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A maioria que ainda não chegou ao poder

Uma democracia em que mais da metade do eleitorado é feminina não deveria considerar normal que as mulheres permaneçam tão distantes

Por PRISCILA LAPA E SANDRO PRADO Publicado em 29/08/2026 às 5:00

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Há uma conta que a política pernambucana ainda não conseguiu fechar. As mulheres são maioria entre os eleitores de Pernambuco. Em 2026, são 53,64% dos 7.225.744 eleitores aptos a votar: 3.876.071 mulheres, uma diferença de 526.720 eleitoras a mais que os homens. Participam das eleições, disputam cargos e, em alguns momentos, protagonizam mudanças importantes na política pernambucana.

Mas, quando termina a apuração e começa o trabalho de quem efetivamente decide, a fotografia muda. As mulheres desaparecem da maioria das cadeiras. Não das urnas. Da representação.

Não se trata de defender que mulheres devam votar em mulheres. A questão é outra: uma democracia em que mais da metade do eleitorado é feminina não deveria considerar normal que as mulheres permaneçam tão distantes dos espaços de decisão.

A fotografia começou a mudar lentamente. Em 2014, na disputa pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) cinco deputadas estaduais foram eleitas. Para a Câmara Federal apenas uma foi eleita.
Em 2018, dez mulheres chegaram à Alepe, o dobro do pleito anterior. Na disputa federal, Marília Arraes foi eleita com mais de 193 mil votos.

Em 2022, Pernambuco elegeu pela primeira vez uma mulher para governar o Estado. Foi eleita a primeira mulher Senadora e três pernambucanas chegaram à Câmara Federal. Na Alepe, entretanto, ocorreu o movimento contrário. Das 49 cadeiras, apenas seis foram ocupadas por mulheres. Em 2018, haviam sido dez.

O problema não está apenas na entrada das mulheres na política. Está na capacidade do sistema de transformar participação em representação. Entre a candidatura e a eleição existe uma zona decisiva: dinheiro, estrutura partidária, tempo de propaganda, alianças, redes políticas e capacidade de competir. É nessa passagem que a igualdade formal pode encontrar a desigualdade real.

Não basta perguntar quantas mulheres são candidatas. É preciso perguntar quantas tiveram condições reais de vencer? Quanto dinheiro receberam? Quantas estruturas partidárias trabalharam efetivamente por suas campanhas?

A porta da política está aberta. Entrar pela porta, porém, não significa chegar à sala de decisões. A legislação exige mínimo de 30% de candidaturas de cada sexo nas eleições proporcionais. Foi um avanço. Mas há a diferença entre estar na lista e estar na disputa.

Uma candidatura pode cumprir a cota e receber pouco dinheiro, pouca visibilidade e nenhuma estrutura. Nesse caso, a estatística melhora. A democracia, não!

Por isso, precisamos parar de perguntar apenas quantas mulheres foram colocadas na chapa e começar a perguntar quantas tinham condições reais de vencer. A política não começa na urna. Começa muito antes nos partidos políticos.

O argumento de que “mulher não gosta de política” já não sobrevive aos números. Elas votam, filiam-se, militam, candidatam-se, fazem campanha e vencem. O que ainda não acontece na mesma proporção é a ocupação do poder.

A eleição de 2026 oferece uma oportunidade para abandonar a velha pergunta: “quantas mulheres os partidos lançaram?” e fazer outra: “Quantas mulheres os partidos realmente querem eleger?”
A primeira produz estatística. A segunda pode produzir democracia. A questão já não é se as mulheres podem votar ou ser candidatas. Elas podem. E podem ganhar.

A pergunta é mais incômoda: por que uma sociedade em que as mulheres são maioria nas urnas ainda produz instituições em que elas são minoria nas cadeiras?

Pernambuco viu em 2022 uma mulher chegar ao Palácio das Princesas, uma mulher ocupar o Senado e três mulheres chegarem simultaneamente à Câmara.

Isso é avanço. Mas não é o fim da história. A democracia pernambucana ainda tem uma conta a pagar. Não às mulheres. À própria democracia.

Enquanto mais da metade dos eleitores for mulher e a maioria esmagadora das cadeiras continuar masculina, haverá uma fotografia estranha. E uma democracia madura não deveria se acostumar com fotografias que não se parecem com a sociedade que pretende representar.

Priscila Lapa é jornalista e doutora em Ciência Política. Sandro Prado é economista e professor da FCAP-UPE.

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