SEGURANÇA VIÁRIA | Notícia

Uber e 99 Moto: desconstruindo os argumentos de que o transporte com motos é seguro. Ponto a ponto

Em artigo, vice-presidente honorário da Associação Internacional de Transportes Públicos alerta poder público para riscos da epidemia vivida no País

Por Roberta Soares Publicado em 02/04/2025 às 13:39 | Atualizado em 02/04/2025 às 13:47

A Coluna Mobilidade publica o artigo do Jurandir Fernandes, vice-presidente honorário da UITP (Associação Internacional de Transportes Públicos), no qual é desconstruído, ponto a ponto, os argumentos apresentados pela gigante da mobilidade urbana - Uber - em campanha publicitária que vem sendo desenvolvida na capital, o atual epicentro da batalha contra a liberação da versão digital do mototáxi: o Uber e 99 Moto.

No artigo, Jurandir Fernandes desconstrói, com argumentos técnicos e que defendem a mobilidade coletiva e segura sobre o transporte individual de duas rodas, a estratégia publicitária da Uber para convencer a população de que todo o País já tem o Uber Moto, menos São Paulo.

É importante lembrar que as motos já respondiam por 70% das mortes e mutilações no trânsito brasileiro e têm aumentado sua participação com a explosão do uso nas ruas e avenidas do País, puxadas pelo Uber e 99 Moto e os delivers. E, ainda, pela inclusão do passageiro, que em sua maioria não tem experiência para ser ‘co-piloto’ nas viagens - porque é assim que o garupa de uma motocicleta precisa se portar. Confira o artigo na íntegra:

* Por Jurandir Fernandes

“Nestes últimos dias, a plataforma Uber lançou uma campanha publicitária apresentando uma série de argumentos a favor da regulamentação do mototáxi na cidade de São Paulo. Usou inclusive o nome de nossa cidade com a frase “Recife tem, São Paulo não tem” exibida em telas de mídia em estações de metrô e outros locais de grande circulação.

Os gestores públicos, os operadores de transporte e a sociedade civil podem se contrapor aos argumentos veiculados pela Uber. Ao mesmo tempo, devem propor medidas urgentes para que a batalha vá além do campo jurídico e se efetive através de medidas concretas e urgentes, para que a população não fique à mercê de um modo inadequado como transporte público.

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Um único ocupante na moto já era um problema porque a grande maioria não conta com EPIs e usam o capacete indevidamente. Com a introdução do passageiro, a situação ficou pior - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

A cada argumento veiculado pela Uber, temos ponderações técnicas e propostas concretas como contraponto.

Argumento da Uber: O mototáxi é uma opção econômica para deslocamentos diários.

Contraponto: Embora o mototáxi possa parecer uma opção barata, os custos ocultos relacionados à segurança e saúde pública são significativos. Acidentes de moto (o termo agora é sinistros de trânsito, segundo o CTB e a ABNT) são mais frequentes e graves, gerando imensuráveis perdas aos familiares das vítimas, altos custos ao sistema de saúde pública ao lado de grandes impactos à economia do país com a perda de jovens trabalhadores.

Ação Recomendada: Gestores públicos devem investir prioritariamente em transporte coletivo de qualidade que oferece segurança e eficiência sem os riscos associados ao mototáxi. Campanhas de conscientização sobre os riscos do mototáxi e a promoção de alternativas seguras devem ser intensificadas.

Argumento da Uber: O mototáxi reduz significativamente o tempo de trajeto.

Contraponto: À medida que os urgentes investimentos forem feitos, o ganho de tempo na viagem feita com o mototáxi tende a se reduzir. Esta deve ser a meta, urgente, nem que medidas operacionais no trânsito tenham que ser feitas com o apoio do órgão de trânsito do município apoiado pelo policiamento de trânsito. O menor ganho de tempo tende a não compensar o risco e o desconforto associados a andar na garupa de uma moto.

Ação Recomendada: Investir na melhoria e expansão das redes de transporte público abrindo corredores exclusivos para ônibus, mesmo nas periferias, e expandindo as redes de linhas capilares para que os moradores tenham acesso rápido e seguro aos principais eixos de transporte, seus terminais ou estações.

Argumento da Uber: O mototáxi segue padrões de segurança com várias ferramentas de proteção.

Contraponto: Apesar das medidas de segurança, a natureza do transporte em motocicletas é, inerentemente, mais perigosa e desconfortável. A probabilidade de acidentes (sinistros de trânsito) é maior, e as consequências são muito mais graves. A Uber não diz nada sobre os dias de intempéries e com os eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Passageiros do serviço de Uber e 99 Moto estão andando soltos na garupa das motos, com capacetes inadequados, dedos do pé expostos e até manuseando celulares - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

O transporte coletivo é anos-luz mais seguro. Comparem as estatísticas: mortos e feridos em acidentes (sinistros) de moto versus todo o sistema de transporte coletivo!

Um exemplo esclarecedor: em 2024, oito pessoas morreram em acidentes (sinistros) de trânsito em Hortolândia (SP), uma cidade de 250 mil habitantes. Seis deles estavam em motos. Querem maior evidência da letalidade dos acidentes (sinistros) com motos?

Argumento da Uber: O mototáxi oferece oportunidades de renda para motociclistas.

Contraponto: A precarização do trabalho é uma preocupação, com muitos motociclistas expostos a riscos sem garantias trabalhistas e previdenciárias adequadas ou totalmente inexistentes. O combate à indústria do fumo, que também gerava milhares de empregos, melhorou, e muito, a qualidade de vida do brasileiro.

Ação Recomendada: Promover políticas de emprego que ofereçam segurança e estabilidade, incentivando o emprego formal e o treinamento em setores de transporte público. Devemos lutar por iniciativas de capacitação profissional e não lançar nossos jovens em empregos que colocam em risco suas vidas e a dos passageiros.

Argumento da Uber: O mototáxi é utilizado por classes econômicas mais baixas, promovendo inclusão.

Contraponto: A verdadeira inclusão vem do acesso equitativo a um transporte público de qualidade, que não discrimine pela capacidade de pagar. O uso do mototáxi, quando ocorre, não é em busca de tarifa mais baixa. O morador da periferia busca reduzir seu tempo de viagem até o terminal de ônibus ou estação de trem ou metrô.

Ação Recomendada: Aumentar o investimento em transporte público conectado e eficiente, com integração tarifária.

Conclusão

O mototáxi, apesar de suas aparentes vantagens, não é uma solução adequada para os desafios da mobilidade em nossas cidades. Gestores públicos, operadores de transporte e a sociedade civil devem trabalhar juntos para promover alternativas mais seguras, eficientes e sustentáveis, garantindo uma mobilidade urbana que beneficie a todos.

O embate jurídico é necessário, mas não suficiente. O embate deve se dar nas ruas e trilhos por onde milhões de cidadãos se deslocam diariamente. Ou aprimoramos o atendimento nas periferias ou nenhum esforço de caráter jurídico será suficiente para impedir este retrocesso lamentável".

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