Comportamento | Notícia

O que são as WAGs? Influência, consumo, capital simbólico e o culto contemporâneo às celebridades

Entre mídia, mercado e comportamento, um olhar sobre como narrativas pessoais, luxo e lifestyle mobilizam atenção e desejo na era digital.

Por Daniela de Sá Publicado em 03/02/2026 às 5:00

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Um termo antes pejorativo, limitante e, até machista, está ganhando um novo significado no mundo das redes sociais. Elas não são mais apenas as parceiras do seu jogador preferido, ou a Maria Chuteira do craque da seleção.

Hoje, as WAGs conseguem se desvincular da imagem do namorado ou do marido, e angariam um público próprio e independente.

O termo WAGs vem do inglês “Wives And Girlfriends” (esposas e namoradas) e passou a ser usado para se referir às companheiras de atletas profissionais.

 
 
 
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Um post compartilhado por Taylor Swift (@taylorswift)

A sigla ganhou projeção internacional no início dos anos 2000, quando a imprensa britânica começou a acompanhar de perto a vida pessoal das parceiras da seleção inglesa, transformando essas mulheres em figuras midiáticas por seus estilos de vida, moda e presença em eventos esportivos.

Com o tempo, o termo se popularizou globalmente e passou a abranger mulheres de atletas de diferentes modalidades.

Antes de tudo, é importante ressaltar que esse termo não restringe as parceiras de terem a própria personalidade, história e identidade. ‘WAG’, na perspectiva atual, serve mais como um título: elas seriam as primeiras-damas dos esportes.

Mas o que mudou dos anos 2000 para cá? Qual foi a virada de chave que tirou esposas e namoradas de atletas do lugar de coadjuvantes e as colocou no centro da própria narrativa?

A resposta passa, inevitavelmente, pela internet, mais especificamente pela cultura digital e pelas redes sociais. Antes, as parceiras dos atletas existiam quase exclusivamente mediadas por terceiros: paparazzi, colunas sociais, revistas de celebridades. Suas imagens eram fragmentadas, editadas e, sobretudo, subordinadas à figura masculina do atleta.

Com a ascensão da internet e das plataformas digitais, esse modelo de comunicação vertical deu lugar a um processo mais horizontal, no qual essas mulheres passaram a produzir, gerenciar e distribuir seus próprios discursos.

À luz da teoria da comunicação, trata-se de uma mudança de mediação: elas deixam de ser apenas objeto da representação midiática para se tornarem sujeitos ativos da autoapresentação.

Instagram, YouTube e TikTok funcionam como espaços de construção identitária, onde as WAGs narram suas rotinas, carreiras, maternidade e opiniões, ressignificando sua imagem pública e rompendo com a lógica que as reduzia apenas ao papel de “esposa de”.

Mas quem são elas?

Mas afinal, quem são as mulheres que movimentam o imaginário pop hoje? Para entender esse fenômeno, é inevitável voltar àquela que é considerada uma das WAGs pioneiras: Victoria Beckham.


Nos anos 1990 e 2000, ao lado de David Beckham, ícone do futebol inglês, ela ajudou a consolidar o termo na cultura britânica — justamente onde a expressão surgiu, impulsionada pela cobertura intensa da vida pessoal dos jogadores da Premier League e de suas parceiras.

De lá para cá, o perfil dessas mulheres se expandiu e se diversificou. Hoje, nomes como Alexandra Saint Mleux (Charles Leclerc), Margarida Corceiro (Lando Norris), Kelly Piquet (Max Verstappen), Kika Cerqueira Gomes (Pierre Gasly), Carmen Mundt (George Russell), ligadas ao universo da Fórmula 1, são presenças constante nos holofotes do esporte mais caro do mundo.

 
 
 
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Um post compartilhado por Charles Leclerc (@charles_leclerc)

No Brasil, Bruna Biancardi (Neymar Jr.) se consolidou como um dos principais nomes desse cenário, ao lado de Duda Fournier (Lucas Paquetá) e Gabriely Miranda (Endrick). Já Georgina Rodríguez, noiva de Cristiano Ronaldo, aparece entre as com mais seguidores, ostentando uma vida entre luxo, moda e mídia internacional. Antonela Roccuzzo, esposa do ídolo argentino Messi, por sua vez, representa o estilo e a influência familiar.

