Um guia de cegos?
Não há qualquer dúvida de que se trata de um processo democrático, que contempla desde os favoritos até os de menor chance de se elegerem
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Não há qualquer dúvida de que se trata de um processo democrático, que contempla desde os candidatos mais favoritos aos que não carregam a menor chance de se elegerem. No entanto, os guias eleitorais colocam, para a sociedade, o rosto, o nome, o número, o partido e as promessas de cada pretendente, até mesmo aqueles que sabem não terem a menor chance de se eleger para os cargos que disputam.
Alguns desses candidatos não conseguem sequer andar "sozinhos", se amparam e pedem ajuda a figuras políticas mais conhecidas, mesmo que quase sempre tais figuras nada representem, não tenham qualquer ligação com o eleitorado local, ou,sequer, estejam disputando mandatos eletivos. Há pai e filho aparecendo juntos; pastor e pastora pedindo votos para o mesmo candidato; militares e delegados da ativa e da reserva, prometendo mais rigor e mais proteção para as mulheres, como se os homens não carecessem igualmente de proteção, num país tomado pela violência.No entanto, tudo isso faz parte do jogo; uns candidatos têm história e biografia; outros, têm ficha suja e prontuário; e todos disputam os mesmos votos.
Há candidatos que preferem ser conhecidos pelo apelido; outros que se escoram no sobrenome da família; outros mais dizendo que apresentaram no Congresso tais e quais projetos em favor do Estado e do seu povo, como se isso não fosse o mínimo que se espera de quem foi eleito pelo voto desse mesmo povo. Até mesmo porque muitos desses projetos apresentados nunca foram sequer votados, mas isso eles não dizem. Nem há quem responda desmentindo certos fatos que nunca aconteceram.
Alguns dos candidatos evangélicos - não são todo misturam religião com política, apelam para a crença bruta de uma multidão de seguidores, a maioria de pouquíssima instrução e muita fé em Deus -que, além de devotos, nunca deixam de levar o dízimo para a sacolinha dos seus orientadores.
Portanto, com seus defeitos e suas limitações, com promessas feitas e não cumpridas, o Guia Eleitoral foi e continua sendo mais um marco da redemocratização. Para o bem e para o mal; muito mais para o bem do que para o mal. Aqueles que viveram os duros anos da ditadura militar louvam o Guia. Com ele e outras conquistas, o povo recebeu de volta o direito do voto e oprocesso de escolha de seus dirigentes; acabou a obrigação de aceitar, em silêncio, o nome imposto pelos donos do Poder a uma sociedade calada e temerosa, numa longa noite de silêncio e medo que se estendeu por mais de 20 anos.
Toda essa liberdade que hoje a sociedade possui, que chegou aos poucos, foi conquistada com o sangue e o sacrifício de alguns; com a teimosia e o silêncio de tantos outros; com a esperança dos democratas que, como podiam, tentavam restabelecera liberdade para a sociedade pensar e agir, inclusive na escolha de suas lideranças.Nesse processo político, o país conviveu com eleições indiretas, com o chamado "voto vinculado", onde muitas vezes se votava em quem queria e elegia quem não queria; teve propaganda politica na televisão sem voz e sem som; teve resquícios de autocensura, pelo vicio antigo de julgar que a censura continuava ativa e mais proibia do que liberava.
Foi uma época de limitações tão profundas que quando o General Emilio Garrastazu Médici foi escolhido, por uma Junta Militar, o novo Presidente da República, uma pesquisa, feita para consumo interno da Caserna, revelou que mais de 80 por cento da população brasileira jamais ouvira falar do seu nome.Há duvidas, hoje, se o general Médici, pedindo votos no Guia Eleitoral, teria chegado ao cargo maior da Nação. Provavelmente não teria chegado....Até porque , uma propaganda como essa não caberia, hoje, nos nossos guias eleitorais. Os marqueteiros de hoje se conformam divulgando, apenas, propaganda politica de delegados e coronéis.
Ivanildo Sampaio, jornalista