Literatura como necessidade universal
A literatura não melhora diretamente a vida de alguém simplesmente transformando-o em um bom leitor................................................
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O ano é 2700 antes de Cristo. Em Uruk, na atual região do Iraque, um rei chamado Gilgamesh luta desesperadamente contra a mortalidade e viaja por reinos e lugares desconhecidos para encontrar a "cura" para a morte. Encontrada em 1849, em 12 tábuas de argila escritas em caracteres cuneiformes, A Epopeia de Gilgamesh é considerada a primeira grande narrativa da história humana.
Sabemos que a ficção nasce com a humanidade. Foi ao redor de fogueiras, contando histórias, que homens e mulheres criaram comunidades e deram sentido à própria experiência. A literatura é, nesse sentido, uma necessidade universal. Presente em todas as sociedades, das mais sofisticadas às mais rudimentares, ela responde a uma necessidade antiga de fabular.
Primeiro guardadas na memória e transmitidas oralmente, depois registradas em argila, madeira e papel, as narrativas fazem parte daquilo que nos constitui como humanos.
Há um argumento simples e um tanto pobre que costuma aparecer em textos que recomendam a leitura: ler nos torna pessoas melhores. É verdade, mas é uma verdade rasa se ficarmos apenas nisso. A literatura não é um suplemento vitamínico para o caráter, e não melhora diretamente a vida de alguém simplesmente transformando-o em um bom leitor.
Ela é algo mais estranho e necessário: uma forma de habitar vidas que não são as nossas, de pensar com uma cabeça diferente da nossa e de experimentar, ainda que por algumas horas, existências que jamais viveremos. Ao final dessa experiência, saímos dela sendo, ainda que discretamente, outra pessoa.
Ler é também aprender a demorar.
Em uma época marcada pela tirania do agora, na qual tudo é otimizado para a pressa, a leitura ensina uma virtude cada vez mais rara: a paciência. Um bom livro não entrega seu sentido imediatamente. Ele apresenta, adia, contradiz e, somente depois de muitas páginas, permite que o desenho completo se revele.
Sustentar a ambiguidade e tolerar o desconforto de ainda não saber são exercícios mentais que poucas atividades oferecem hoje. Essa paciência, não por acaso, é a mesma capacidade que nos permite tomar decisões mais ponderadas e evitar reações precipitadas.
Para quem vive sob a pressão das decisões rápidas, das metas, das reuniões e das telas, descrição bastante fiel da vida profissional contemporânea, a leitura cumpre uma função quase terapêutica. É um dos poucos espaços que ainda exigem atenção sustentada e recompensam a lentidão.
Mas esse hábito vai além de qualquer ideia de autoaperfeiçoamento. Ela também guarda a memória de um povo. Ler é participar de uma conversa que atravessa séculos e descobrir quais medos, desejos e anseios continuam nos acompanhando.
Não por acaso, uma narrativa com quase 3 mil anos, como A Odisseia, ainda é capaz de mobilizar plateias e lotar salas de cinema em todo o mundo.
Abrir mão dos livros é aceitar um repertório mais limitado para lidar com a complexidade da existência. Sem o hábito da leitura prolongada, o pensamento pode se acostumar às respostas curtas, às categorias fixas e às narrativas simplificadas sobre o mundo e sobre as pessoas.
A obra literária é, entre outras coisas, um antídoto contra o pensamento em clichês.
Em tempos de simplificações, ler é uma forma de reafirmar a civilização. É aceitar que o outro pode ser mais complexo do que nossos julgamentos permitem e reconhecer que uma vida sem reflexão é insuficiente.
Os livros não mudam a História (no sentido científico, civilizatório) por conta própria. Mas ampliam, inquietam e transformam aqueles que os lêem. E é por meio das escolhas, das ideias e dos atos dessas pessoas que o mundo, afinal, se transforma.
Talvez seja essa a razão pela qual continuamos contando histórias: porque, antes mesmo de aprendermos a explicar (ou tentar) a realidade e o mistério que nos cercam, já sentíamos a necessidade de imaginá-los de outra forma.
Pedro Pessoa, sócio-fundador da Pequod Investimentos