Vida que segue
Ainda somos nós brasileiros elos de uma Nação de quinhentos e poucos anos, que tem muito chão pela frente. Não existe tristeza que resista......
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Ninguém aceita resignadamente perder. A mera cogitação nesse sentido, para muitos, se iguala à ideia de fracasso. Não se leva de boa a ideia de fracassar. Este é um primeiro ponto. Lado outro, não é justo relativizar a importância que o esporte tem para as novas gerações e o quanto pode ser o fator a afastar de más influências. Este é um segundo ponto, complementar àquele primeiro.
Nada obstante, não é de nada disso que se ocupa o presente artigo. A proposta é a de um convite a uma reflexão mais ampla: queremos ou não ser capazes de enxergar além do gramado verde, perdendo ou ganhando?
Sem enfeitar o texto com estatísticas, o certo é que, no Brasil, a camisa verde e amarela e as bandeirinhas só são fixadas nos carros quando é época de Copa. Por quê? O que isso nos ensina? Que infelizmente nós ainda não percebemos a grandeza plural da nossa identidade nacional, para além da vertente esportiva.
Essa mesma visão limitada nos impede de notar o quanto há com que estar preocupado no País e no mundo e em relação a que se mobilizar. A começar pela defesa da democracia.
Se perder não é uma sensação aprazível, faz parte da experiência humana. Está no preço do ingresso da grande aventura de viver. Uma das principais bandas de música de todos os tempos no Brasil, Os Titãs, em composição ainda hoje tocada, resume: "Quem espera que a vida seja feita de ilusão, pode até ficar maluco ou morrer na solidão". Portanto, "é preciso saber viver". E saber perder faz parte do saber viver. Aceitar a perda humaniza. Mostra que oportunidades
podem se anunciar quando se entende que o ser humano é, por definição, uma obra incompleta.
Outro nome da nata do cenário musical brasuca, Tim Maia, nos idos de 1970, defendeu - um tanto pessimistamente, o que se mostrava algo típico das chamadas "canções de fossa" - que "na vida a gente tem que entender que um nasce para sofrer, enquanto o outro ri". Quem sabe Tim Maia acreditasse nisso mesmo. Talvez tenha sido essa sua vivência. Mas, com todo o respeito à memória desse gênio, a frase é um exagero.
Ninguém está predestinado a sofrer ou a ser feliz. A questão primordial no plano da existência - o famoso "sentido da vida" - reside em como cada um lida com os reveses. Se o indivíduo adota uma posição cética ou de conformismo ou se parte para a luta e compra o risco, mesmo que se frustre, mas ainda assim
persevera. Não há vez para a indiferença. Se não conta a conquista pela conquista, conta o que a conquista transmite para além dela própria.
Quem não sabe perder, perde sempre. Aceitar a própria falibilidade indica sabedoria. Ninguém é absoluto. Se o erro é cometido querendo-se acertar, não deve o indivíduo se diminuir por isso. Jamais. Tome-se como exemplo a criação dos filhos. O dizer "não" é básico porque ajuda a criança a lidar com as perdas. O filho que não aprende em casa já se autocondena a ser um derrotado, pois
não saberá possivelmente lidar com os próprios insucessos e não superará ao que tudo indica, segundo os especialistas, as próprias quedas.
A paixão pelo futebol, parte inarrancável do imaginário nacional, não deve depender do acreditar que só faz sentido vencer e que perder é o fim da linha. Não. Ninguém contesta que o esporte é capaz de transmitir à criança noções sobre conviver socialmente, ter disciplina, persistência, foco, a tomar decisões, a ser confiante, fomentar a autoestima e respeitar o oponente em campo, não se deixando dominar pela indignação da derrota naquele momento. Nada disso, sejamos razoáveis, pode ser trancafiado em um baú por quatro anos até a próxima Copa. Deve estar na grade curricular da formação continuada de meninos e meninas.
Como lucidamente afirmou certa vez Ana Maria Machado: "Só se chega por acaso, pois é impossível encontrar o caminho sem antes se perder". Por isso, cabeça erguida, povo. Ainda somos nós brasileiros elos de uma Nação de quinhentos e poucos anos, que tem muito chão pela frente. Não existe tristeza que resista para sempre.
Gustavo Henrique de Brito Alves Freire, advogado