Editorial JC: Mundo de volta ao passado
Deposição de Nicolás Maduro e declaração de governo de transição por designação de Washington deixam o século 21 com as feições de séculos anteriores
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Em quase uma hora de discurso e entrevista coletiva sobre a operação que bombardeou Caracas e tirou o ditador Nicolás Maduro do poder, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não se preocupou em enfatizar a necessidade do retorno da Venezuela à trilha democrática. Talvez porque não veja essa necessidade. Em compensação, a repetição da palavra petróleo deixou claro o interesse econômico atrelado à exibição de um protagonismo geopolítico que recorda tempos imperiais, onde o território mundial era dividido às claras pelas superpotências.
O regime totalitário comandado por Maduro não está em dúvida. É fato. Assim como o menosprezo dos EUA sob Trump em respeitar a soberania das nações e a legislação internacional. Sobre esses dois fatos, duas “verdades inconvenientes”, na expressão do cientista político Ian Batista, em artigo publicado no JC, não pairam contestações. O que os habitantes da Terra neste momento se perguntam é quais as consequências práticas, nos próximos meses e anos, para democracias baseadas em princípios comuns de direitos e deveres, inclusive para os chefes de Estado e suas forças militares.
A começar pelos EUA, onde Trump faz constantes chacotas com o Congresso, e só demonstra simpatia pelo Judiciário quando as decisões são a seu favor. Se o povo, os políticos e as instituições norte-americanas abraçarem a nova política de segurança da Casa Branca, a própria história democrática da nação estará em risco.
Outra dúvida imensa repousa sobre a direção que será tomada pelos venezuelanos. Quais os rumos que a população poderá escolher, a partir da retirada abrupta de Maduro? Uma das preocupações é a de que a oposição vitoriosa nas eleições fraudadas de 2024 pode não estar sendo sequer cogitada para assumir a liderança no país, porque isso também poderia pôr o interesse de Trump em jogo. Nesse caso, sem restauração da democracia, a Venezuela apenas veria ser trocado um regime de exceção por outro.
“Os EUA não são a polícia do mundo, e é para evitar que qualquer nação se sinta responsável por exercer esse papel que uma série de tratados e convenções internacionais que formam o Direito Internacional se desenvolveu ao longo dos últimos séculos”, pontua Ian Batista. No ufanismo exaltado pela captura bem-sucedida de Maduro, Trump e seus auxiliares não economizaram superlativos dignos de impérios de outrora, com avisos explícitos a eventuais opositores. Para Trump e seus estrategistas, o domínio dos EUA é o hemisfério ocidental, que pode se confundir com as Américas, de norte a sul.
Além dos traumas e temores levantados na América Latina, a intervenção dos EUA na Venezuela provoca arrepios em outros continentes, especialmente na Europa. Um acordo tácito entre supostos ultranacionalistas que desejam controlar suas vizinhanças pode estar em curso. Neste sombrio retorno a épocas que pareciam longínquas, as peças de um quebra-cabeças distópico se encaixam.