Os desafios disruptivos de um novo começo
Caminhamos com a aurora, experenciamos sonhos e conquistas no ser reinventado (ou revisitado) que somos, trilhamos buscas nesse tempo novo
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O sinalagma de um novo ano que começa pode ser compreendido de forma simbólica e existencial, como uma relação de reciprocidade entre o tempo que se inaugura e a nossa atitude humana diante dele. É a troca entre tempo e sentido: o tempo se oferece, e o ser humano o preenche. Sem essa reciprocidade, o ano apenas passa, não se transforma em marco existencial.
Um novo começo é sempre meta de implementações. Caminhamos com a aurora, experenciamos sonhos e conquistas no ser reinventado (ou revisitado) que somos, trilhamos buscas nesse tempo novo que são os 365 dias ainda não vividos. O que o novo ano exige é responsabilidade, ação e compromisso.
Responsabilidade por escolhas conscientes e coerentes, desempenho de ação quando o tempo só ganha sentido se for vivido ativamente e o compromisso de transformar expectativas em atitudes concretas.
O ano novo não garante mudanças por si só; ele oferece possibilidades, mas exige protagonismo.
Assim como em um contrato jurídico, uma parte só faz sentido em razão da outra: não há renovação sem ação, nem futuro diferente sem escolhas diferentes. Eis o sinalagma simbólico de um novo começo, nos seus desafios disruptivos.
Um desafio disruptivo urgente será o de reaprender a viver em um mundo instável, a partir da presente aceleração tecnológica, observado que a IA e a automação avançam mais rápido do que a capacidade humana e institucional de adaptação.
É a “Nova Renascença” que Thomas L. Friedman, ganhador de três prêmios Pulitzer, definiu como um novo ponto de inflexão fundamental da espécie humana, quando podemos dispor de “um agente de IA” a chamar de seu. Cada um de nós em alinhamento com a revolução da Inteligência Artificial, pelo uso comum desse agente, aprimorando nossa capacidade no trabalho e na vida.
Também um mundo instável pela desinformação e polarização, quando a verdade disputa espaço com narrativas artificiais, afetando democracia e convivência social. O desafio é o de conviver com as diferenças ideológicas sem romper o tecido social, na busca por pertencimento em uma sociedade cada vez mais fragmentada por pseudoverdades políticas.
Como afirmou o Ministro Luiz Edson Fachin, presidente do STF, em sua mensagem de Ano Novo: “A confiança da sociedade é construída, dia após dia, pela coerência das decisões, pela responsabilidade das ações e pela abertura permanente ao aperfeiçoamento”.
Essa abertura referida é uma atitude ética e responsável implicando compromisso moral. Cria um vínculo direto com o futuro: o passado oferece experiência; o presente exige reflexão; e o futuro pede disposição para transformação. Em não ser assim, o futuro se torna mera repetição do passado. O aperfeiçoar não é apenas “fazer melhor”, mas fazer melhor para o outro e para o mundo.
Tempo de viver o novo. A medicina tem evoluído de forma constante, impulsionada por descobertas científicas e avanços tecnológicos. Em 2026, por certo, surgirão novas possibilidades terapêuticas, terapias inovadoras e o desenvolvimento de medicamentos avançados e caros, impactando o cenário da saúde. O desafio maior será o de oportunizar a todos o amplo e devido acesso superando os atuais marcadores de gênero, raça e classe que reproduzem, flagrantemente, as desigualdades sociais.
Nesse contexto, o acesso igualitário seja também cogitado diante de novos tratamentos médicos havidos como “ferramentas de otimização corporal”, pelo uso “off label” de medicamentos, onde a chamada “economia da magreza” exige recursos financeiros apenas disponíveis por poucos.
Torna-se fundamental que o Sistema Único de Saúde (SUS) esteja preparado, para “incorporar essas tecnologias de forma segura, eficiente e universal”, envolvendo uma distribuição e regulação justa para toda a sociedade.
Em outro giro, o jurídico, um novo começo reclama mudanças na atuação estatal, no ponto em que o poder punitivo do Estado deva ser exercido de forma mais intensa, sob pena de “perpetuar uma cultura de despeito aos direitos humanos”.
Uma realidade cotidiana denuncia as reiteradas violações contra as mulheres, com a incidência majorada de feminicídios, de maus-tratos físicos e de vulnerabilidade permanente de mulheres negras por racismo sistêmico.
O país ultrapassou mil feminicídios registrados em 2025, enquanto quase três mil mulheres sobreviveram a tentativas de assassinatos, em brutal escalada da violência de gênero. Impende, assim, melhores políticas de proteção, com um poder dissuasório eficaz. No mais, impõe-se a necessária adequação do Direito às vicissitudes socioculturais, com transmutações jurídicas que devam ser inseridas à efetivação do justo.
Há uma chamada de reconstrução da confiança, recurso escasso, para fortalecer a convivência social, as democracias, a governabilidade, a economia, as instituições, o respeito ao próximo, a dignidade humana. Um novo desafio civilizatório, o da destruição criativa sugerida por Philippe Aghion (Nobel de Economia, 2025), como estratégia transformadora.
Aliás, o grande resgate civilizatório de 2026 será reaprender o ser humano em um mundo onde as máquinas já aprenderam a ser eficientes. Designadamente, quando a humanidade exige maiores práticas do sentimento fraterno, em garantia fundamental do direito ao cotidiano estável, como qualidade de vida e questão de direitos humanos.
O maior desafio disruptivo será o da mudança de consciência. Mais do que o da tecnologia, o maior desafio é o de mudar mentalidades antes de mudar sistemas; trocar imediatismo por responsabilidade; substituir repetição por reinvenção e transformar esperança em ação consistente. Disruptivo não é apenas o que muda o mundo, é o que muda a forma como escolhemos viver nele.
*Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista