Aluguel caro e casa própria distante
.As pessoas precisam morar em algum lugar. Se não podem comprar, resta alugar. E quando a demanda cresce sem que a oferta acompanhe, o preço sobe.
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A alta dos aluguéis tem tirado o sono de muitas famílias brasileiras. O problema se agrava quando o preço dos imóveis também sobe, afastando ainda mais o sonho da casa própria. No fim das contas, a equação é inevitável: todos precisam morar em algum lugar, seja próprio ou alugado.
O Censo de 2022 tornou essa mudança mais visível: 20,9% da população brasileira já vive de aluguel, proporção bem acima da registrada no levantamento anterior. O dado alimentou uma interpretação comum: a de que os mais jovens teriam desistido da casa própria e adotado o aluguel como escolha definitiva.
Não é o que os dados mostram. Pesquisa da Brain Inteligência Estratégica revela o contrário. A Geração Z, entre 21 e 28 anos, lidera a intenção de compra, com 59% pretendendo adquirir um imóvel, acima da média nacional de 49%. O sonho da casa própria continua vivo, e aparece com ainda mais força justamente entre os mais jovens.
Se não houve mudança de mentalidade, o que explica a corrida ao aluguel? A resposta passa por dois fatores principais, que é a perda do poder de compra das famílias e o avanço do endividamento. A inflação corrói a renda, especialmente quando itens essenciais sobem de preço em ritmo acelerado. Para manter o padrão de vida, muitas famílias acabam recorrendo cada vez mais ao crédito.
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), 81,6% das famílias brasileiras estão endividadas, e quase um terço delas já possui contas em atraso.
Some-se a isso o custo do dinheiro. A Selic está em 14,00% ao ano e, mesmo após quatro cortes consecutivos desde março, continua em um patamar que dificulta o financiamento imobiliário para boa parte da classe média.
O efeito é direto: financiamentos de longo prazo incorporam juros em centenas de parcelas. Quando a taxa básica permanece elevada, a prestação aumenta e deixa de caber no orçamento de famílias que já convivem com inflação e dívidas. Isso considerando apenas quem consegue aprovação do crédito, já que os bancos também tornam a análise de risco mais rigorosa em um ambiente de juros altos.
É verdade que o ciclo de queda começou, mas começar a cair é diferente de já ter caído o suficiente. A redução da Selic leva tempo para chegar ao financiamento imobiliário, porque o repasse ao crédito acontece de forma lenta e desigual. Para a família de classe média, a conta só volta a fechar quando a queda dos juros for consistente e alcançar, de fato, a ponta do crédito habitacional.
Há ainda outro obstáculo menos evidente: a própria fonte de recursos do financiamento imobiliário. O SBPE, uma das principais linhas de crédito habitacional do país, depende da poupança, e esse dinheiro vem diminuindo.
De um lado, o juro alto estimula o poupador a migrar para investimentos com maior rentabilidade. De outro, muitas famílias retiram suas reservas simplesmente para pagar as contas do mês, justamente em razão da mesma pressão financeira que as afasta da compra do imóvel.
Menos poupança significa menos recursos baratos para o crédito imobiliário, o que encarece e restringe os financiamentos justamente quando a demanda reprimida é maior. O problema, portanto, não está apenas na intenção de compra, que a pesquisa demonstra existir. Ele está também na própria estrutura de financiamento da moradia no Brasil.
No Recife, há ainda uma particularidade que aumenta a sensação de alta dos aluguéis. Por uma prática comum do mercado local, muitos imóveis são anunciados pelo valor do pacote, que reúne aluguel, condomínio e IPTU.
Como as taxas condominiais e os impostos vêm subindo em ritmo próprio, muitas vezes acima do reajuste do aluguel em si, o valor anunciado cresce mais do que o aluguel puro, ampliando a percepção de encarecimento. A Lei do Inquilinato, porém, separa claramente o aluguel dos encargos da locação. O anúncio soma aquilo que a legislação distingue.
Para o inquilino, o desembolso total é real de qualquer forma, mas compreender essa composição faz diferença na hora de negociar e comparar imóveis.
Voltamos, então, à questão inicial. A alta dos aluguéis decorre, sobretudo, da dificuldade de acesso à compra. As pessoas precisam morar em algum lugar. Se não podem comprar, resta alugar. E quando a demanda cresce sem que a oferta acompanhe, o preço sobe.
Amadeu , advogado Patrimonial e de Negócios Imobiliários