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‘Silvio Santos Vem Aí’ constrói um memorial para Senor Abravanel por meio do recorte da sua candidatura à presidência da república na década de 1980

Sob a direção de Cris D’Amato, o longa chega nas salas de cinemas no dia 20 de novembro; confira aqui nossa crítica antecipada do filme

Por Laura Martiniano Publicado em 14/11/2025 às 17:32

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Rumores de uma suposta candidatura do apresentador Luciano Huck para a presidência do Brasil em 2022 foram suficientes para mover a mídia e os eleitores — entre críticos e apoiadores — em torno de uma escolha curiosa, para dizer o mínimo. Uma figura emblemática da TV, rosto já muito conhecido dos brasileiros, de repente, decide ampliar a magnitude da sua influência, entrar para o campo da política, área na qual nunca havia penetrado antes. Esse não é um feito inédito por aqui, longe disso. No fim das contas, Huck nunca chegou a realmente se candidatar ao cargo, mas o mesmo não pode ser dito sobre Silvio Santos, que quase disputou a liderança do país no ano de 1989, primeira eleição democrática após a Ditadura Militar.

O dono do SBT teria seguido adiante na candidatura caso ela não tivesse sido barrada pelo Supremo Tribunal Federal após diversas contestações de seus adversários. E é esse o recorte que o filme Silvio Santos Vem Aí trabalha, dando luz a um caso curioso da história do entretenimento e da política brasileira. O longa dirigido por Cris D’Amato estreia nos cinemas no dia 20 de novembro, com Leandro Hassum sob a pele de Silvio e Manu Gavassi interpretando Marília, uma publicitária fictícia que fica responsável pela campanha do apresentador.

O desafio de trabalhar a imagem de Senor Abravanel para um âmbito além do entretenimento não parte apenas do fato de seu nome ser uma novidade na política. O apresentador anuncia sua candidatura e começa sua campanha no dia 31 de outubro, duas semanas antes do primeiro turno, marcado para 15 de novembro. Nesses poucos dias que restam até as eleições, Marília precisa conhecer Silvio para além do seu trabalho: entrar nos pormenores da sua vida pessoal para entender o que pode ser usado a favor dele na campanha e identificar possíveis alvos de ataques de seus adversários. Se o curto período de tempo já não é obstáculo suficiente, ela também enfrenta a resistência do candidato em se abrir, ir além das superficialidades que as pessoas já sabem sobre ele.

Conforme conhece melhor a figura por trás do grande showman e começa a perceber seu carinho pelo trabalho e pelo público, Marília, antes crítica do seu programa, passa a enxergá-lo com outros olhos e a acreditar genuinamente no potencial e nas boas intenções da sua candidatura. Contudo, enquanto sua carreira parece estar despontando, sua vida pessoal entra em crise, já que a personagem dedica toda a sua energia ao trabalho e peca com seus relacionamentos.

Caracterização e personagens

Divulgação/fernando pastorelli
‘Silvio Santos Vem Aí’ constrói um memorial para Senor Abravanel por meio do recorte da sua candidatura à presidência da república na década de 1980 - Divulgação/fernando pastorelli

A proposta de Silvio Santos Vem Aí até trabalha um excerto interessante da vida do apresentador, no entanto, o protagonismo de Marília acaba roubando parte do potencial da história. Hassum interpreta um Senor carismático, que desperta curiosidade, em oposição à personagem de Gavassi, que tem mais tempo de tela que o próprio apresentador — embora seja seu nome no título do filme e sua imagem no centro dos pôsteres. Os dilemas da publicitária, dividida entre sua dedicação excessiva ao trabalho e o colapso das outras áreas da sua vida, são bem desinteressantes, e sua personalidade não ajuda o espectador a simpatizar com ela ou se conectar com seus problemas. Ter Silvio Santos, uma figura magnética, como outro personagem principal, faz Marília parecer ainda mais apagada. O trabalho de Gavassi não é ruim, mas não se destaca, principalmente quando ela contracena com Hassum. A sensação que dá é a de que ela está simplesmente interpretando ela mesma.

