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Shakespeare que se cuide

Quando o C.E.O. (o gestor) passa a proteger o próprio trono e não o destino da organização, ele trai a própria natureza do cargo

Por Jones Figueirêdo Alves Publicado em 31/08/2026 às 0:00 | Atualizado em 03/09/2026 às 10:05

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Tem sido comum entender-se que um "Chief Executive Officer" (C.E.O.), como um diretor executivo, é o responsável pelas estratégias, visão e valores da empresa. Guardião da visão e dos propósitos empresariais.

Entretanto, há cogitar de uma densidade ética clássica merecedora de profundas reflexões: quando o C.E.O. (o gestor) passa a proteger o próprio trono e não o destino da organização, ele trai a própria natureza do cargo. Entenda-se logo, aqui, o C.E.O. como aquele administrador público de destinos, onde a empresa é a própria população do país, do Estado ou do município, merecedora e digna de proteção integral.

Caso William Shakespeare observasse esse personagem, ele o colocaria no território da tragédia moral. A da inversão do fim: do fiduciário ao soberano. O governante não é proprietário do poder, ele é depositário. Seu mandato é instrumental: garantir a perenidade, a integridade e a missão da empresa.

Quando a autopreservação substitui a finalidade institucional, ocorre uma inversão teleológica: o cargo deixa de servir à organização, a organização passa a servir ao cargo. É a mesma distorção que Shakespeare dramatiza em "Julius Caesar": quando o homem começa a amar mais o poder do que a República, instala-se o dilema moral.

Tem-se o vício da autoproteção, ou seja, a síndrome de Ricardo III. Em Richard III, o protagonista não governa, ocupa. Ele não constrói estabilidade, elimina ameaças. Transpondo para o universo corporativo: silencia vozes críticas; manipula informações, concentra decisões e molda o conselho à própria conveniência. O resultado não será, liderança, é defesa de território. Shakespeare diria que esse governante já caiu antes mesmo de perder o cargo.

Do ponto de vista jurídico, atento às categorias do dever, quem governa exerce uma função fiduciária. O dever não é subjetivo; é institucional. Diante da ética do ofício, existe uma dignidade funcional. Quando há conflito entre preservação pessoal e o interesse social da companhia a escolha pelo primeiro constitui desvio ético da função. É uma forma moderna de abuso de poder, ainda que revestida de discursos estratégicos.

Permito-me, então, imaginar a pena do bardo em quatro atos:

(i). O C.E.O. como Rei Lear corporativo. Shakespeare talvez perguntasse: "Que reino é este, cujo trono repousa sobre ações e cuja coroa depende do humor do mercado?" Assim como em "Lear", o poder do C.E.O. pode parecer absoluto, até que o mercado, qual tempestade na charneca, revele a fragilidade da autoridade.

(ii). O C.E.O. como Macbeth tecnológico. Em Macbeth, a ambição é a centelha que devora. Shakespeare talvez dissesse que alguns CEOs escutam "profecias" modernas: relatórios de crescimento infinito; projeções disruptivas; algoritmos que prometem domínio global. Mas perguntaria: "Que lucro há em conquistar o mundo digital e perder a própria alma?" Uma "hybris" corporativa seria para ele o novo punhal invisível.

(iii). O palco e a performance. O C.E.O. moderno vive de performance: discursos inspiracionais; entrevistas cuidadosamente roteirizadas; construção de imagem. Shakespeare perceberia que liderança é também dramaturgia. O carisma é figurino. A narrativa corporativa é roteiro. Mas advertiria: quando o personagem engole o homem, nasce a tragédia.

(iv). O império sem fronteiras. Shakespeare talvez enxergasse nesses impérios corporativos algo semelhante às coroas da sua época: vastas, brilhantes e instáveis. Ele desconfiaria do poder não legitimado por uma responsabilidade moral. Perguntaria sobre o preço humano da eficiência.

O cenário mudou. O drama, não. O gestor autoritário acabou, ele precisa de empatia, autoconhecimento e adaptabilidade.

Quando ele busca desmerecer a biografia dos demais, há algo de podre nos reinos corporativos. O povo (a empresa) merece uma governança fiel ao seu melhor destino. Shakespeare que se cuide. Existe mais do que a vã filosofia.

*Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista

 

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Jones Figueirêdo Alves

Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista