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A importância do gesto

Um gesto para Antônio Carlos significava demonstrar o propósito, a vontade, o desejo. Para ele, o gesto era mais eloquente que dezenas de palavras.

Por Gilliatt Falbo Publicado em 23/12/2025 às 0:00 | Atualizado em 23/12/2025 às 10:06

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Conheci Antônio Carlos Figueira quando éramos jovens em 1982 assim que cheguei ao IMIP.

Eu médico preceptor e ele estudante de medicina. Nossa convivência, sempre muito boa, evoluiu para uma amizade sincera, leal e duradoura.

Tivemos a oportunidade de trabalharmos juntos por muitos anos em circunstâncias diversas, quando a hierarquia nos colocou por diversas vezes trocando de posições como chefe e subordinado. Certamente estas mudanças nos ensinaram a guardar profundo respeito nas nossas relações profissionais e pessoais. Houve algumas situações de divergências e discussões ríspidas, mas também na maioria das vezes as convergências sobre a visão de mundo, princípios, valores e objetivos com ambições generosas nos aproximaram de forma permanente.

Acompanhei, pela proximidade que nos oferecia o IMIP, sua trajetória pessoal e profissional. Do jovem que casou, constituiu família, e também do pediatra que cursou as experiências que o hospital lhe apresentava: plantonista, preceptor na enfermaria, ambulatório, mestrado na Inglaterra, etc.

Quando da enfermidade do então superintendente Dr. Orlando Onofre, para auxiliá-lo se iniciou na gestão em saúde, onde certamente pôde exercer toda a sua potencialidade. Foi Secretário adjunto de Saúde do Estado, Superintendente Geral do IMIP, Presidente do IMIP, Secretário Estadual de Saúde, Secretário da Casa Civil, Chefe da assessoria especial do governador, Presidente da Faculdade Pernambucana de saúde.

Durante seu período na presidência do IMIP, enfrentou um desafio que a sociedade pernambucana presenciou e um o crescimento que a instituição jamais experimentou. A incorporação do Hospital Oscar Coutinho, a construção do edifício dos ambulatórios e o a restauração do Hospital Dom Pedro II desativado havia 27 anos. Uma contribuição para a preservação da memória da medicina do nosso estado. Um legado inestimável que nunca deve ser esquecido.

A transformação do IMIP de um hospital materno infantil em um hospital de clínicas, além de ampliar os serviços à nossa população carente, também teve o propósito de oferecer um ambiente de cenários práticos para a Faculdade Pernambucana de Saúde- FPS, sonho do Professor Fernando Figueira que nos confiou, a mim e a Antônio Carlos a sua consecução.

Sua partida precoce nos privou de poder contar com uma mente criativa, voltada para o futuro, estimulada por desafios e extremamente profícua.

No entanto a despeito de todos estes relatos, ao lembrá-lo, gostaria de ressaltar aspecto que me parecia único da sua personalidade.

Antônio Carlos era um homem atento às pessoas e as circunstâncias. Apesar do seu semblante quase sempre fechado, que algumas vezes podia ser confundido com antipatia, para aqueles que o conheciam de perto, portava um coração enorme e generoso. Muito educado, nunca perdia a oportunidade de fazer uma gentileza. Era, acredito eu, o seu jeito de estabelecer vínculo, aproximação, confiança. Escutava com atenção, se oferecia para ajudar sem esperar retorno. Admirava e reconhecia esforço, compromisso e lealdade. Era amigo dos amigos, dos quais recebia reciprocidade e a gratidão merecidas. Um gesto para Antônio Carlos significava demonstrar o propósito, a vontade, o desejo. Para ele, o gesto era muito mais eloquente que dezenas de palavras.

Quando sua lembrança ativa a minha memória e aquece as emoções de uma vida de amizade. Lembro que nele diferentemente do poema, não havia "distância entre a intenção e o gesto". Isso hoje nos faz falta

Mais que muitas palavras

Intenção, propósito

O corpo e as ações eloquentes

Emoção, lembrança, memória

Reciprocidade, gratidão

Escutar

Ajudar sem retorno

Apoiar e reconhecer o esforço

Gilliatt Falbo, médico amigo do IMIP

 

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