Perda de peso com medicamentos pode reduzir dor e adiar prótese em artrose

Estudos recentes apontam impacto no joelho e quadril, mas especialistas alertam para uso criterioso e acompanhamento médico

Por Maria Clara Trajano Publicado em 12/02/2026 às 17:17

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A relação entre obesidade e desgaste das articulações é conhecida da ortopedia. O excesso de peso aumenta a carga sobre joelhos e quadris, favorecendo dor, limitação de movimentos e, em muitos casos, a necessidade de prótese.

Nos últimos anos, porém, pesquisas passaram a observar que medicamentos utilizados para emagrecimento podem interferir também nesse desfecho.

Segundo o ortopedista Thiago Fuchs, cirurgião especializado em joelho e quadril, a redução do peso corporal traz efeitos mecânicos e metabólicos importantes.

“O excesso de peso sobrecarrega as articulações dos joelhos e quadris, o que acelera o desgaste da cartilagem. Além disso, a obesidade está associada a um estado de inflamação crônica no corpo, e o tecido adiposo libera substâncias inflamatórias que podem danificar a cartilagem e agravar a artrose”, explica.

O que mostram os estudos

Pesquisas recentes acompanharam pacientes por cerca de 18 meses utilizando fármacos como tirzepatida e semaglutida, inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes e que ganharam notoriedade pelo efeito no emagrecimento. Entre os resultados observados, houve redução da dor e adiamento de cirurgias.

Em parte dos pacientes que perderam peso, verificou-se queda de até 40% na necessidade de prótese de quadril e de 20% nas indicações de prótese de joelho.

“Esses dados não significam que o medicamento evite a prótese para sempre, mas mostram que muitos pacientes conseguiram sair da fila ou adiar a cirurgia no curto e médio prazo”, afirma Fuchs.

Um dos trabalhos que deram visibilidade ao tema foi o estudo SURMOUNT-5, publicado no New England Journal of Medicine. Embora o foco principal fosse a perda de peso, os pesquisadores também registraram desfechos relevantes para a área ortopédica.

Outro levantamento, conduzido por pesquisadores do Brigham and Women’s Hospital, em Boston, avaliou diferentes estratégias clínicas para pacientes com obesidade e osteoartrite de joelho, incluindo dieta, exercícios, uso das medicações e cirurgia bariátrica. Em todos os grupos houve algum nível de redução da dor.

Menos carga a cada passo

Parte da explicação é biomecânica. Durante a caminhada, o joelho pode suportar de três a cinco vezes o peso corporal; o quadril, de duas a três vezes.

“Cada quilo perdido representa dezenas de quilos a menos de carga dentro da articulação a cada passo. Ao longo do dia, isso se transforma em toneladas de impacto poupadas”, diz o ortopedista.

Com menor sobrecarga, muitos pacientes relatam melhora da mobilidade, maior tolerância aos exercícios e melhor resposta ao tratamento conservador.

E quando a cirurgia ainda é necessária?

Mesmo nos casos em que a prótese não pode ser evitada, há indícios de benefícios. Dados observacionais apontaram redução de infecção periprotética, menor taxa de reinternação em 90 dias e diminuição de complicações médicas totais entre pacientes que haviam utilizado agonistas de GLP-1 antes do procedimento.

“Esses números são muito importantes do ponto de vista cirúrgico, porque a obesidade aumenta o risco de complicações. Melhorar o perfil metabólico antes da cirurgia pode tornar o procedimento mais seguro. Mas é imprescindível que o paciente informe ao cirurgião que está usando esses medicamentos. O uso precisa ser suspenso algumas semanas antes da cirurgia, para não haver riscos”, alerta Fuchs.

Limites e cuidados

Apesar dos resultados, a ciência ainda busca respostas sobre a duração desses efeitos no longo prazo. Um estudo em andamento, chamado STOP Knee OA, pretende avaliar se a tirzepatida pode reduzir dor, limitação funcional e a necessidade de artroplastia em pacientes com artrose moderada a grave.

O especialista também chama atenção para riscos. “O maior problema, do ponto de vista ortopédico, é a perda muscular junto com a perda de peso, o que pode piorar os sintomas da artrose”, afirma.

Por isso, a medicação não deve ser encarada como solução isolada. Exercícios de força, fisioterapia, alimentação adequada e acompanhamento com endocrinologista, nutricionista e ortopedista seguem como parte essencial do tratamento.

Para Fuchs, os medicamentos podem ocupar um papel importante, desde que haja indicação correta. “Eles não substituem o tratamento ortopédico tradicional, mas podem ser aliados poderosos para reduzir dor, melhorar função, diminuir complicações e adiar a prótese em pacientes bem selecionados. A chave é usar com critério e numa estratégia multidisciplinar”, conclui.

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