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Expectativa de vida das mulheres voltou a crescer, diz IBGE; especialista explica

Comportamentos preventivos, menor exposição à violência e avanços sociais explicam por que elas vivem, em média, 6,6 anos a mais; entenda

Por Bianca Tavares Publicado em 17/12/2025 às 10:07

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A expectativa de vida do brasileiro voltou a crescer e atingiu 76,6 anos em 2024, o maior índice já registrado desde o início da série histórica do IBGE, iniciada em 1940. Em 2023, o número era de 76,4 anos. Os dados fazem parte da nova Tábua da Mortalidade divulgada pelo instituto e reforçam a retomada gradual da longevidade no país.

O levantamento também confirma uma tendência histórica. As mulheres continuam vivendo mais do que os homens. Em 2024, a expectativa de vida feminina chegou a 79,9 anos, enquanto a masculina ficou em 73,3 anos, uma diferença de 6,6 anos. Esse intervalo já foi menor no passado, como em 1940, quando era de 5,4 anos, e atingiu o ápice no ano 2000, ao chegar a 7,8 anos.

Segundo o professor Eduardo Batista, coordenador dos cursos de História e Sociologia da EAD UniCesumar, essa diferença é resultado de um conjunto de fatores. “A maior expectativa de vida das mulheres no Brasil está relacionada principalmente a aspectos comportamentais, biológicos e sociais. Elas tendem a adotar mais hábitos preventivos, se expõem menos a riscos e têm menor envolvimento em violência urbana e acidentes. Além disso, há diferenças hormonais e genéticas que favorecem maior proteção cardiovascular”, explica.

Os dados do IBGE também chamam atenção para a sobremortalidade masculina, especialmente entre os jovens. Em 2024, homens de 20 a 24 anos tiveram 4,1 vezes mais chance de não chegar aos 25 anos do que mulheres da mesma idade. Entre os grupos de 15 a 19 anos e de 25 a 29 anos, as taxas foram de 3,4 e 3,5, respectivamente.

Para Batista, o fenômeno está diretamente ligado à violência urbana. “Os altos índices de violência envolvendo jovens homens explicam parte significativa dessa sobremortalidade. Eles são mais expostos a homicídios, acidentes de trânsito e situações de risco, o que reduz drasticamente a expectativa de vida nessas faixas etárias”, afirma. Ele também destaca o impacto da urbanização acelerada no país. “A concentração de desigualdade e criminalidade em grandes centros reforça a vulnerabilidade dos homens jovens nesses territórios”, complementa.

O crescimento geral da expectativa de vida no Brasil, segundo o professor, é reflexo direto de avanços sociais acumulados ao longo das últimas décadas. “A expansão da educação, a melhoria das condições sanitárias, o acesso a serviços públicos, a redução da pobreza e a maior conscientização sobre saúde e bem-estar ampliaram oportunidades e diminuíram riscos associados à mortalidade precoce”, avalia.

No caso das mulheres, esse processo foi ainda mais intenso. “A ampliação da atenção básica, o pré-natal, o acompanhamento ginecológico e os programas preventivos permitiram diagnósticos mais precoces, maior controle de doenças crônicas e redução de mortes evitáveis, contribuindo para que as mulheres vivam mais”, explica Batista.

A educação aparece como um dos fatores centrais nesse cenário. “Mulheres mais escolarizadas tendem a buscar mais informações sobre saúde, tomar decisões mais conscientes sobre alimentação e prevenção, ter maior autonomia econômica e adotar comportamentos de menor risco”, enfatiza. A presença feminina em setores como educação, saúde e serviços administrativos também favorece ambientes de trabalho com menor exposição a riscos físicos e à violência.

Os hábitos cotidianos ajudam a ampliar essa diferença. “As mulheres procuram mais atendimento médico, mantêm alimentação mais equilibrada, consomem menos álcool e tabaco e se expõem menos a comportamentos de risco. Também costumam cultivar redes sociais de apoio, o que impacta positivamente a saúde mental e a longevidade”, destaca o professor.

O aumento da participação feminina no mercado de trabalho também influenciou esse cenário. “Embora a dupla jornada possa gerar estresse, prevalecem os efeitos positivos da autonomia financeira e do acesso ampliado a cuidados”, analisa.

Com a projeção de que as mulheres seguirão como maioria da população idosa no país, Batista reforça a necessidade de políticas públicas específicas. “O envelhecimento da população feminina exige investimentos em cuidados de longo prazo, ampliação da atenção a doenças crônicas, fortalecimento da previdência e programas de envelhecimento ativo. Muitas mulheres vivem mais, mas ainda envelhecem com menor renda e maior necessidade de apoio”, conclui.

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