"Recife vive os mesmos sintomas do País inteiro", diz Liana Cirne sobre extrema-direita na Câmara
Vereadora diz que violência e misoginia crescem com a extrema-direita, explica lei que pune agressores e critica privatizações de Raquel e João
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A vereadora do Recife Liana Cirne (PT) afirmou que o Recife vive “os mesmos sintomas do País inteiro” diante do avanço de um bloco de extrema-direita que, segundo ela, “obscurece o debate público por meio de violência política de gênero e fake news”.
As declarações foram feitas nesta sexta-feira (12), no videocast Cena Política (JCPlay), quando a vereadora foi questionada se a atual legislatura da Câmara do Recife passou a ter oposição mais estruturada.
Em resposta, Liana disse que a Câmara sempre teve oposição – “à direita e à esquerda” –, mas que o que se instalou agora é algo diferente.
Segundo ela, não se trata apenas de divergência política, e sim da presença de um grupo de extrema-direita “agressivo, violento e sem compromisso com o debate democrático”.
A parlamentar frisou que esse fenômeno acompanha o movimento nacional impulsionado pelo bolsonarismo, incluindo o uso de redes sociais para desinformação, ataques coordenados e personalização de conflitos.
Para Liana, Pernambuco “não foge à regra nacional”, e o Recife sente diretamente o impacto desse tipo de atuação, que, em sua avaliação, cria “cortinas de fumaça” e interrompe discussões de mérito sobre políticas públicas.
Apesar de o PT ocupar secretarias no governo municipal, a vereadora frisou que o partido atua de forma independente em relação ao Executivo, postura que também orienta seu mandato.
Violência de gênero na política e a lei que pune agressores
Ao falar sobre seu segundo mandato e o ritmo de produção legislativa, o mais produtivo da Câmara, segundo ela, Liana destacou a lei de sua autoria que pune administrativamente agressores de mulheres.
A norma, sancionada este ano, prevê multa ao agressor, proibição de contratação pelo Município e bloqueio de benefícios fiscais para ele ou empresas das quais seja sócio majoritário.
A vereadora apresentou a lei como resposta a um cenário que descreveu como “brutal” de violência de gênero no Recife e no país. Ela citou casos recentes de feminicídios e tentativas de feminicídio que comoveram o estado e defendeu que a punição administrativa se soma às esferas penal e civil.
“Quando uma mulher é incendiada junto com os filhos, a coletividade inteira é ferida. Essa violência é um crime contra a sociedade”.
Liana também comentou a baixa taxa de punição do sistema de Justiça para agressões contra mulheres, ponto levantado pelo entrevistador. Segundo ela, o problema é cultural – da normalização da violência à revitimização das mulheres – e isso faz com que o agressor se sinta protegido.
“Em muitos lugares, o agressor é aplaudido, e a mulher é tratada como culpada. A cultura patriarcal ainda ensina que a mulher é uma posse”, afirmou.
Para a vereadora, por isso é necessário criar penalidades também econômicas. “Temos que impor desvantagens contratuais e monetárias ao agressor. Um homem condenado por violência contra a mulher não pode ser premiado com recursos públicos”.
Tarifa zero, metrô público e avaliação sobre Raquel Lyra
Ao falar de transporte e serviços públicos, Liana voltou sua crítica ao governo Raquel Lyra (PSD). Segundo ela, a governadora “é muito beneficiada pelo presidente Lula, mas o esconde” e adota uma postura “murista”, algo que, na avaliação da vereadora, não faz parte da tradição política de Pernambuco.
Liana disse se preocupar especialmente com a agenda de privatizações da gestão estadual, citando a Compesa e o metrô, e defendeu que o Recife deveria mirar modelos de cidade que fortalecem serviços públicos, e não “a entrega do essencial à lógica do lucro”.
O colunista Fernando Castilho lembrou que, no caso do metrô, o processo de privatização envolve também o governo federal. Liana reconheceu a contradição e afirmou que se trata de uma crítica que faz dentro do próprio campo político.
“Sou petista, sou lulista, mas defendo que o metrô permaneça público”. Ela acrescentou que o sistema metroferroviário foi “abandonado por vários governos”, o que acabou facilitando a inclusão no plano de desestatização.
Nesse contexto, a vereadora retomou sua principal bandeira: a tarifa zero. Para Liana, a gratuidade é ambientalmente importante, socialmente necessária e amplia o direito à cidade. “Quem depende do ônibus não pode continuar pagando”, disse, defendendo um modelo de financiamento baseado nos mais ricos.
Ela rebateu o argumento de que a tarifa zero beneficiaria também a classe média: “Hoje, quem paga a gratuidade do idoso é justamente a classe média e a classe média baixa. A tarifa zero corrige isso”.
Confira a entrevista completa:
Distrito Guararapes, gentrificação e avaliação sobre João Campos
Antes de criticar o Distrito Guararapes, Liana comentou sua visão sobre a gestão João Campos (PSB). Ela lembrou que o PT “não participou do programa de governo dessa prefeitura”, mas que ocupa duas secretarias, Meio Ambiente e Habitação, que, segundo ela, “têm feito muitas entregas”.
A vereadora elogiou especialmente a política habitacional. “As entregas do Minha Casa Minha Vida são um dos pontos mais altos da gestão”.
Liana citou ainda o Hospital da Criança, construído em parceria com o governo Lula, como “uma obra muito importante”, destacando que terá até uma escola hospitalar para crianças internadas por longos períodos.
Apesar dos elogios, ela afirmou ter divergências. Uma delas foi a redução de imposto para as casas de aposta, as “bets”, que ela diz atingir “especialmente adolescentes e famílias vulnerabilizadas”. Por isso, votou contra o projeto.
Outra crítica é ao Distrito Guararapes. Liana disse que seria incoerente defendê-lo, por ter sido advogado do Ocupa Estelita, e que o modelo proposto representa privatização do centro.
“As moradias são para as faixas 3 e 4 do Minha Casa Minha Vida. A renda é muito elevada e o centro hoje não é ocupado por pessoas ricas. Essas pessoas serão expulsas. Vai ocorrer o que chamamos de higienização ou gentrificação”.
Ela defende outra abordagem: desapropriar imóveis com alto débito de IPTU e destiná-los à moradia popular, com organização do comércio “por ingerência do poder público, e não do privado”.
Castilho também observou que o contrato prevê que a prefeitura pagará R$ 52 milhões nos primeiros anos para a empresa gestora. Em seguida, questionou como o prefeito trata a Câmara, já que cerca de 90% dos projetos do Executivo chegam em regime de urgência.
Liana disse ter “crítica pública contundente” ao uso desse mecanismo como regra. “Projetos em urgência deveriam ser excepcionais e ter justificativa. Muitos precisariam de audiência pública, de escuta da sociedade”.
Ela afirmou que o rito acelerado impede debate, participação e até apresentação de emendas, que acabam concentradas na relatoria. “Isso é muito ruim”, concluiu.
2026, suplência e futuro político
Liana também comentou seu desempenho eleitoral recente. “Sou a primeira suplente de deputada federal da minha federação. Tivemos 57 mil votos, faltaram apenas dois mil para a eleição.”
Ela disse ter recebido estímulo de lideranças nacionais do PT para disputar novamente em 2026, embora tenha afirmado que sua prioridade atual é o mandato na Câmara Municipal. “A gente só cumpre bem o futuro quando está presente no agora”, resumiu.