A apatia por Marília é reforçada por seus momentos de falta de verossimilhança logo no início do filme. Em um dos primeiros diálogos da personagem com o chefe do setor da agência de marketing para a qual ela trabalha, ela se nega a trabalhar com Silvio, sob o argumento de que não gosta e não acompanha o trabalho do apresentador — como se a função de um publicitário fosse promover o que quer. Essa birra com o dono do SBT entra em conflito com a personalidade workaholic que o roteiro quer nos convencer a todo custo que ela tem: não dá para imaginar alguém que prioriza seu crescimento profissional recusando uma oferta de um dos maiores nomes da TV.

Felizmente, o longa ganha certa força quando Hassum entra em cena. O comportamento e os trejeitos de Silvio são muito bem emulados por ele. O carisma do personagem não é mérito apenas do ator: a direção de arte faz um trabalho competente com os figurinos e com todo o universo do programa. O filme conta com momentos em que o apresentador comanda seu show, dentro de um cenário lúdico, colorido e cheio de características que remetem ao original.

Arte e fotografia

Divulgação/fernando pastorelli
‘Silvio Santos Vem Aí’ constrói um memorial para Senor Abravanel por meio do recorte da sua candidatura à presidência da república na década de 1980 - Divulgação/fernando pastorelli

As cenas em que o filme emula o Programa Silvio Santos são um destaque positivo. O longa reconstrói alguns dos seus quadros mais marcantes, e, nesses instantes, a direção de arte e de fotografia se unem e trabalham com seu melhor: as cores, os cenários e os figurinos alegres e vibrantes se chocam com a paleta presente nos momentos de “realismo”; e a imagem, junto a seus enquadramentos, trazem o estilo característico do show. O resultado disso é uma evocação de nostalgia e saudade que realmente funciona.

Os quadros simulados, no entanto, tem uma função maior que a do saudosismo, eles servem como artifício para contar alguns elementos do passado do apresentador. Um exemplo disso é quando a direção usa um quadro de namoro, comum em muitos programas de auditório, em que um participante solteiro se apresenta para outros com o objetivo de impressionar e conseguir um encontro, para narrar a história de Silvio e sua viúva, Iris. Essa é uma escolha divertida, que dá dinamismo ao filme, mostra ao invés de simplesmente falar, sem recorrer a um flashback simples — além de adicionar um Q de fantasia e bom humor.

Fora dos takes de programa, a fotografia de Silvio Santos Vem Aí também tem seus momentos interessantes. Entre eles, está a breve participação de Lombardi, locutor que anunciava produtos e quadros no programa. Sua imagem era praticamente desconhecida até os anos 2000, e o trabalho de câmera aproveita a mítica desse mistério. Enquanto Marília conversa com ele para descobrir mais sobre Senor, o rosto do personagem não aparece. Diversos planos são utilizados aqui, sempre de modo a haver algum elemento na frente da face de Lombardi. As escolhas são bem criativas e destacam o trabalho dos profissionais por trás das filmagens.

Artificial, ainda que divertido

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‘Silvio Santos Vem Aí’ constrói um memorial para Senor Abravanel por meio do recorte da sua candidatura à presidência da república na década de 1980 - Divulgação

Apesar dos pontos positivos, o filme também perde pela superficialidade. A introdução a Senor como político e a ideia de desvendar o homem por trás de Silvio criam uma expectativa que, no fim das contas, não é suprida. O espectador não descobre nenhuma informação muito diferente do já bastante difundido sobre ele. A proposta de conhecê-lo a fundo é substituída pelo reforço do imaginário do apresentador como uma figura que beira a perfeição. Uma série de personagens, com pouquíssimos minutos de tela — e nenhuma profundidade, só existe para enfatizar o quanto ele é incrível, um verdadeiro pai de família que ama seu trabalho e seu público. Embora o longa até tente abordar uma polêmica envolvendo Senor, o momento é breve e aparece repleto de justificativas. Ainda que Silvio seja uma personalidade lendária da TV, cujos méritos devem ser destacados, esse excesso nas qualidades em detrimento da complexidade acaba tornando o personagem artificial.

Silvio Santos Vem Aí trabalha muito bem com a nostalgia para homenagear o apresentador, que fez parte da rotina de milhões de brasileiros. Como um tributo, o filme funciona, e deve agradar quem guarda memórias afetivas de Senor. Mesmo que não trabalhe da melhor forma o potencial do recorte, o longa tem seus momentos de destaque e, principalmente, é realmente divertido.

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