Do Marlboro às bets
Nada como uma boa sacada publicitária para, de forma rápida e original, destacar um produto e torná-lo objeto de desejo e consumo.
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Lançado em 1924, o cigarro Marlboro nunca fez sucesso junto ao público masculino da época. Bastou associá-lo ao "cowboy do Texas" cavalgando magníficos cavalos e, em pouco tempo, virou o cigarro mais vendido do mundo e a sua propaganda é considerada uma das maiores estratégias da história do marketing mundial. Pouco importa se ao menos 8 milhões de pessoas morrem, por ano, no mundo, dentre elas em torno de 200 mil brasileiros, todas vitimadas por doenças associadas ao tabagismo. É surreal que quatro dos atores que interpretaram o "cowboy da Marlboro" tiveram o mesmo fim. A propaganda alcançou o seu objetivo que era o lucro.
No Brasil, desde a edição do Decreto Lei nº 9.215/46 os cassinos físicos são proibidos. Mas, paradoxalmente, milhões de cassinos virtuais, disponíveis 24 horas por dia, são manuseados no conforto dos lares e oferecem "ganhos fáceis", afinal "Las Vegas é aqui" ou "Quem é super joga na superbet" e, se você é um "patriota autêntico", pode optar pela "Bet dos Brasileiros". Tem para todo gosto e a propaganda massiva, insinuando que o jogo é divertimento e o ganho é fácil, ludibria os incautos, tornando-os presas fáceis e fazendo com que alguns Países da Europa, onde o problema também ocorre, deixem de considerar o endividamento por bets como um "problema individual" e o elevem ao patamar de uma crise de "saúde pública". E essa questão é mais grave na medida em que os estudos mostram que os "endividados" são, na maioria, adultos jovens e integrantes de populações mais vulneráveis.
A marcha do endividamento é construída, no início, pelo chamado "ciclo de perseguição de perdas". Eu jogo mais para tentar recuperar o que perdi. Como há disponibilidade de crédito fácil e sem garantias, a porta do desastre está escancarada. A essas duas condições, some-se a união bet/smartphone e, sem barreiras geográficas ou temporais, a mistura é tóxica. E, o mais preocupante, a proibição tem se mostrado irrelevante. Banidas em um determinado território, há a migração para outro, sempre ao alcance dos "cassinos de mão". Proibição total aos anúncios de bets em eventos esportivos foi o caminho adotado pela Itália, Espanha, Bélgica e Holanda. No Reino Unido foi implantada, desde 2018, a autoexclusão, através do sistema online GamStop. Você mesmo faz um cadastro com os seus dados e o sistema o bloqueia para acessar qualquer site de apostas. Na Suécia e Irlanda foi proibida qualquer forma de crédito para utilização em apostas. Como se observa, há uma preocupação mundial com a publicidade desregrada das Bets que sempre encontram um meio de fisgar as suas vítimas e desafiar as regulamentações. Na Alemanha as normas proíbem propagandas das bets entre 6 h e 21 h e também a indução ao jogo através de odds - probabilidade de acerto - irrealistas. O que fez uma Bet daquele país? Comprou da FIFA o direito de transmitir os 104 jogos da última Copa do Mundo por meio do seu próprio aplicativo e site. Detalhe, para ter o direito de assistir aos jogos, o cliente deveria ter um feito uma aposta recentemente ou ter saldo na sua conta. Mas, nem precisa ir muito longe. No último jogo Santa Cruz x Ceará, um canal do you tube transmitiu a partida e, ao mesmo tempo, oferecia "as 10 primeiras doações no valor de R$ 299,99 leva R $8 mil no pix" (sic). Em 5 minutos já havia arrecadado R$ 1.369,97. Sem trocadilhos, o jogo não é para amador.
No Brasil, o Banco Central estima que 73 milhões de pessoas estejam inadimplentes e essa situação, em parte, é decorrente da explosão de apostas online. Para se ter uma ideia, o setor já movimenta, em média, R$ 30 bilhões por mês e figura como o quinto maior mercado global de apostas. É muita coisa para quem vende apenas ilusão. através do estímulo instantâneo e promessa de recompensa rápida. Há estudos indicando que 86% das pessoas que apostam já possuem alguma dívida e 64% estão negativadas na Serasa. Não se iluda, as Bets não representam investimento e tampouco divertimento. Talvez você não tenha o mesmo fim do "cowboy do Marbolro" - que morreu de câncer - mas, irremediavelmente, será um vivo liso e devedor.
Renato da Silva Filho, membro do Ministério Público de Pernambuco