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Em novo livro, Silvio Meira e Rosário Pompéia propõem nova arquitetura política em era de plataformas

Em entrevista à Rádio Jornal, autores de "A Próxima Democracia" avaliaram que modelo político atual copalsou e precisa dialogar com mundo conectado

Por JC Publicado em 15/10/2025 às 13:22 | Atualizado em 15/10/2025 às 13:26

Autores de "Marketing do Futuro", Silvio Meira e Rosário Pompéia abordam um novo modelo da política em um mundo hiperconectado no novo livro "A Próxima Democracia", que será lançado nesta quinta-feira (16), às 15h30, no Cais do Sertão, no Recife, dentro da programação do festival Rec'n'Play.

Em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, eles defenderam que o modelo político atual entrou em colapso e precisa ser reconstruído a partir de novas bases teóricas e práticas capazes de dialogar com um mundo dominado pelas plataformas digitais.

Silvio Meira, cientista e professor emérito do Centro de Informática da UFPE, relembrou que o ponto de partida da reflexão foi o colapso do modelo clássico de comunicação política. "A vasta maioria dos atores envolvidos no marketing não tinha percebido esse colapso. Então a gente lançou um manifesto para o marketing do futuro, propunha novos caminhos”.

A partir dessa percepção, os autores avançaram para o que chamaram de “marketing do futuro da política”, criticando o papel dos partidos, a centralização das campanhas em figuras personalistas e a captura da representação democrática por uma lógica empresarial agressiva, desconectada do interesse público.

Em junho de 2024, Meira e Pompéia publicaram o livro "Marketing do Futuro". A partir dali, veio o convite para aprofundar a análise e escrever sobre o futuro da política e da democracia.

O resultado é "A Próxima Democracia", estruturado em 32 teses para refundar a política no mundo “figital” — uma realidade em que o físico e o digital compõem um único espaço público mediado por plataformas, redes e ecossistemas de comunidades.

Para Rosário Pompéia, jornalista e pesquisadora em engenharia de software, é preciso deixar de tratar a crise da democracia apenas por meio das narrativas visíveis. “A gente tava vendo as coisas como se fosse um iceberg. As narrativas são consequências de alguma coisa que tava lá embaixo. Tanto a polarização quanto a falta de interesse das pessoas. Onde é que tá a fundação disso?”, questiona.

Ela argumenta que as teorias políticas clássicas não dão conta da complexidade atual. “A gente observa que não tá incluído o mundo em plataformas como a gente conhece hoje. Tá faltando teoria para isso.”

Ela afirma que a internet foi tratada como mero veículo e que o mesmo risco ocorre agora com a inteligência artificial. “Se você for olhar para IA, tem gente que já diz que entende tudo porque usa ChatGPT".

O livro, segundo ela, combina teoria e método, propondo ferramentas práticas para experimentação política.

Regulação das plataformas e fragmentação da esfera pública

Questionado sobre o debate em torno da regulação das redes, Silvio Meira descreveu um cenário em que as plataformas fragmentaram a esfera pública. “Quando tudo estiver conectado em rede, haverá um número tão grande de narrativas que a gente não conseguirá mais unificar absolutamente nada do ponto de vista do desejo social numa única narrativa”, disse.

Para ele, a formação de bolhas produz “bandos de pessoas que desenvolvem suas próprias crenças completamente descoladas da realidade objetiva”. Ele critica a falta de avanço sobre o tema no Legislativo, mencionando fatores para isso.

“O Estado brasileiro tem se recusado a discutir isso pragmaticamente, porque o número de interesses envolvidos é muito grande. Nos extremos do espectro político, você vê um discurso radical contra a regulação, porque querem propor suas visões de mundo sem nenhum controle", avalia.

Participação cidadã e ruptura com o ciclo eleitoral

Ao tratar da viabilidade de uma “próxima democracia” em um país marcado por dinastias políticas, Rosário Pompéia foi direta: “Não é só papel dos políticos, do Judiciário ou do Legislativo. O papel dos cidadãos de voltarem a discutir política é fundamental. Sem isso, não vai acontecer.”

Para ela, não basta discutir regulação, é preciso expandir a cidadania pela pressão cotidiana e não apenas no calendário eleitoral. “A gente sabe como funciona o marketing político. Vai ter um grande investimento, vai falar muito, rede social vai detonar, depois morre”, afirmou.

Segundo Rosário, ou os cidadãos reconhecem a necessidade de ruptura e assumem uma postura ativa, “ou isso não vai mudar”.

Método e enfrentamento ao “gestor salvador”

Na reta final da entrevista, Meira reforçou que o livro busca oferecer método e não apenas diagnóstico. “A gente criou um conjunto de teses de como refundar a política e a democracia, mas também apresenta um método, processos e mecanismos de intervenção.”

Para ele, a governança atual é fechada, distante da sociedade. “A gente mantém o poder centralizado, a governança dura, que não conversa com a sociedade. Precisa acabar esse culto do gestor salvador, do mágico que chega e resolve tudo.”

Rosário completou dizendo que o livro tenta escapar da utopia pela prática, e que ouviu diferentes versões sobre as teses apontadas no livro, proferidas por políticos ouvidos no processo de produção.

“Alguns políticos disseram para a gente: ‘Isso aqui é utopia. Se a gente fizer isso, não ganha eleição. A eleição se ganha de outro jeito no Brasil’. Outros disseram que já fazem tudo. Então, a nossa necessidade foi mostrar como colocar isso em prática. São 32 teses. É possível fazer tudo de uma vez? Óbvio que não. Mas uma ou duas já podem ser feitas de forma diferente — e não maquiando".

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