Pernambuco | Notícia

Moda circular ganha espaço e incentiva hábitos sustentáveis

Impulsionado pela busca por economia e sustentabilidade, o mercado de peças de segunda mão transforma a relação dos consumidores com o vestuário

Por Maria Clara Trajano Publicado em 01/10/2026 às 14:03

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O incentivo à economia circular e o combate ao desperdício na indústria têxtil ganham força no Recife, impulsionados pela busca por consumo sustentável e pela oportunidade de economia financeira. Em meio ao crescimento dessa tendência, empreendimentos de moda pós-consumo ampliam a presença na cidade.

Exemplo desse movimento é a abertura de um brechó da organização social Humana Brasil, nesta quinta-feira (1º), na Rua do Hospício, no bairro da Boa Vista, que destina o saldo das vendas de roupas usadas a 20 projetos sociais mantidos pela instituição no país.

A operação funciona sob a lógica da circularidade: roupas doadas ou coletadas passam por triagem na Imbiribeira e seguem para a loja. O acervo inclui peças exclusivas e itens padronizados que entram em um sistema de precificação regressiva de três semanas, começando em R$ 35 e baixando até R$ 4 no final do ciclo.

Impacto ambiental

A extensão da vida útil das peças atua diretamente na redução da pegada ecológica da indústria confeccionista, conhecida pelo elevado consumo de recursos naturais e descarte de resíduos.

"O brechó é um modelo de negócio que permite que o vestuário e os acessórios possam prolongar a sua vida útil. Aquele produto que muitas vezes fica guardado no armário sem uso ou é descartado de qualquer forma acaba poluindo. E a indústria da moda é uma das que mais poluem", destaca a coordenadora do curso de Design de Moda da Faculdade Senac, Daniela Vasconcelos de Oliveira.

A diminuição da agressão ao meio ambiente é reforçada por quem atua na linha de frente da reciclagem têxtil.

"O têxtil é altamente poluente. Quando a moda circula, além de dar uma oportunidade de cada peça dessa contar uma nova história, está protegendo o meio ambiente, porque está sendo consumida uma peça que já foi produzida", explica a gerente geral do Repense Reuse, Ivanir Matos.

Consumo consciente

Embora os preços baixos atraiam o público inicialmente, o fortalecimento dos brechós passa pelo combate ao preconceito com produtos de segunda mão e pelo incentivo a escolhas mais reflexivas.

"Acredito que o principal desafio é a quebra dos preconceitos, pois ainda há quem tenha ressalvas em relação à roupa de segunda mão. No entanto, são peças selecionadas. Para se ter uma ideia, há pessoas que compram uma roupa em nossa loja, se trocam no provador e vão direto para uma entrevista de emprego", relata Ivanir Matos.

A gestora ressalta o papel pedagógico desse modelo de varejo. "A princípio, as pessoas que não conhecem as nossas lojas começam a consumir pelo preço. Mas conversando com a nossa equipe, elas começam a criar uma consciência, e isso faz parte do nosso papel: plantar a sementinha do consumo consciente", pontua a gerente.

Pelo lado técnico e educacional, especialistas destacam a necessidade de alinhar a compra às reais necessidades do consumidor para evitar o acúmulo desnecessário.

"A partir do momento em que se prolonga a vida útil de uma peça, o consumidor passa a refletir sobre a real necessidade de comprar algo novo. A circularidade vem da ideia de que é possível comprar, mas também compartilhar, doar e fazer escolhas assertivas, sem impulso", analisa Daniela Vasconcelos.

Profissionalização e geração de renda

O fortalecimento da moda de segunda mão reflete uma reestruturação do mercado, que exige planejamento e gestão qualificada para garantir a atratividade das peças e a sustentabilidade dos negócios.

A operação no Recife exemplifica a complexidade dessa cadeia:

  • Etapa logística: coleta e triagem técnica realizada no Centro de Triagem da Imbiribeira.
  • Geração de empregos: criação de 26 postos de trabalho formais na capital (16 na loja e 10 no centro logístico).
  • Destinação social: reversão do resultado financeiro excedente para ações comunitárias no Brasil.

Para a consolidação desse ecossistema, o rigor técnico torna-se indispensável.

"Esses modelos de negócio crescem no mundo todo e, no Brasil, vivem uma crescente positiva pelo reconhecimento da importância desse ciclo. Contudo, à medida que o setor se expande, existe a necessidade de profissionalização, enxergando o brechó como um empreendimento que exige estudo de mercado, análise de público e curadoria rigorosa", conclui a docente da Faculdade Senac.

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Maria Clara Trajano

mtrajano@sjcc.com.br

Repórter de Cidades. Jornalista pela UFPE, no SJCC desde 2022.