 
 
 
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Georgina Rodríguez, noiva de Cristiano Ronaldo, aparece entre as com mais seguidores, ostentando uma vida entre luxo, moda e mídia internacional. Antonela Roccuzzo, esposa do ídolo argentino Lionel Messi, por sua vez, representa o estilo e a influência familiar.

 
 
 
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Um post compartilhado por Georgina Rodri?guez (@georginagio)

Outro ponto que ajuda a redefinir o conceito de WAGs é o fato de que, em muitos casos, o rótulo passou a ser aplicado depois que essas mulheres já tinham fama, carreira e relevância próprias — e, não raro, maior projeção pública do que a de seus parceiros atletas.

 
 
 
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Um post compartilhado por Vogue Latinoame?rica (@voguelatam)

É o caso de Taylor Swift, uma das maiores artistas pop do mundo, que passou a ser associada ao termo ao se relacionar com o jogador de futebol americano Travis Kelce, invertendo completamente a lógica original da sigla.

No cenário nacional, Virginia Fonseca é outro exemplo emblemático: empresária, influenciadora e dona de um dos maiores impérios digitais do país, ela já era uma celebridade consolidada muito antes de seu envolvimento com Vini Jr.

Nesses casos, o título de WAG deixa de ser uma identidade fundadora e passa a ser apenas um marcador relacional — quase lateral — dentro de trajetórias já estabelecidas.

O fenômeno evidencia como o poder de influência, na era das redes sociais, não está mais restrito ao desempenho esportivo, mas à capacidade de mobilizar audiência, capital simbólico e narrativas próprias.

Se tratando de automobilismo, o fenômeno das WAGs ganha contornos ainda mais exclusivos. Considerado um dos esportes mais elitistas do mundo, o grid funciona como uma vitrine natural para marcas de luxo, e as parceiras dos pilotos ocupam um papel estratégico nesse ecossistema publicitário.

Kelly Piquet, noiva de Max Verstappen, simboliza esse movimento: em 2025, ela estampou a capa da Vogue e mantém parcerias com nomes como Charlotte Tilbury, Eudora, Tiffany & Co. e Reebok.

Alexandra Saint Mleux, noiva de Charles Leclerc, também capa da Elle em 2025, colabora com grifes como Jacquemus, Dolce & Gabbana e MESHKI.

Carmen Mundt, parceira de George Russell, soma collabs com Tresemmé, a rede hoteleira Ritz e a Dior, enquanto Rebecca Donaldson, modelo e namorada de Carlos Sainz, mantém contratos com Dior, Michael Kors e Burberry.

Nomes como Kika Cerqueira Gomes e Margarida Corceiro completam esse cenário — assim como outras WAGs da Fórmula 1, todas elas garotas-propaganda da Alo, maior grife de fitwear do mundo da atualidade. Quando chegou no Brasil, a marca seguiu o modelo internacional, e mirou nas WAGs, tendo Bruna Biancardi como a embaixadora da grife no país.

Questionada sobre por que as marcas têm buscado cada vez mais WAGs para campanhas publicitárias, a jornalista e especialista em marketing de influência Maria Priscila Alves Nabozni é direta:

O que as torna atraentes para essas marcas? Eu acredito que a palavra é oportunidade. É oportunidade tanto para as marcas quanto para as garotas. Muitas vezes, você gostaria de ter uma associação de marca com uma pessoa que talvez você nem alcance — seja financeiramente ou de alguma outra forma.
Maria Priscila Alves Nabozni

Ela completa:

E quando nós falamos de mulheres que estão começando e que estão associadas dentro desse universo, desses companheiros, você acaba, de certa forma, tendo acesso. Aí eu entendo que é você aproveitar e emprestar, de certa forma, esse prestígio que a outra pessoa tem e, com isso, fazer essa construção desse uso para as marcas, para essas outras mulheres
Maria Priscila Nabozni

Para além das marcas e dos contratos publicitários, o interesse crescente do público sobretudo feminino pela vida das WAGs pode ser compreendido como um fenômeno de consumo simbólico e identificação aspiracional.

