As ilusões perdidas (II)
Na primeira parte desse artigo eu tentei mostrar o quanto o conceito de História se modificou em pouco tempo..............................
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Na primeira parte desse artigo eu tentei mostrar o quanto o conceito de História se modificou em pouco tempo e, aí, sob a influência do “Politicaly Correct” e da “French Theory”, importamos dos campi americanos os “identitarismos” e, esses, merecem uma reflexão mais alongada.
Como qualquer “ismo”, os chamados movimentos identitários tratam de um mecanismo de interpelação subjetiva: convoca Você – que não tem nenhuma essência fundamental- mas vive ou viveu (no caso, seus antepassados) formas ignominiosas de opressão, a se tornar SUJEITO (como direito, reivindicação histórica ou diferencialismo). Tudo sob a custódia da autonomia do pensar, do avaliar, do agir e fazer isso no interior de um corpus conceitual que te oferece os valores com os quais SE AVALIAR. E qualquer pessoa que estiver “fora” desse corpus não dispõe do “lugar de fala” que autoriza o falante e lhe oferece “autoridade”: só negros falam de negros, só trans falam de trans, só povos originários podem falar de si... A contestação ou a crítica a tais movimentos pode implicar o “cancelamento” do crítico: cancelamento que não é a simples “censura da era digital”, mas o desaparecimento de minha voz e de minha visibilidade onde “existo” como cidadão virtual! Ou seja: a anulação do OUTRO como entidade propriamente política e atuante no “uso público da razão”. Qualquer semelhança com os estados de exceção...
Mas tudo isso tem uma história, e essa história é a da “liberdade”, como todas as histórias dos sistemas totalitários. O identitarismo é uma ideologia acadêmica (aliás, o marxismo também terminou sendo!) impermeável à crítica e ao dissenso, sobretudo se essa crítica vier de um OUTRO, cuja identidade também é “essencializada” (branco eurocêntrico e colonialista, por exemplo, em relação aos descendentes dos “afrodiaspóricos”) e isso implica o fim do chamado HISTORICISMO. Explico.
Supomos que nós não nascemos ALGUÉM com todas as potencialidades já dadas e prontas para serem acionadas: construímos o que somos e o que queremos ser existindo no relação com os OUTROS e no interior de um momento histórico. É por isso que fica difícil acusarmos um senhor de escravos brasileiro do século XVII de não respeitar a dignidade humana dos escravizados, sem direitos à liberdade, à propriedade e à felicidade: essas noções não existiam no século XVII!
E é aqui onde o identitarismo se aproxima, anacronicamente diga-se, de uma ideologia da transformação da História em um campo do ressentimento e do ACERTO DE CONTAS COM O PASSADO: mudar o nome das ruas, das praças, destruir documentos, monumentos, patrimônios... relativos aos detestáveis “dominadores” e “colonialistas” do passado é produzir uma forma de silenciamento das vozes opressoras, como se, invertendo Walter Benjamin - que buscava as vozes oprimidas do passado-, estaríamos mais perto da redenção. Temos apenas um silenciamento autoritário de sinal trocado! E, assim, as gerações futuras serão privadas de saber quem foram os opressores, como agiram, como justificaram a opressão e por que o fizeram. Impedir seu estudo e sua visibilidade analítica por via da educação não é uma forma de “libertação”: é uma maneira de esconder os mecanismos e os personagens da dominação. Marx, aliás, só pôde falar de “revolução proletária” depois de explicar a mais-valia e seus mecanismos!
Mas é exatamente com a perda do passado ou a construção de passados à disposição dos interesses do presente que se construíram os diferentes totalitarismos, todos fundados num “universalismo seletivo”: salvar a humanidade eliminando uma parte dela (judeus, burgueses, comunistas, ciganos, imigrantes, deficientes...). E quando falo de “universalismo” (um conceito hoje fortemente criticado), não estou falando de coisas como História, Razão, Ciência, Homem..., estou me referindo ao UNIVERSALISMO de certos aspectos da condição humana, como a língua articulada e compreensível, a dignidade do compartilhamento, os destinos plurais e comuns, os sofrimentos e as dores do homem ordinário e os diferentes projetos de felicidade individual e social. Não se pode negar que foi a própria Democracia que permitiu a emergência de identitarismos seletivos e excludentes, como forma de dar voz e visibilidade àqueles que foram silenciados pela História. Nada mais justo, mas o preço a ser pago me parece altíssimo: dissolução da democracia; micropulverização da política; guetificação cultural; fim da escola republicana e universal que pensou a formação de um humanismo integral.
_“Humanismo, professor Brayner?, dirá meu cancelador, Humanismo é um conceito branco e eurocêntrico!”.
Finalmente, esses movimentos identitários são, muitas vezes, apanágio de uma elite acadêmica e intelectualizada. Os negros pobres, os transgêneros desassistidos, as mulheres faveladas, os povos originários violentados... não têm a menor ideia de quem sejam seus “porta-vozes”. E não fazem a menor ideia do que seja “lugar de fala”, “eurocentrismo” ou “epistemicídio”.
E eu que achava, depois de Foucault, que falar pelos outros era uma indignidade política. Como fui tolo!
Flávio Brayner, professor Emérito da UFPE