O Amargo Preço do Conformismo
O conformismo brasileiro se constrói aos poucos, geração após geração, e se consolida quando o cidadão começa a acreditar que nada depende dele
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- ”O conformismo é o carcereiro da liberdade e o inimigo do crescimento.”?John F. Kennedy
- ”A apatia de um cidadão em uma democracia é mais perigosa que a tirania.”?Montesquieu
O conformismo brasileiro não surge do nada. Ele se constrói aos poucos, geração após geração, e se consolida quando o cidadão começa a acreditar que nada depende dele. Que as coisas “sempre foram assim” e que qualquer tentativa de mudança é inútil. Esse pensamento complacente anestesia, paralisa e imobiliza. Em vez da indignação ativa, instala-se a resignação passiva. Reclama-se muito, mas age-se pouco. O mero desabafo substitui a ação efetiva.
A vitimização constante reforça esse quadro. Quando tudo é atribuído à culpa da “sociedade”, do “governo”, do “sistema capitalista”, dos “políticos corruptos”, da “herança cultural deixada pelo colonialismo português”, do nosso “longo regime escravocrata” ou de qualquer outro pretexto, o indivíduo se exime de sua própria responsabilidade.
É claro que existem desequilíbrios estruturais, desigualdades históricas e falhas graves no poder público — negar isso seria desonesto. No entanto, transformar essas realidades em álibi permanente para a inércia representa outro extremo igualmente prejudicial.
Uma sociedade que se vê apenas como vítima deixa de se perceber como agente de mudança e transformação. Nesse contexto, direitos são exigidos como se fossem favores, enquanto deveres são tratados como opressão.
Muitos querem serviços públicos eficientes, mas toleram o “jeitinho brasileiro”; dizem ter “horror de políticos desonestos”, mas votam sem critério (ou adotam a prática vil de trocar o voto por doações ou favores); “detestam o roubo do dinheiro público”, mas relativizam as corrupções cotidianas; cobram ética das elites, mas a ignoram no dia a dia. Essa incoerência diária corrói qualquer projeto coletivo de desenvolvimento
O assistencialismo mal concebido também alimenta o conformismo, especialmente quando não vem acompanhado de educação, qualificação e oportunidades reais de autonomia.
A ajuda emergencial é essencial em casos de miséria, mas, quando se torna uma muleta permanente — ou uma armadilha para comprar votos —, desvinculada de processos de emancipação, ela gera dependência psicológica e social. O cidadão para de lutar por chances de se libertar e crescer, passando a defender apenas a manutenção do benefício imediato, mesmo que isso perpetue sua estagnação.
A falta de reação dos brasileiros fica evidente na tolerância prolongada com serviços públicos ruins, impostos exorbitantes com péssimo retorno, corrupção recorrente e descaso institucional. Em muitos países, pequenos abusos provocam grandes reações. Aqui, abusos graves geram apenas comentários, memes e indignação passageira, logo engolidos pela rotina.
Desenvolvimento não se resume a crescimento econômico: exige maturidade cívica. Nenhum país avança de forma consistente quando sua população aceita passivamente a mediocridade, terceiriza toda a responsabilidade e abdica do papel de fiscal permanente do poder e de seus integrantes. Sem pressão social contínua, cobrança organizada e participação ativa, o Estado tende naturalmente à ineficiência e ao abuso.
Enquanto o brasileiro preferir se adaptar ao problema em vez de enfrentá-lo; enquanto trocar a reação pela resignação e a responsabilidade pela desculpa; enquanto aceitar migalhas como destino inevitável, e não como emergência temporária, o país continuará andando na direção do atraso.
*Joel de Hollanda, Economista, ex-secretário de Educação do Estado de Pernambuco e ex-Senador.