O poder que não governa
Enquanto o poder de alocar dinheiro crescer sem o peso de gerir, o melhor lugar na política será sempre uma cadeira na Câmara ou no Senado
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Tenho acompanhado eleições há anos — como advogado, como cientista político e, nos últimos tempos, como professor que vê alunos e colegas calculando cada movimento. E confesso: o tabuleiro mudou mais do que a maioria percebe. Ser candidato a deputado ou senador tornou-se bem mais atraente do que disputar uma prefeitura ou um governo. Não é preguiça de governar nem medo do palanque. É cálculo frio: o mandato proporcional virou o melhor negócio da política brasileira. A explicação está no orçamento.
A Emenda Constitucional 86/2015 obrigou o governo a pagar as emendas individuais; as Emendas 100 e 105/2019 foram ainda mais além e criaram as "Emendas PIX", que mandam dinheiro direto para estados e municípios, sem convênios e, por muito tempo, sem nem dizer para quê. O parlamentar federal, por exemplo, deixou de precisar do Planalto para entregar obras e benefícios à sua base.
Ele mesmo entrega, sozinho. E os números não são de outro mundo.
Para 2026, o Congresso reservou R$ 61 bilhões em emendas, o maior valor já registrado, algo como 70% do que o governo investe por conta própria, conforme levantou o jornal O Globo. Até julho, o Estadão apurou R$ 34 bilhões já pagos, muitos antes mesmo de qualquer obra ficar pronta. Em ano eleitoral, é dinheiro irrigando a base de quem já está lá dentro.
Aí o "mercado" da política se inverteu. Quem governa, seja prefeito, governador ou presidente, carrega o peso: responde por crise, desastre, folha, entregas, resultados. Quem apenas legisla distribui recursos, fortalece aliados e cultiva prefeitos e vereadores, sem precisar prestar contas de praticamente nada que administra. O velho "beija-mão", aquele parlamentar que dependia do governo para conseguir algo para sua cidade, virou peça rara. O efeito disso na disputa é duro de ver. O candidato com mandato chega à campanha com poder econômico imenso para seduzir prefeitos, vereadores e lideranças locais — transforma o interior inteiro em rede de cabos eleitorais. O desafiante, sem mandato, mal consegue se apresentar: não tem estrutura, não tem o que oferecer, fica à mingua do fundo eleitoral que o partido quiser envia-lo no período oficial da campanha eleitoral.
Difícil competir. Resultado: a renovação encontra obstáculos e, muitas vezes, precisa recorrer ao extremismo para angariar a atenção do eleitor. Os mesmos nomes se repetem, e quem poderia entrar fica de fora, não por falta de ideias, mas por falta de munição. Os partidos sabem disso. Por isso brigam por bancada como nunca. A cadeira do parlamentar virou o verdadeiro ativo de poder, o passaporte para os recursos, e eleger um governador, com todo o desgaste que o cargo exige, deixou de ser a prioridade. É verdade que o Supremo tentou puxar o freio: derrubou o "orçamento secreto" e exigiu rastreabilidade, mas parou por aí. A engrenagem que premia quem distribui sem administrar continua lá, intacta.
Enquanto o poder de alocar dinheiro crescer sem o peso de gerir, o melhor lugar na política será sempre uma cadeira na Câmara ou no Senado, replicando-se às Assembleias e Câmaras de Vereadores. E a renovação, essa palavra bonita que todo mundo usa em campanha, continuará sendo, na prática, a exceção.
Felipe Ferreira Lima , advogado, cientista político e professor universitário, mestre em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade de Lisboa.