Feminicídio na política: Por que o combate à violência contra a mulher pode ser central nas eleições 2026
Aumento nos casos violentos tem impulsionado o uso do tema nos palanques, mas há alerta para instrumentalização eleitoral sem interesses concretos
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Os discursos de enfrentamento à violência contra a mulher têm ganhado espaço crescente no debate político e começam a se consolidar como um dos temas centrais da agenda pública, com potencial de atravessar a campanha eleitoral de 2026.
Embora historicamente a segurança pública já seja um dos nortes das discussões eleitorais, o combate à violência de gênero, cujo debate é urgente devido aos índices elevados em todo o país, é visto como um potencial norte dos programas de campanha do ano que vem.
Declarações recentes do presidente Lula (PT) e da governadora Raquel Lyra (PSD) indicam que o combate ao feminicídio e à violência doméstica deixou de ocupar apenas o campo das políticas setoriais e passou a integrar o discurso político de maior visibilidade.
No início deste mês, durante visita à Refinaria Abreu e Lima (Rnest), no Complexo Portuário de Suape, em Ipojuca, no Grande Recife, Lula desviou o discurso sobre a entrega da Petrobras e usou metade do tempo para fazer um pronunciamento contundente sobre o tema.
Em tom de indignação, o petista direcionou sua fala aos homens, classificou agressores como “animais irracionais” e questionou a eficácia da legislação penal diante da brutalidade dos crimes recentes noticiados pela imprensa.
A fala ocorre em um contexto de números alarmantes. Em 2024, foram registrados 1.492 feminicídios no Brasil e 3.870 tentativas de feminicídio, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Na semana passada, Lula voltou a tratar do assunto ao convocar uma reunião em Brasília com representantes dos Três Poderes, com o objetivo de discutir ações conjuntas de enfrentamento à violência contra a mulher.
“Essa reunião é para ver se a gente consegue construir uma proposta que envolva a sociedade brasileira, homens e mulheres. Mas que envolva, sobretudo, o poder público, que pode mais. O prefeito pode mais. O governador pode mais. O Congresso pode mais… fazer com que a gente possa viver mais tranquilos”, disse Lula no encontro.
O movimento do presidente ocorre em paralelo a iniciativas e discursos semelhantes nos estados. Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra tem inserido o assunto em seus discursos desde o início da gestão. Ainda assim, os números seguem elevados e indicam um desafio persistente, uma vez que o ano 2025 tem sido marcado pelo aumento dos casos de feminicídio no estado.
Segundo dados da Secretaria de Defesa Social (SDS), 83 mulheres foram vítimas desse tipo de crime entre janeiro e novembro em Pernambuco. No mesmo período de 2024, foram registrados 68 casos, o que representa um crescimento de 22%. Também foram contabilizadas 38.753 queixas de violência doméstica e familiar no mesmo intervalo de 2025.
Os números reforçam que esses crimes devem figurar como uma das principais preocupações sociais no estado, ampliando a pressão por respostas concretas do poder público e empurrando o tema para o centro das plataformas eleitorais.
A cobrança se amplia quando casos bárbaros ganham maior repercussão, como o de Isabela Gomes de Macedo, morta ao lado dos filhos em um incêndio criminoso causado pelo companheiro dela na comunidade Icauã, no bairro da Caxangá, na Zona Oeste do Recife, e o da confeiteira Thaissa Lorranu Muniz Melo, assassinada e esquartejada pelo ex-namorado no bairro da Várzea, também na capital pernambucana.
No último dia 10, a governadora realizou a entrega de 182 veículos destinados aos Organismos Municipais de Políticas para as Mulheres e, em discurso, afirmou que "Pernambuco não tolera violência contra a mulher".
Ainda no evento, a governadora disse querer fazer de Pernambuco um território onde a mulher tem o direito de ser livre. “Quando a gente cuida de uma mulher, a gente cuida de uma família inteira”, discursou.
Na última terça-feira (23), foi a vez do prefeito do Recife, João Campos (PSB), levantar a bandeira em um vídeo publicado em seu perfil nas redes sociais. Questionado sobre a polêmica envolvendo bolsonaristas e uma marca de sandálias, ele preferiu focar no enfrentamento ao feminicídio.
