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Passado que ainda sobrevoa Recife

Testemunhei em 1983 o então governador assinar o decreto de tombamento da torre onde atracou o Graf Zeppelin...................................

Por ROBERTO PEREIRA Publicado em 31/08/2026 às 0:00 | Atualizado em 03/09/2026 às 10:20

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Há poucos dias, Pernambuco realizou, com êxito, a Semana do Patrimônio, marcada por expressiva participação. No temário, o brilho de nossos monumentos, a exortação à preservação e a valorização das políticas públicas como salvaguardas de um acervo tão pernambucanamente nosso.

Testemunhei, em 28/7/1983, no Campo do Jiquiá, o então governador Roberto Magalhães assinar o decreto de tombamento da torre onde atracou, em 22/5/1930, o Graf Zeppelin. A solenidade ocorreu após a restauração do mastro de atracação, iniciativa da Secretaria de Turismo, Cultura e Esportes, sob a égide do poeta e escritor Francisco Bandeira de Mello, nosso Bandeirinha, com a participação, na Fundarpe, deste escriba, então presidente da instituição.

Recentemente, estive diante daquele monumento e vi, com tristeza, a torre abandonada. Seu entorno está tomado pelo matagal, que rouba a paisagem. A quem caberia, hoje, cuidar de sua preservação? Sugiro que a próxima Semana do Patrimônio inclua a torre entre suas visitas técnicas, para que sua situação seja conhecida de perto e se pense nas providências necessárias à sua conservação.

O Recife teve o privilégio de ser a primeira cidade sul-americana a receber aquela aeronave, que marcaria época na história da aviação internacional. Segundo os jornais, o povo assistiu a um espetáculo indizível: o dirigível sobrevoou a cidade, provocando estupefação nos céus de Pernambuco. A imprensa festejava o acontecimento, que parecia coroar a ousadia e a criatividade humanas no domínio do espaço.

Augusto Severo, norte-rio-grandense e pioneiro da aviação, foi chamado por Luís da Câmara Cascudo de "avô do Zeppelin", numa engenhosa explicação: filho do filho é avô. Cascudo também demonstrou que o dirigível alemão obedecia a princípios semelhantes aos do balão Pax, que explodiu em Paris, em 12/5/1902, causando a morte de Augusto Severo e do piloto Sachet.

O Zeppelin — "baleia se movendo no mar" ou "navio voando nos ares", na expressão de Ascenso Ferreira — logo entrou na literatura e no imaginário popular, compondo o mosaico da memória pernambucana.

Ascenso Ferreira registrou em versos o espanto e a irreverência diante daquela aparição: "Ó coisa bonita danada!", "Viva seu Zé Pelin!", "Vivôôô!", "Atracou!", "Credo, isso é invenção do cão!". Seu poema não apresenta o Zeppelin apenas como máquina, mas como acontecimento humano, registrando a voz do povo diante da chegada da modernidade. Ao misturar português popular, espanhol, italiano, inglês, códigos de rádio e até alemão, cria uma espécie de rádio-poema da chegada do futuro ao Recife.

Manuel Bandeira também registrou o impacto do Zeppelin. Em sua crônica O morro em polvorosa, publicada em 31/5/1930, ao tratar de sua passagem pelo Rio de Janeiro, classificou o espetáculo como "perturbantemente inédito" e viu no dirigível iluminado um "escudo cintilante" no céu.

Outro poeta pernambucano, Austro-Costa, registrou a chegada em seu poema Zeppelin, 1930: "Mas foi um gozo quando o dirigível, / Majestoso, sereno, elegantíssimo, / Deslizou sob o céu de minha terra". E, na imagem final: "E beijou, com a sua sombra ultradinâmica, / A face lírica do Capibaribe".

A documentação histórica mostra que o Zeppelin foi muito mais do que um acontecimento aeronáutico. Tornou-se poesia, espetáculo, conversa de rua, mesa de bar e memória coletiva.

O tempo passa, mas a memória permanece. Quase um século depois, a torre do Jiquiá ainda está ali, como testemunho de um dia em que o futuro chegou ao Recife pelos céus. Preservá-la é também escolher que essa memória continue sobrevoando a cidade.

*Roberto Pereira - Cadeira 35 - Academia Pernambucana de Letras

 

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