A partir da perspectiva dos estudos de comunicação e cultura, essas mulheres passam a funcionar como mediadoras de um imaginário que combina luxo, afetividade e cotidiano, oferecendo ao público acesso narrativo a um estilo de vida percebido como exclusivo e, ao mesmo tempo, emocionalmente reconhecível.

Conteúdos sobre viagens, moda, maternidade, relações familiares e rotinas domésticas de alto padrão operam como dispositivos de aproximação, criando uma sensação de intimidade com um universo materialmente inalcançável para a maioria.

Nesse sentido, o engajamento não se sustenta apenas na ostentação, mas na construção de narrativas de vida que articulam consumo, feminilidade e afetos, transformando o lifestyle das WAGs em um produto cultural capaz de mobilizar desejo, pertencimento e projeção social.

Ao comentar sobre o interesse crescente do público — especialmente nas redes sociais — pela rotina, pelos hábitos de consumo e pela vida pessoal das esposas e namoradas de esportistas, Maria Priscila elucida sobre os motivos desse fascínio:

Ninguém segue uma outra pessoa se não houver um aspiracional. E o aspiracional, ele se divide em sonhos e aplausos: ‘quero te copiar, quero viver o que você vive’. Isso não muda. Então, esse é o processo da gente querer ver como aquela pessoa vive, como aquela pessoa usufrui as coisas que ela tem acesso. Por isso costumamos dizer que a rede social é um conto de fadas. Todo mundo tá bem, todo mundo tá lindo, todo mundo é perfeito. Então, por quê? Porque as pessoas vão mostrar o que elas têm de melhor, principalmente quando elas estão muito bem. Então, esse tipo de realidade, esse tipo de aspiração, faz com que as pessoas queiram saber da vida das outras, acompanhem, torçam, emitam opinião positiva ou negativa.

Ao analisar como esse grupo pode influenciar o comportamento do público feminino que acompanha esporte, moda e lifestyle, Nabozni destaca o papel das WAGs como novas referências dentro do ecossistema de influência.

Segundo a especialista, quando determinadas mulheres passam a ganhar visibilidade por estarem associadas a atletas de alto desempenho, elas ajudam a reacender o interesse não apenas pelo esporte em si, mas também pelo universo simbólico que o cerca.

Esse movimento faz com que outras mulheres passem a olhar novamente para esses atletas, para suas trajetórias e para tudo o que gravita em torno deles, configurando um processo natural de influência, no qual atenção, identificação e comportamento caminham juntos.

A consolidação das WAGs como figuras centrais no ecossistema midiático contemporâneo não deve ser lida apenas como um fenômeno de glamour ou visibilidade individual, mas como resultado direto das transformações nas dinâmicas de comunicação, consumo e influência.

Inseridas em um ambiente digital orientado por narrativas aspiracionais, essas mulheres operam como mediadoras simbólicas entre o esporte de alto rendimento, o mercado de luxo e o cotidiano do público.

O interesse que desperta também um culto à celebridade, e a forma como as redes sociais reorganizam hierarquias de atenção, redefinem papéis sociais e ampliam os mecanismos de identificação e projeção.

WAG deixa de ser apenas um rótulo informal para se tornar uma chave de leitura sobre como gênero, visibilidade e capital simbólico são negociados na cultura digital.

Citação

O que as torna atraentes para essas marcas? Eu acredito que a palavra é oportunidade. É oportunidade tanto para as marcas quanto para as garotas. Muitas vezes, você gostaria de ter uma associação de marca com uma pessoa q

Maria Priscila Alves Nabozni
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E quando nós falamos de mulheres que estão começando e que estão associadas dentro desse universo, desses companheiros, você acaba, de certa forma, tendo acesso. Aí eu entendo que é você aproveitar e e

Maria Priscila Nabozni

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