A criminalidade trava a economia
Em 2025, o Brasil registrou 40,7 mil vítimas de homicídios (Morte Violenta Letal Intencional), uma perda humana irreparável e inaceitável
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A violência no Brasil tem um enorme custo humano em vidas interrompidas por homicídios e um elevado custo social expresso na restrição da liberdade de circulação nas cidades, no medo, na insegurança e nas tensões nas relações humanas na sociedade. A violência tem também um custo econômico com grande desperdício de recursos humanos e financeiros, expulsa empresários, trabalhadores qualificados e jovens talentos, inibe investimento, reduz a produtividade e compromete a competitividade da economia.
Em 2025, o Brasil registrou 40,7 mil vítimas de homicídios (Morte Violenta Letal Intencional), uma perda humana irreparável e inaceitável, sofrimento e dor das famílias brasileiras. Em dez anos, de 2015 a 2025, foram assassinadas mais de 567 mil pessoas no Brasil, um número assustador comparável a países em guerra, embora tenha havido uma redução continuada do índice de violência ao longo dos últimos anos.
Para além do drama humano, a violência tem um impacto negativo na economia brasileira pelo que representa em capacidades humanas perdidas e em desperdício de recursos financeiros. Quase 90% das vítimas (89,7%, em 2024) de violência são brasileiros em idade ativa, com plena capacidade de produção. O Brasil perde no presente e mata o futuro quando cerca da metade das vítimas são jovens entre 18 e 29 anos. Desperdiça capacidades humanas também quando mantém mais de 964 mil brasileiros privados da liberdade, pessoas em plena capacidade produtiva deslocados do mercado de trabalho. E para enfrentar a criminalidade, o Estado mobiliza 400 mil pessoas nas Polícias Militares, além de mais de 588 mil brasileiros como vigilantes privados (2026). São quase dois milhões de brasileiros fora da atividade produtiva.
Por outro lado, a insegurança obriga o governo e a sociedade à realização de gastos elevados para proteção da violência, recursos que deixam de ser alocados em investimentos e na oferta de bens e serviços públicos, custos que encarecem a atividade produtiva e reduzem a produtividade. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública calcula que o Estado brasileiro, nas três esferas, gasta em segurança pública R$ 159,8 bilhões (2025).
Somando a estas despesas, todos os custos econômicos da criminalidade (segurança privada, seguros e perdas materiais, custos judiciais, perda de capacidade produtiva e serviços médico-terapêuticos) o CLP-Centro de Liderança Pública estima que o Brasil desperdiça cerca de 4,38% do PIB (dados para 2015) que, provavelmente pode ter crescido nos últimos dez anos; de 1996 a 2015, os gastos totais com a criminalidade no Brasil cresceram, em média, 4,5% ao ano, bem acima do crescimento da economia.
Embora o crescimento medíocre da economia brasileira nas últimas décadas não possa ser atribuído apenas à violência, com certeza a criminalidade contribuiu e muito para este desempenho. Por outro lado, o baixo crescimento da economia leva à persistência da baixa renda e da pobreza, e precariedade do emprego (alta informalidade), mesmo com os programas de transferência de renda, provocando um círculo vicioso com realimentação da criminalidade. Num estudo realizado para a América Latina, o FMI considera que a redução da criminalidade ao patamar médio mundial (5,8 homicídios em cem mil habitantes) poderia adicionar cerca de 0,5 pontos percentuais ao crescimento anual da região.
A taxa de homicídios do Brasil, em 2025, chegou a 19,1 em cem mil habitantes, mais que três vezes acima do patamar médio mundial. Em todo caso, de 2015 a 2025, houve uma redução de 34% na taxa de homicídios do Brasil que, considerando o estudo do FMI, deve ter tido alguma contribuição para o modesto crescimento do PIB brasileiro. Para o futuro, a economia brasileira pode ser impulsionada se a taxa de homicídios continuar caindo e se aproximando da média mundial. Por isso, entre vários aspectos de uma estratégia de desenvolvimento, o declínio da taxa de homicídios deve ser um compromisso sério dos candidatos a presidente. Para poupar vidas, sofrimento e medo e para estimular o crescimento da economia brasileira.
Sérgio C. Buarque, economista