Saiba como se precaver de golpes por telefone que utilizam técnica conhecida como ‘spoofing’
Criminosos que aplicam golpes por meio de ligações telefônicas utilizam técnica conhecida como spoofing para alterar o número que realiza a chamada

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Tática de spoofing para aplicar golpes de engenharia social
Como os golpistas abordam as pessoas: Criminosos ocultam a identificação real da origem das ligações telefônicas para a prática de golpes a partir de uma técnica conhecida como spoofing.
O termo vem do verbo spoof, que significa “enganar” em inglês.
Na prática, o número de telefone que aparece no visor do celular de quem recebe a ligação é diferente do número que, de fato, está realizando a chamada.
Segundo o professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Igor Monteiro Moraes, o spoofing é feito a partir de softwares específicos e utilizado pelos golpistas com dois objetivos: dificultar a identificação de quem está praticando o golpe e simular um número que aumente a probabilidade de o recebedor atender a ligação.
Neste último caso, Moraes cita alguns exemplos, como a utilização de um DDD que seja da mesma cidade do recebedor da chamada ou números semelhantes aos de bancos.
“Por exemplo, o Banco do Brasil é famoso por usar o prefixo de telefone 4004. Então, os golpistas podem usar um número que comece com 4004, 94004 ou 44004, que remeta ao Banco do Brasil e, por ser parecido, induza a vítima a atender achando que é alguém do banco que está ligando, mas, na realidade, o contato está sendo feito por um golpista”, explica o professor.
Moraes acrescenta que os criminosos podem ainda utilizar um número semelhante ao do recebedor da ligação para parecer que a chamada é de um telefone próximo ou, a partir de uma informação privilegiada, como a agenda do telefone de uma possível vítima, o número de uma pessoa próxima, alternando apenas um algarismo.
“Neste caso seria uma tentativa de ataque mais sofisticada”, diz o professor.
Que táticas eles usam para chamar a atenção
Após o atendimento da ligação, os criminosos usam as chamadas técnicas de engenharia social para aplicar os golpes.
Segundo uma publicação no site do Ministério da Fazenda, elas consistem em manipulação psicológica “para induzir as pessoas ao erro e enganá-las através de narrativas convincentes”. Idosos, pessoas com dificuldades tecnológicas ou problemas financeiros são os alvos preferidos dos golpistas.
“Eles já abordam a pessoa com o problema para que ela tome uma solução”, explica a advogada criminalista Ana Beatriz Krasovic.
“A gente chama isso de urgência forçada. Eles não conversam, não explicam toda a situação, o porquê da ligação, justamente para que a pessoa não tenha tempo de pensar. A pessoa automaticamente, inconscientemente, quer resolver aquele problema e acaba caindo no golpe.”
Segundo a advogada, outra característica das ligações é o fato de elas serem curtas e ágeis, para que as pessoas não percebam que se trata de um golpe.
Outro ponto são saudações genéricas, em alguns casos sem citar o nome da pessoa que atende a ligação.
No entanto, a advogada chama a atenção para o caso em que há vazamento de dados.
“Às vezes a pessoa tem um nome composto, mas o golpista cita apenas o primeiro nome, que foi a informação à qual ele teve acesso”, acrescenta Ana Beatriz.
A advogada cita outros exemplos que envolvem vazamentos de dados, como acesso a telefones de pessoas que contraíram empréstimos.
Neste caso, golpistas fazem contato e oferecem falsos descontos na quitação de parcelas em aberto.
Em outra situação, criminosos obtêm informações de pessoas que simularam a contratação de um cartão de crédito com um limite superior.
“Então, o golpista entra em contato e diz que o cartão está disponível mediante algumas condições”, diz a advogada.
- Qual é o objetivo do golpe: Fraudes financeiras e obtenção de dados pessoais.
Como se proteger do golpe
Especialista em privacidade e proteção de dados, a advogada Antonielle Freitas orienta a nunca fornecer códigos, senhas ou autorizar transações por telefone quando a chamada for inesperada.
“O mais seguro é desconfiar de qualquer pedido de informação pessoal feito em ligação não solicitada”, diz.
A advogada também orienta que se evite divulgar o número de telefone publicamente em redes sociais e formulários abertos. Já em casos de solicitações urgentes e ameaças, a orientação é desligar e confirmar a situação diretamente com a instituição pela qual os golpistas tentam se passar.
“Sempre é recomendável que a pessoa vá até a agência bancária para realizar algum serviço”, acrescenta Ana Beatriz. “Em casos de bancos digitais, a dica é utilizar o próprio aplicativo da instituição”.
De acordo com Antonella, outras orientações são:
- Ativar o bloqueio do celular (senha ou biometria) e manter o sistema e os aplicativos atualizados.
- Instalar e ativar um identificador de chamadas confiável por meio de recursos do próprio celular ou apps conhecidos.
- Utilizar serviços oferecidos pela sua operadora que filtram ou alertam sobre chamadas suspeitas.
A quem denunciar
No caso de cair no golpe, as advogadas orientam a guardar prints, gravações, registros de chamadas e extratos bancários, além de registrar ocorrência em delegacia e comunicar ao banco imediatamente.
Também consultada, a pesquisadora do programa de Telecomunicações e Direitos Digitais do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) acrescenta que, caso a pessoa identifique que seus dados estão sendo tratados de forma ilícita, é possível enviar uma petição para a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
O que diz a Anatel
Procurada, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou que todas as ligações que utilizam o mecanismo de spoofing “são consideradas fraudulentas e irregulares em todos os casos”.
De acordo com a agência, o Despacho Decisório nº 262/2024/COGE/SCO, de 23 de setembro, estabeleceu uma série de medidas para que as prestadoras de telefonia fixa e móvel possam prevenir e combater a prática.
Dentre elas, estão a suspensão da comercialização de produtos ou serviços que permitam a alteração indevida do número de origem, a proibição da revenda de recursos de numeração, o monitoramento e bloqueio de tráfego irregular entre operadoras e a criação de um canal setorial com instituições financeiras para o reporte de números suspeitos.
Já a Resolução nº 777, de 28 de maio, tornou obrigatória a autenticação de todas as chamadas telefônicas.
O processo técnico é realizado pelas operadoras e consiste em verificar a legitimidade do número de origem da chamada, garantindo que ele não foi falsificado.
Segundo a Anatel, as prestadoras têm um prazo de 3 anos para implementar a autenticação em todas as suas chamadas.
Outra medida, informou a Anatel, é o Acórdão 201/2025, de 14 de agosto de 2025, que estabeleceu um prazo de 90 dias para que todos os assinantes que originarem mais de 500 mil chamadas por mês passem obrigatoriamente a utilizar a funcionalidade de autenticação.
A medida ainda prevê que chamadas com adulteração de identificador deverão ser bloqueadas de forma automatizada.
Desconfiou que é golpe? O Comprova pode ajudar a verificar
O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas, eleições e possíveis golpes digitais e abre verificações para os conteúdos duvidosos que mais viralizam.
Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.
- Para se aprofundar mais: Recentemente, o Comprova mostrou como identificar e se proteger de golpes de chamadas de robôs.
A checagem foi publicada em 29 de agosto de 2025 pelo Comprova — coalizão formada por 42 veículos de comunicação que verifica conteúdos virais.
A investigação foi conduzida pelo Estadão e Grupo SINOS, e o conteúdo também passou por verificação de Jornal do Commercio, Folha de S. Paulo, Correio de Carajás e NSC Comunicação.
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