A reforma que o Brasil precisa
O "jeitinho brasileiro" simboliza distorção. Romantizado como criatividade, ele representa normalização da quebra de regras em benefício próprio.
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Cidadania é prática diária. Constrói-se nas escolhas individuais, nos comportamentos cotidianos e na forma como cada pessoa ocupa e respeita o espaço coletivo. Ser cidadão não é apenas conhecer direitos, mas, sobretudo, exercer deveres com responsabilidade, consciência e respeito. Nesse processo, a educação cidadã é central, para desenvolver pensamento crítico, responsabilidade social e compromisso com o bem comum.
A crise de cidadania no país não se limita aos grandes escândalos. Ela se manifesta nas atitudes mais simples: no desrespeito às filas, no lixo jogado nas ruas, nos rios e canais, no barulho imposto ao outro, no descuido com o espaço público e na informalidade das regras. São comportamentos aparentemente pequenos, mas que, repetidos diariamente, constroem uma cultura permissiva, desorganizada e pouco comprometida com o coletivo.
Essa realidade é construída ao longo do tempo — na família, na escola e no convívio social. Quando a educação falha em formar indivíduos conscientes, cria-se uma sociedade que resiste a assumir responsabilidades. Surge o conformismo, que reduz a capacidade crítica e enfraquece a indignação. Nesse ambiente, prospera a tolerância à corrupção. Quando práticas ilícitas são relativizadas sob o argumento de que "todo mundo faz", a confiança nas instituições se deteriora e o oportunismo passa a ser socialmente aceito.
O chamado "jeitinho brasileiro" simboliza essa distorção. Frequentemente romantizado como criatividade, ele representa, na prática, a normalização da quebra de regras em benefício próprio. Em pequena escala pode parecer inofensivo, mas, quando generalizado, fragiliza instituições, incentiva a impunidade e compromete a construção de uma sociedade baseada em regras claras. Uma sociedade que valoriza atalhos compromete sua capacidade de construir caminhos sólidos e sustentáveis.
Essa lógica também se revela no espaço urbano. Cidades degradadas, equipamentos públicos abandonados e desordem não são apenas reflexo da ineficiência estatal, mas também da aceitação social do descuido. Quando o cidadão se acostuma à precariedade, deixa de exigir qualidade e passa a normalizar a mediocridade.
O trânsito é outra expressão clara dessa fragilidade cidadã. Impaciência, agressividade, desrespeito às regras e ausência de empatia transformam as ruas em ambientes caóticos. Não se trata apenas de mobilidade, mas de convivência. Dirigir exige mais do que habilidade técnica: exige respeito ao outro e compreensão de limites coletivos.
A relação com o Estado evidencia uma contradição recorrente. Há desconfiança generalizada, mas também dependência. Critica-se o poder público, mas espera-se que ele resolva tudo. Cobra-se eficiência, mas tolera-se a desordem cotidiana. Essa ambiguidade perpetua um ciclo de baixa exigência e baixos resultados, dificultando a construção de instituições sólidas.
O mais paradoxal é que o país possui atributos extraordinários — diversidade cultural, criatividade, hospitalidade e capacidade de adaptação. No entanto, essas qualidades convivem com indisciplina, inconsistência institucional e baixa responsabilidade coletiva. Há potencial, mas falta direção; há energia, mas falta compromisso com o bem comum.
Cidadania plena exige consciência e ação. Exige participação ativa, acompanhamento das decisões públicas, cobrança por transparência e responsabilidade nas atitudes do dia a dia. Não há instituições fortes em sociedades frágeis, nem democracia sólida onde a cidadania é superficial.
A transformação do Brasil não virá apenas de reformas ou alternâncias de poder. Começa no comportamento de cada cidadão. Enquanto o desrespeito, a tolerância à corrupção e a baixa responsabilidade coletiva forem naturalizados, o país permanecerá aprisionado em um ciclo de mediocridade.
Uma sociedade que não conhece a excelência dificilmente a exigirá. E, enquanto não exigir, continuará refletindo — não o melhor de si, mas os limites da sua própria consciência cidadã.
Romper esse ciclo requer, essencialmente, liderança exemplar, educação cidadã e combate consistente à impunidade.
Eduardo Carvalho, autor do livro "Nurture Global Citizenship Awareness", Harvard University Fellow