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Quando falta o básico

Os exemplos citados na crônica ajudam na compreensão do porquê (a autora bem humoradamente se define observadora do cotidiano)...........

Por Gustavo Henrique de Brito Alves Freire Publicado em 22/07/2026 às 5:00

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O que pode ensinar a todos nós o péssimo exemplo pós-derrota da seleção da Argentina de futebol nesta Copa Fifa vencida pela Espanha? Que, sendo escasso o que é básico – educação – tudo o mais desmorona por gravidade, ainda que se prefira medir alguém pelos zeros antes da vírgula na conta bancária. O time de Messi, com todo o merecimento que pudesse ter para chegar (outra vez) ao fecho de desafio tão monumental, arremessou tudo pela janela, consumido pelo orgulho ferido, ao dar as costas à equipe campeã enquanto esta era premiada (de modo não menos justo).

O próprio Messi, depois, nas redes sociais, correu para felicitar os espanhóis, mas a emenda saiu pior que o soneto. Saber perder é uma experiência tão reveladora e tão transformadora quanto a de saber ganhar. Requer muito da pessoa e diz da sua grandeza ou da pequenez do seu coração. Não se trata de valorizar o time de um País socialmente desigual contra o time de um continente rico. Também não se cuida de corroborar que o esporte seria monopólio dos mais rápidos e jovens (Messi tem provado que não o é).

Igualmente não se trata de discutir se o placar foi suficiente ou não. O ponto é prosaico. Se um grupo de atletas profissionais, após derrotado, ao invés de reconhecer os méritos do adversário em uma final, vira-se de costas para ele e se porta infantilmente; se esse grupo adota atitudes agressivas e destemperadas para com integrantes do selecionado adverso, como achar que tudo faz parte do calor do momento? Quando inegável que milhares de meninos e meninas elegem como referências atletas do futebol, diante de cenas deploráveis como as do domingo 19/7 no evento da Copa Fifa nos EUA, por que aos seus protagonistas parece tão pouco interessar a mensagem subliminar que esse comportamento transmite à juventude, em um mundo já tão conturbado? Li em algum momento na vida que ruim mesmo é não entrar em campo com medo de perder. Sou levado a concordar.

Quem não experimenta as perdas, realmente, tende a não sentir o real sabor da vitória. O contraste que explica a infelicidade reside segundo muitos pensadores em acreditar que tudo se resume a vencer ou perder. Como mais sabiamente conclui, porém, Maria Sanz em sua coluna no jornal A Gazeta de 6/6/2021, não é bem assim. O problema é que, “em algum ponto, lá atrás, conseguiram nos convencer de que a vida foi feita para vencer”.

Os exemplos citados na crônica ajudam na compreensão do porquê (a autora bem humoradamente se define observadora do cotidiano, a empregar sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro, além de usuária da medicina da palavra, definição que procuro emprestar ao meu próprio texto). Em rodas de conversa, quem não se empenha em vencer, provar seu argumento e assegurar o lugar de campeão? Para isso foi esta pessoa criada e não para enxergar nas diferenças a oportunidade de crescer, senão para encontrar nelas a chance de vencer.

Nas corporações, como negar que o estímulo para competir é quase uma religião? E que, nas relações amorosas, inúmeros casais passam a vida disputando espaço? Se se separam, brigam por patrimônio, pelos filhos, até pelos pets. E a métrica se repete em grupos de WhatsApp, redes sociais, academias de ginástica e salas de aula. É o que almejamos? Novamente me socorro da prosa irreprochável de Maria Sanz: “Chega a ser engraçada essa nossa corrida de ratos... Lutando sempre pelo ‘melhor’ ou ‘maior’ como se este lugar existisse, afinal”. Perceba-se.

O texto referido foi escrito há quase sete anos, mas perdura atual, como se houvesse sido produzido ontem. Tantos séculos se foram desde as cavernas e os dinossauros e que nada aprendemos? Será essa a nossa trágica vocação, a nossa sina? Fica a advertência de Paulo Coelho: “Existem derrotas, mas não existe o sofrimento. Um verdadeiro guerreiro sabe que ao perder uma batalha está melhorando sua arte de manejar a espada. Saberá lutar com mais habilidade no próximo combate”. Mais claro do que isso, só desenhando.

Gustavo Henrique de Brito Alves Freire, advogado

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