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Renda e dignidade transformam vidas através da reciclagem no Recife

Organização do trabalho e novos equipamentos permitiram que catadores superassem a vulnerabilidade e tivessem rendimentos de até R$ 3 mil no Recife

Por Maria Clara Trajano Publicado em 17/08/2026 às 17:55

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A reestruturação física e operacional de cooperativas de catadores de materiais recicláveis no Recife tem transformado a gestão de resíduos sólidos em uma ferramenta de emancipação econômica e inclusão social.

A transição da catação informal para o modelo cooperativista, combinada com investimentos em equipamentos e adequação fiscal, permitiu que trabalhadores vissem seus rendimentos mensais saltarem de patamares entre R$ 200 e R$ 600 para valores que chegam a R$ 3.000.

Na Cooperativa Recicla Torre, fundada há 20 anos no bairro da Torre, a trajetória da atual presidente, Alexsandra Maria, reflete os impactos dessa reorganização. Após deixar um relacionamento marcado pela violência doméstica, foi no recolhimento de materiais recicláveis que ela encontrou o sustento para a família.

"Meu marido batia bastante em mim e dizia que eu não ia arrumar trabalho nenhum por conta da quantidade de filhos. Eu botei na minha cabeça que tinha que arrumar um trabalho e deixar ele, porque não ia viver aquela vida. Consegui criar meus sete filhos na reciclagem", afirma Alexsandra.

Do individualismo ao cooperativismo organizado

Durante anos, o trabalho na unidade ocorria de forma individualizada. Cada integrante recolhia e vendia o próprio material, o que gerava disputa interna e baixa rentabilidade. A mudança estrutural ocorreu com a implementação da gestão coletiva e a melhoria da infraestrutura, em um processo acompanhado pela prefeitura do Recife e parcerias institucionais, como a empresa de gestão ambiental Ambipar.

A reestruturação envolveu quatro pilares principais:

  • Gestão financeira: substituição da venda individual pelo rateio igualitário dos lucros líquidos do mês;
  • Infraestrutura e maquinário: instalação de esteiras de triagem, prensas, elevadores de carga e reforma dos galpões;
  • Segurança ocupacional: fornecimento de fardamento e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs);
  • Regularização jurídica: adequação documental para emissão de notas fiscais e vendas diretas a empresas.

"Antigamente era uma competição, uma cooperativa competindo um com o outro. Hoje, todo material que chega na cooperativa é triado, prensado e comercializado, e dividido para todos igualmente. A gente tira as despesas e o que sobra divide igualitariamente", explica a presidente da Recicla Torre.

A mecanização do processo e a divisão das tarefas refletiram-se na produtividade.

"Antigamente, alguns que trabalhavam mais ganhavam R$ 500, R$ 600. Aqueles que trabalhavam menos ganhavam R$ 200. Hoje em dia, com a esteira, a gente tá produzindo mais, com menos tempo. Hoje a gente ganha R$ 2.000, e teve época que ganhou R$ 3.000", relata Alexsandra.

Impacto na renda e na qualidade de vida

O modelo de reorganização também alterou a rotina de outras centrais de triagem da capital pernambucana, como a cooperativa Reciclando Vidas. Para os integrantes da unidade, a saída de instalações precárias para espaços estruturados resultou em ganho de poder de compra e estabilidade financeira.

A cooperada Reyze Kellyane, que ingressou na atividade após um período de desemprego, destaca a mudança no orçamento familiar.

"Antes a gente recebia R$ 400, R$ 600. Hoje em dia a gente recebe de R$ 1.900 a R$ 2.100. Aumentou muito. Trouxe uma qualidade de vida melhor para o dia a dia, consigo dar à minha filha uma vida digna e pagar cursos", pontua.

Além do aspecto financeiro, a adequação dos espaços de trabalho trouxe melhorias nas condições de saúde e segurança. O cooperado Mateus Emílio, vice-presidente da organização, que começou na reciclagem durante a pandemia acompanhando os pais, relembra as dificuldades anteriores.

"Na época, a gente trabalhava num galpão muito pequeno e apertado. Quando chovia, entrava água. Hoje a gente tá em outra localização, num galpão adequado, com maquinário. A gente fica mais valorizado, com um olhar mais profissional dentro da cooperativa", afirma Mateus.

Desafios operacionais

Apesar dos avanços em produtividade, a eficiência das cooperativas ainda enfrenta gargalos na triagem inicial, decorrentes da falta de separação correta dos resíduos nas residências e condomínios. A mistura de resíduos orgânicos com materiais recicláveis gera contaminação e envio de insumos aproveitáveis para os aterros sanitários.

Para os trabalhadores do setor, o reconhecimento da atividade passa pela conscientização da população e pelo entendimento do papel socioambiental desempenhado pelas cooperativas.

"Ter um espaço adequado significa respeito e dignidade. É saber que a gente tem um trabalho digno e mostrar à população que é possível um catador sair da rua e ter uma cooperativa digna para poder trabalhar", conclui Alexsandra.

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Maria Clara Trajano

mtrajano@sjcc.com.br

Jornalista pela UFPE, no SJCC desde 2022