"As pessoas estão utilizando a rede social para brigar, para ter discordância, e estão deixando temas muito importantes sem serem debatidos. Por exemplo, o aumento de feminicídio. É muito mais importante que se debata sobre isso, se busque soluções, se tenha indignação sobre isso, que governantes possam atuar mais, que as pessoas possam ser mais solidárias, mais críticas em relação a esses temas. Na minha opinião, devia se falar muito mais do aumento de feminicídios e como isso deve ser combatido", afirmou João.
Tema será central em 2026
O reforço do discurso e das ações, tanto no plano federal quanto no estadual, sinaliza que o enfrentamento à violência contra a mulher tende a ocupar lugar central no debate político atual.
No livro Brasil no Espelho, o cientista político Felipe Nunes traz números alarmantes sobre a percepção de falta de segurança no país, sobretudo para mulheres. O medo da violência aparece hoje como a principal preocupação dos brasileiros, citada por 22% da população — o maior índice entre todos os temas. A apreensão é ainda mais intensa entre grupos vulneráveis: para 26% das mulheres, a violência é a maior preocupação, contra 19% dos homens.
Além da violência de gênero, a sensação de insegurança nas ruas também é majoritariamente feminina. Entre os grupos que mais se sentem inseguros ao caminhar nas ruas, predominam mulheres, com destaque para mulheres pretas que ganham entre dois e cinco salários mínimos, índice que chega a 78%, evidenciando o peso do medo na vida cotidiana.
À medida que se aproxima o calendário eleitoral de 2026, o tema desponta não apenas como resposta a uma demanda urgente, mas também como elemento central da narrativa de governos que buscam demonstrar sensibilidade social, capacidade de articulação institucional e compromisso com políticas públicas de proteção às mulheres.
Por este motivo, a cientista política Priscila Lapa afirma que o assunto deverá estar no foco da disputa eleitoral do ano que vem.
“A segurança pública naturalmente é um tema que já pauta muitas eleições estaduais. E especificamente tratando do feminicídio, é um tema que está no ápice do processo de inquietação da sociedade. Existe uma percepção de que a existência de legislações para combater e prevenir a violência não têm sido suficientes. E aí a sociedade começa a dizer assim: ‘Não é possível que não haja nada a ser feito’. Então não tenho dúvida de que haverá cobrança sobre isso sim”, analisou.
Segundo Priscila Lapa, o debate ganha ainda mais força diante do aumento da presença feminina nas chapas, especialmente com mulheres ocupando posições de liderança, o que amplia a pressão por respostas objetivas e resultados imediatos por parte de quem disputa cargos majoritários.
“Isso ocorre em Pernambuco com a própria governadora sendo uma mulher. Isso proporciona que ela tenha um lugar de fala diferenciado sobre isso. Mas ela vai ter que estar muito preparada para as cobranças que virão por ser mulher, no que foi possível avançar ao longo do mandato, qual foi a diferença que fez ter uma mulher à frente do Executivo nesse combate”, apontou.
Por outro lado, a cientista política e mestra em Políticas Públicas de enfrentamento à violência contra mulheres, Fernanda Negromonte, acredita que a distância do calendário eleitoral pode contribuir para que o tema perca centralidade no debate público.
Na avaliação dela, a pauta tende a ser engolida pela polarização que domina o cenário político e pelas disputas em torno de outros assuntos que mobilizam o Congresso.
“O tema já tem sido deixado como uma agenda secundária, porque todos os dias acontecem casos de feminicídio, enquanto o Congresso está votando outras pautas que vão influenciar diretamente na polarização política e nas eleições. E isso acaba deixando de lado esse caso de violência contra a mulher recorrente”, ponderou.
Apesar das ressalvas, Fernanda Negromonte avalia que o enfrentamento à violência contra a mulher ainda tem potencial para ocupar espaço relevante na agenda eleitoral de 2026. Para ela, trata-se de um tema que pode ganhar centralidade à medida que a disputa se intensificar e as candidaturas forem cobradas por posicionamentos mais claros.
A especialista pondera, no entanto, que há resistência dentro da administração pública, associada a grupos políticos que, na visão dela, nem sempre demonstram disposição para enfrentar o debate de forma aprofundada ou promover mudanças estruturais.
