Recife, minha Veneza da saudade
Talvez seja esse o destino das cidades amadas: deixar de ser apenas lugar e tornar-se parte de quem as viveu. Recife, minha Veneza................
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Em conversas com amigos e familiares, moradores ou ex-moradores de Recife, passamos agradáveis momentos relembrando os encantos de nossa Veneza brasileira. Ai, que saudades do Recife do começo dos anos 1960! Saudades de um tempo que não desapareceu inteiramente. Ele continua guardado em algum lugar secreto da memória, onde as ruas permanecem iluminadas, os cinemas ainda anunciam suas sessões e o chope chega à mesa tão gelado como naquela distante juventude.
Volto, em pensamento, à Casa do Estudante, no Derby. Ali, entre sonhos, conversas e projetos, aprendíamos muito mais do que aquilo que estava nos livros. Aprendíamos o mundo.
Éramos jovens. E ser jovem era acreditar que todas as estradas estavam apenas começando.
No bar do Derby, o garçom Lima conhecia nossos gostos e nossas posses. Servia-nos um prato com doze ovos cozidos para acompanhar o chope geladinho. Doze ovos! Uma extravagância gastronômica para aqueles estudantes cheios de fome, entusiasmo e futuro.
Outras vezes, chegava à mesa a casquinha de siri, coberta por uma farinha amarela, saborosa, perfumada, inesquecível. A memória também mora no paladar.
Saudades do grande Colégio Americano Batista, onde estudei e do qual me orgulho. Por seus corredores passaram gerações de estudantes e figuras históricas, entre elas Gilberto Freyre — Freyre com Y! E foi justamente essa letra que nos deu, em 1962, uma lição que jamais esqueci.
Naquele ano, resolvemos convidar o celebrado autor de Casa-Grande & Senzala para ser nosso paraninfo. Reuni um pequeno grupo de colegas e fomos até Apipucos entregar-lhe pessoalmente o convite. Levávamos conosco a ansiedade dos jovens diante de um homem já consagrado.
Gilberto Freyre recebeu o papel, examinou-o e logo percebeu que seu sobrenome havia sido escrito com I, e não com Y. Devolveu-me o convite e disse, com serena firmeza:
— Meu caro jovem, peço que voltem aqui na próxima semana com a grafia correta. Meu pai, Alfredo, quando recebia alguma carta com Freyre sem Y, devolvia-a ao remetente.
Voltamos, naturalmente. E voltamos com o Y no lugar certo.
Aquele Y não era uma simples letra. Era um sinal de identidade, uma assinatura familiar, uma fidelidade às próprias raízes. Gilberto Freyre ensinava até quando corrigia um convite.
Saudades também da Rua da União, onde ficava a sucursal do Jornal do Brasil e onde morou Manuel Bandeira. Caminhar por aquela rua era como atravessar uma página da literatura brasileira.
Parecia possível encontrar, encostado a uma janela, o poeta menino contemplando o Recife de sua infância e ouvindo os pregões, as vozes e os ruídos que depois transformaria em poesia. A Rua da União era uma rua real, mas também uma rua inventada pela lembrança.
Saudades dos cinemas São Luiz e Moderno.
O São Luiz, majestoso, à margem do Capibaribe, parecia um palácio construído para abrigar sonhos. Quando as luzes se apagavam, o Recife ficava do lado de fora e o mundo inteiro surgia na tela.
O Moderno carregava no próprio nome a promessa do novo. Ir ao cinema era uma cerimônia: escolher o filme, comprar o ingresso, entrar na sala escura e permitir que outra vida ocupasse, por algumas horas, o lugar da nossa.
Saudades do mate gelado com limão na Rua da Aurora. O copo suado nas mãos, o sabor refrescante, o rio acompanhando nossos passos e os casarões coloridos refletidos nas águas.
A Rua da Aurora nunca foi apenas uma rua. Era uma claridade. Era o Recife se olhando no espelho do Capibaribe.
Saudades do Recife Velho, de suas pontes, igrejas, sobrados e esquinas carregadas de histórias. Cidade moldada pelas águas, cortada por rios e acariciada pelo mar. Cidade que se espalha em ilhas, como se tivesse sido desenhada por um poeta e concluída por um navegante.
Chamam-na Veneza Brasileira, mas o Recife não precisa parecer-se com nenhuma outra cidade. É uma Veneza com frevo, maracatu, mangue, pontes, sinos e cheiro de maresia. Uma Veneza à sua maneira — mais quente, mais sonora, mais mestiça e mais nossa.
E, anos depois, o Galo da Madrugada viria engrandecer ainda mais essa memória afetiva. Grandioso, colorido e irresistível, o desfile parecia despertar a cidade inteira.
O Galo não passava pelas ruas: carregava as ruas consigo. Sob suas asas cabiam o frevo, a fantasia, a irreverência e a alegria coletiva de um povo que sabe transformar a vida em carnaval.
Saudades da praia do Pina e da sopa de peixe do restaurante Maximes. O caldo chegava fumegante, trazendo consigo o gosto do mar. Havia também o caldo de mocotó, forte e generoso, desses que restauram o corpo e aquecem a alma.
No Recife, a comida nunca era apenas alimento. Era convivência, afeto, conversa demorada e celebração.
Saudades dos grandes ônibus elétricos, deslizando pelas ruas com seus fios estendidos para o alto, como se buscassem energia no próprio céu. Havia neles uma imponência tranquila.
O som dos motores, as paradas, o movimento dos passageiros e a paisagem passando pelas janelas compunham o ritmo cotidiano de uma cidade que crescia sem perder completamente sua delicadeza.
Saudades das partidas de sinuca no prédio da Associação de Imprensa de Pernambuco. Entre uma tacada e outra, circulavam notícias, comentários, histórias e provocações.
A bola corria sobre o pano verde, enquanto o jornalismo, a política e a vida se misturavam nas conversas. Naquele ambiente, aprendíamos que uma redação podia continuar mesmo longe das máquinas de escrever.
Quando penso naquele Recife, não recordo apenas lugares. Recordo sons, cheiros, sabores, vozes e rostos.
Recordo o garçom Lima, os colegas do Americano Batista, a visita a Gilberto Freyre, os filmes do São Luiz, o mate da Rua da Aurora, a sopa de peixe no Pina e as tardes de sinuca na AIP.
Recordo, sobretudo, o jovem que eu era — curioso, inquieto, cheio de esperanças e com o mundo inteiro à sua frente.
O tempo levou fachadas, cinemas, ônibus e companheiros. Não levou, porém, o que vivi.
O Recife permanece inteiro na memória: nas águas do Capibaribe, nas pontes, no frevo, nos sabores e naquele Y de Apipucos.
Talvez seja esse o destino das cidades amadas: deixar de ser apenas lugar e tornar-se parte de quem as viveu.
Recife, minha Veneza da saudade, não estás atrás de mim. Estás comigo.
Gaudêncio Torquato, jornalista e professor da Universidade de São Paulo (USP)