Uma pausa analógica
Aprendi a datilografar em 1997, no Curso Pirâmide, na Rua do Príncipe, perto da Católica. De segunda a sexta-feira, repetia ASDF JKLÇ durante uma hora
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Para escrever este artigo, sentei-me diante de uma máquina de escrever fabricada em 1961. Coloquei uma folha no cilindro, ajustei as margens e girei o rolo até o papel encontrar a posição certa. O telefone ficou ao lado. Antes da primeira palavra, chegou uma mensagem de WhatsApp. Respondi, voltei à folha e logo apareceu outra. Virei o aparelho com a tela para baixo. De volta à máquina, datilografei no alto da página: UMA PAUSA ANALÓGICA.
Aprendi a datilografar em 1997, no Curso Pirâmide, na Rua do Príncipe, perto da Católica. De segunda a sexta-feira, repetia ASDF JKLÇ durante uma hora, ao som de um metrônomo. Eu tinha 19 anos e começava Direito. Meu pai dizia que “um homem só é homem quando sabe datilografar”. No ano seguinte, a datilografia me ajudou a passar em um concurso público para o qual nunca fui convocado. As máquinas, porém, já começavam a desaparecer de escritórios, repartições e residências, relegadas aos cantos de armários e depósitos.
Vieram o computador, a internet, o telefone que concentra quase tudo e as ferramentas de inteligência artificial. Uso tudo isso. O WhatsApp facilita meu trabalho, aproxima quem está longe (e afasta quem está perto) e resolve, em minutos, o que antes exigia telefonemas e deslocamentos. Também criou uma disponibilidade quase permanente.
Na máquina de escrever, cada letra exige um gesto completo, com pressão, ruído e consequência. A frase amadurece antes que o tipo metálico atinja a fita. Uma palavra mal escolhida não desaparece sem deixar rastro. O carro avança letra por letra. Quando a campainha anuncia o fim da linha, movo a alavanca e volto à margem esquerda. A pausa dura poucos segundos, mas muitas vezes indica como a frase seguinte deve começar.
Talvez isso ajude a compreender por que objetos analógicos voltaram a despertar interesse. Há saudosismo nesse movimento, claro, e reconheço o meu, mas a saudade não explica tudo. Muita gente que hoje compra discos de vinil ou câmeras de filme nem sequer viveu o tempo em que eram comuns. Os objetos analógicos oferecem experiências que ocupam as mãos e pedem presença. Suas limitações criam fronteiras. Enquanto um disco toca, há um lado inteiro a ouvir. Enquanto a página está na máquina, há uma linha inteira a escrever.
No Entre Teclas, ponho as máquinas em uso com crônicas e textos de convidados. A coleção abriu conversas sobre literatura, música, cinema e memória. Cada máquina conserva marcas de outras mãos e histórias que nenhum catálogo registra. Mais do que máquinas, estamos falando de pessoas.
Continuarei escrevendo petições, aulas e artigos no computador e respondendo a mensagens no WhatsApp. A máquina entra nessa rotina nos fins de semana ou por vinte minutos: o tempo de datilografar uma página sem alternar entre janelas e conversas.
Este artigo foi datilografado inteiro na máquina com 65 anos de idade. Fotografei as páginas e usei uma ferramenta de inteligência artificial para transformar a datilografia em texto digital. Depois, revisei o resultado e encaminhei o artigo para publicação. Foi como escrever uma carta com calma e entregá-la a um mensageiro veloz. O mensageiro encurtou o caminho entre a mesa e o jornal, mas não interferiu no tempo que passei escolhendo cada palavra. Afinal, um mensageiro pode correr sem obrigar a carta a ser escrita com pressa.
Bruno Baptista
Advogado, colecionador de máquinas de escrever e curador da página no Instagram @entreteclasporbb