconto na tarifa de água, limitado a até 5%, conforme o modelo híbrido estabelecido no estudo de concessão.
Para o prefeito do Recife, João Campos, a proposta de concessão precisa ser mais debatida com os municípios, especialmente os maiores, como Recife e Petrolina.
“Houve um desejo de velocidade e de pouca escuta. Um contrato desse tamanho precisa ser muito mais participado para sair bem feito, porque não é tarefa apenas de governo, é algo que vai atravessar várias gestões”, disse o prefeito.
O gestor reforçou que não é contra a concessão, mas defende “mais serenidade, mais diálogo e escuta” para que o modelo atenda de forma efetiva ao interesse da população e ajude a superar desafios históricos do saneamento no estado.