Um outro trecho do livro Brasil no Espelho mostra dados que ajudam a explicar o ambiente que sustenta a violência contra a mulher. Embora 65% da população discordem da ideia de que o homem deve ser o provedor da casa, 35% ainda concordam com esse papel tradicional.
Esse padrão aparece também no controle sobre o corpo feminino. Quase metade dos brasileiros (46%) concorda que uma mulher que realiza um aborto deve ser presa, índice que evidencia a persistência de valores punitivos associados à desigualdade de gênero.
“É muito importante que a população tenha esse olhar diferente de quem está fazendo a política de proteção à mulher e quem só está falando”, avaliou Fernanda Negromonte.
O perigo da instrumentalização do discurso
O enfrentamento à violência contra a mulher também ocupa espaço na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Levantamento feito pelo Jornal do Commercio aponta que o tema motivou a apresentação de 35 projetos de lei em 2025.
As proposições revelam uma abordagem ampla do assunto. Há iniciativas voltadas ao fortalecimento das políticas públicas, como a criação de estatutos e planos de monitoramento, propostas de atendimento especializado, incluindo apoio psicológico, saúde e assistência social.
Os deputados também propuseram ações preventivas em escolas, eventos públicos, ambientes esportivos e no uso de tecnologias digitais, assim como benefícios diretos às vítimas, como isenções, auxílios e garantias educacionais, indicando um esforço legislativo para dar respostas concretas à sociedade.
A deputada que mais apresentou projetos com essa temática em 2025 foi Gleide Ângelo (PSB), eleita em 2018 e reeleita em 2022 com discursos voltados à defesa da mulher, pauta que já orientava sua atuação como delegada da Polícia Civil de Pernambuco. Na primeira eleição, a parlamentar alcançou um feito histórico ao se tornar a deputada estadual mais votada da história do estado, com mais de 400 mil votos.
Gleide, que preside a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Alepe, apresentou 11 projetos voltados à proteção das mulheres neste ano. Eles estão em tramitação nas comissões e não chegaram ao plenário. Segundo a deputada, outros 21 projetos sobre a questão da violência de gênero foram pautados por ela entre 2023 e 2024 e 10 já viraram leis.
Para a parlamentar, o tema tende a ganhar força na eleição de 2026, mas há o risco de que parte dos candidatos se aproprie da pauta apenas de forma retórica, sem compromisso efetivo com ações de enfrentamento à violência.
“Muita gente usa a pauta e poucos fazem pela pauta. Você tem que saber verdadeiramente quem usa a causa da violência contra a mulher e quem faz pela mulher. E é muito fácil de ver: basta olhar para o candidato e ver o que ele já fez ou nunca fez. E muitos nunca fizeram. Cabe ao eleitor ter esse olhar”, analisou Gleide Ângelo.
“Não faz sentido uma pessoa que passou o mandato todinho, nunca fez um projeto ou uma cobrança pela segurança pública, e chega na campanha dizendo que a violência está grande. Muita gente vai querer usar a pauta, vestir um personagem, mas a gente sabe quem realmente luta, quem é é oportunista e vai querer usar a pauta como palanque eleitoral. A população está muito atenta e não tolera mais ser usada”, acrescentou.
A cientista política Fernanda Negromonte alerta que o enfrentamento à violência contra a mulher já é usado como retórica eleitoral. Segundo ela, o assunto muitas vezes é tratado de forma artificial e rasa dentro da administração pública.
“Existe esse risco iminente da apropriação do tema, mas a gente precisa direcionar nossos olhares para movimentos que estão de fato tomando alguma iniciativa com relação a esse enfrentamento da violência contra mulheres, e não só utilizando o tema como retórica”, apontou Fernanda.
A deputada Gleide Ângelo defende que a segurança pública seja tratada como uma causa coletiva, acima de disputas políticas e interesses eleitorais. Para ela, o debate precisa separar quem atua de forma consistente de quem apenas instrumentaliza o tema.
“Eu ficaria muito feliz se todo mundo lutasse pela segurança pública, porque é um tema que atinge toda a sociedade. Todo mundo tem que lutar, mas uns lutam e outros usam”, finalizou.