Apoio a Raquel Lyra e João Campos não garante voto nos dois candidatos ao Senado em PE
Alianças para o governo se desfazem na disputa pelas duas vagas ao Senado; partidos e prefeitos cruzam apoios e deixam a eleição em aberto
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A disputa pelas duas vagas de Pernambuco no Senado ganhou dinâmica própria em relação à eleição para governador. A poucos dias do fim do prazo para o registro das candidaturas, em 15 de agosto, partidos, prefeitos e lideranças que estão nos palanques de Raquel Lyra (PSD) ou João Campos (PSB) também articulam apoio a nomes de outros grupos para a Câmara Alta.
O cenário evidencia uma espécie de voto cruzado: o apoio a um candidato ao governo não é necessariamente reproduzido na disputa pelo Senado. Com isso, as alianças para as duas eleições se misturam e tornam a corrida pelas duas vagas mais aberta do que a formação dos palanques poderia indicar.
Em 4 de outubro, cada eleitor poderá escolher dois candidatos ao Senado, inclusive de grupos políticos diferentes.
A base de Raquel rachou no Senado
A divisão começou antes das convenções. Para acomodar a Federação União Progressista, Raquel Lyra abriu mão de levar Miguel Coelho (União Brasil) para a chapa e escolheu Eduardo da Fonte (PP). A chapa Pernambuco de Coração ficou com Túlio Gadêlha (PSD) e Eduardo da Fonte.
A decisão não encerrou a disputa. Miguel Coelho anunciou apoio a Mendonça Filho (PL) e afirmou que levará seu grupo ao candidato em todas as regiões do Estado. O União Brasil, portanto, apoia Raquel para o governo, mas seu principal grupo político não está com os dois nomes da chapa oficial.
O Podemos dividiu os próprios votos: declarou apoio a Eduardo da Fonte e a Mendonça. A legenda tem 77 candidatos proporcionais e 11 prefeitos. O Novo seguiu caminho parecido, apoia Raquel para o governo, lançou Carlos Sant'Anna ao Senado e também fechou com Mendonça para a segunda vaga.
Entre os partidos da coligação, o Avante é o único caso de alinhamento completo, com apoio à governadora e aos dois candidatos da chapa.
A federação PSDB-Cidadania ficou sem voto unificado: uma decisão nacional determinou neutralidade na disputa pelo governo, com o PSDB ao lado de Raquel e o Cidadania com João Campos.
Mendonça corre por fora, mas transita na base
O PL não apoiou Raquel nem João Campos para o governo. Aprovou neutralidade e lançou Mendonça Filho sem coligação.
A relação política com a governadora, porém, permanece. Na convenção do partido, Mendonça a elogiou. Raquel tratou de separar as campanhas: disse que ele não é seu candidato ao Senado e que já tem dois nomes definidos para as vagas.
O cenário é incomum. Um candidato sem coligação para o governo, mas com trânsito dentro da base da governadora e com o apoio de partidos que estão formalmente no palanque dela.
Dueire apoia Raquel, Humberto e, possivelmente, Mendonça
O movimento mais simbólico veio de dentro do PSD, partido de Raquel. Na última segunda-feira (10), o senador Fernando Dueire confirmou apoio à candidatura de Humberto Costa (PT) ao Senado, nome que integra a chapa adversária de Raquel, encabeçada por João Campos (PSB).
Ao mesmo tempo, Dueire reafirmou seu apoio à reeleição da governadora. O ato reuniu 49 lideranças municipais, entre prefeitos e ex-prefeitos.
O segundo voto do grupo, segundo Dueire, será definido por consenso. Nos bastidores, a possibilidade de apoio a Mendonça ganhou força. Se confirmada, a composição terá peso político: um senador do PSD apoiaria Raquel para o governo e nenhum dos dois candidatos que ela escolheu para a Casa Alta.
Na Frente Popular, a conta também não fecha
O mesmo fenômeno aparece no palanque de João Campos, que reúne PSB, PDT, MDB, Republicanos, a Federação Brasil da Esperança (PT, PC do B e PV), a Federação Renovação Solidária (PRD e Solidariedade), além de Agir, DC e Mobiliza.
O rompimento mais recente foi do presidente da Alepe, Álvaro Porto (MDB), que deixou a campanha de Marília Arraes (PDT) após divergências sobre a composição da chapa ao Senado.
No dia seguinte, prefeitos e vereadores ligados ao grupo também se afastaram: Josafá Almeida (PRD), de São Caetano; Sandra Paes (Republicanos), de Canhotinho; Erivaldo Chagas (Republicanos), de Lajedo; Duda Lira (PSDB), de Cupira; e César Freitas (PCdoB), de Sanharó. Todos mantiveram a mesma posição: seguem com João Campos para o governo, mas não com Marília para o Senado.
O caso do PRD é o mais ilustrativo. Josafá Almeida é prefeito e presidente estadual da legenda, e foi um dos responsáveis por levar a federação PRD-Solidariedade para o palanque de João na reta final das convenções. Agora deixa de apoiar uma das candidatas ao Senado sem abandonar o candidato ao governo.
O MDB, ligado ao grupo de Álvaro Porto, mantém apoio a Humberto Costa e ainda não definiu o segundo voto. O Republicanos, que indicou Carlos Costa para vice, segue com os dois nomes da chapa.
Quem está fora dos dois palanques
Seis legendas disputam o Palácio do Campo das Princesas com candidaturas próprias e não estão comprometidas com nenhum dos senadores de Raquel ou João.
A UP tem Camila Falcão no governo e dois nomes ao Senado, Goret Bitu e Samuel Timóteo. O PSTU concorre com Guilherme Fonseca e tem José Mariano. O Democrata lançou Jeremias Cosmo e Gilvan Costa. O PCO tem Victor Assis e Mailson Neto. No PSOL, Ivan Moraes disputa o governo, e o apoio ao Senado vai para Paulo Rubem Santiago, filiado à Rede. O Missão, de Renan Hallais, concorre ao governo sem candidato à Casa Alta.
Prefeito não leva os dois votos
A quantidade de prefeitos em cada palanque também não resolve a equação. A campanha de Raquel afirma reunir 150 dos 184 prefeitos do Estado.
Túlio Gadêlha diz contar com mais de 80 gestores de partidos diferentes. Ao mesmo tempo, Dueire reuniu 49 lideranças municipais em apoio a Humberto. As listas se sobrepõem.
Caruaru é um exemplo. O prefeito Rodrigo Pinheiro (PSD) declarou apoio a Túlio Gadêlha e também a Humberto Costa, um nome da chapa da governadora e outro da chapa adversária.
O voto cruzado não é novidade
A história recente mostra que apoio ao governo não garante transferência automática para o Senado. Em 2022, Raquel Lyra venceu o segundo turno com 58,70% dos votos, mas seu candidato ao Senado, Guilherme Coelho, foi o mais votado em apenas um dos 185 municípios.
Teresa Leitão (PT), da chapa adversária, liderou em 138 cidades e foi eleita com 46,12% dos votos válidos.
Em 2026, a lógica pode se repetir. Os palanques para o governo estão definidos, mas a disputa pelo Senado segue aberta. A principal incógnita não é quem cada grupo apoia para governador, mas quem levará o segundo voto de cada eleitor.
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