"Ninguém aguenta mais polarização": cientista político avalia o cenário eleitoral de 2026
Pesquisas qualitativas mostram cansaço do eleitor, busca por nome fora do eixo Lula-Bolsonaro e declínio do bolsonarismo, aponta Adriano Oliveira
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A política brasileira segue marcada pela polarização entre lulismo e bolsonarismo, mas parte do eleitorado já demonstra cansaço desse embate. Pesquisas qualitativas apontam que muitos buscam alternativas fora desses dois polos.
O cientista político Adriano Oliveira participou do programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, e detalhou esse cenário, reforçando que um candidato "nem de Lula e nem de Bolsonaro" teria chances de eleição se focasse em eleitores estratégicos.
Cansaço com a polarização
O cientista político explica que, entre 2023 e 2024, as pesquisas qualitativas, ou seja, as que conversam com os eleitores, mostravam expectativa positiva em torno de Lula e também uma base bolsonarista forte e mobilizada.
A partir de 2025, porém, o cenário muda. O pesquisador descreve que passou a identificar menções frequentes à polarização e aos conflitos políticos como principais problemas do país. "O ideal, para os eleitores, era que tivéssemos uma pessoa que nem fosse Lula e nem fosse Bolsonaro. Uma pessoa nova", analisa.
Eleição da rejeição
Segundo Oliveira, a disputa de 2026 tende a repetir um padrão de rejeição consolidada tanto ao lulismo quanto ao bolsonarismo. "E quem é o menos rejeitado?", questiona. Para ele, quando a alternativa é entre Lula e um candidato apoiado por Bolsonaro, "o lulismo tem menor rejeição".
Ele também afirma que qualquer candidato de oposição cresce automaticamente ao se posicionar contra Lula, mas encontra um limite eleitoral quando se vincula diretamente ao bolsonarismo. "O que limita a vitória desse candidato é se ele vier bolsonarizado".
Fragmentação da direita
Na avaliação do cientista político, erros de articulação da direita e dos principais partidos de oposição dificultam o surgimento de uma alternativa competitiva. Governadores como Ronaldo Caiado, Tarcísio de Freitas e Romeu Zema são citados como líderes que, ao se projetarem individualmente, enfraquecem a direita.
Ele aponta, ainda, que Bolsonaro precisaria lançar um membro da própria família para manter relevância. "Se Bolsonaro não apresentar Flávio, não apresentar Eduardo, não apresentar Michele, ele morrerá politicamente e eleitoralmente".
Entre os nomes que despontam como potenciais alternativas, o pesquisador destaca Ratinho Júnior, mas alerta para o risco de que ele se torne apenas uma candidatura ensaiada, como ocorreu com Rodrigo Pacheco em 2022.
Perfis possíveis
Ao comentar a hipótese de Renan Santos, líder do partido Missão, mobilizar o eleitorado cansado da polarização, Oliveira diz que "ninguém sabe o que é o Missão. Apenas os estudantes, apenas aquelas pessoas que estão filiadas ao partido".
Ele considera que Renan Santos tem perfil mais parlamentar do que presidencial, embora reconheça que comunicação e marketing poderiam moldar uma candidatura.
Também cita Pablo Marçal como um nome que poderia ter sido trabalhado como alternativa de renovação, caso tivesse ajustado posicionamentos e estilo.
Força do eleitor independente
O cientista político reforça que o eleitorado independente, ou seja, aquele que rejeita tanto Lula quanto Bolsonaro e demonstra cansaço da disputa, é hoje um dos grupos mais estratégicos.
Esse segmento, aponta ele, foi descrito em pesquisas recentes como menos engajado e com maior tendência à abstenção, mas é também onde se encontra o maior desejo por renovação política.
Para Oliveira, um candidato que consiga "transitar entre o eleitor bolsonarista que não quer saber de Lula, entre o eleitor de direita não bolsonarizada e entre os eleitores independentes", pode estruturar uma disputa real contra o petista no segundo turno.