A vacina e a perna cabeluda
Mesmo com clareza, mostrando o impacto da vacina sobre a pandemia, ainda tem gente que foge dela tanto quanto da perna cabeluda.....
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Ao contrário do óleo de peixe do Amazonas e das raízes vendidas nas melhores bancas de feira, bons "para tudo", alguns adultos vacinados que nunca tiveram poliomielite, hepatite ou HPV, passaram a dizer que as vacinas fazem mal a tudo, "um veneno", "assassina", uma ameaça para a humanidade.
Lenda é lenda. Surge do imaginário, efeito manada ou circunstâncias políticas, como foi o caso da perna cabeluda praticando maldades nas madrugadas do Recife. Uma maneira de driblar a censura em tempos de ditadura, atribuindo violências sociais ou praticadas por policiais ao membro piloso. Se era proibido publicar, diga-se que a culpa era do sobrenatural. Ganhou manchetes e muitos dos que viveram os anos 70 juram que viram "com os olhos que a terra há de comer". Basta assistir "O agente secreto" onde é personagem de destaque, de Pernambuco para o mundo, em pouca carne e pouco osso.
Todos lembram a recente polêmica em torno da vacina contra o Sars-Cov-2 durante a pandemia. Foram muitas conclusões apressadas, alguns temores justificáveis, mas muitas vezes exagerados e até ridículos.
Nada como um dia após o outro.
Fora das bolhas de dissonância cognitiva, os médicos acompanham a evolução da ciência com inúmeros estudos agora concluídos. Além de mudar o curso da pandemia, ficou claro, por exemplo, que o vírus foi responsável pelo aumento dos casos de trombose no mundo e não a vacina mRNA. Pena que não tenha sido capaz de eliminar totalmente esse risco, mas reduziu sua incidência ao diminuir o número de casos e a gravidade da virose.
Em paralelo à proteção contra o SARs-Cov-2, outras observações importantes foram publicadas. Pesquisadores observaram casos de "cura natural" de câncer, ocorrendo mais entre vacinados mRNA do que em não vacinados. Estudaram e concluíram que a vacina mRNA tornou o tumor mais visível para o sistema imune dos pacientes. Nessa linha, um recente artigo publicado na respeitada "Nature" (Vol 647 | 13 novembro 2025) um grupo de pesquisadores do MD Anderson Cancer Center, um centro médico à frente de vários dos avanços no tratamento de câncer das últimas décadas, demonstrou que a vacina mRNA sensibilizou tumores para a ação de uma classe de medicamentos, melhorando os resultados. A imunoterapia é muito eficiente no tratamento de certos tumores, mas não todos. Cientistas procuram modificar o microambiente tumoral para melhorar o resultado e concluíram que os pacientes vacinados com mRNA COVID responderam melhor ao tratamento (o mecanismo é bem descrito, mas por sua complexidade não cabe aqui). Concluíram que a vacina mostrou ser um potente modulador capaz de sensibilizar tumores à ação da imunoterapia.
O tratamento individualizado, específico para alguns tipos de câncer, já existe inclusive no Brasil, mas é um procedimento complexo em que linfócitos do paciente são modificados geneticamente em laboratório para que reconheçam e ataquem células cancerígenas, ao preço de 2 a 3 milhões de reais por dose única, técnica conhecida como CAR-T Cell com a qual os mesmos autores do estudo da Nature estiveram e estão envolvidos.
A sensibilização do tumor à tratamento mais simples está sendo pesquisada e o resultado agora obtido com a vacina mRNA é animador.
Mesmo com a clareza dos dados mostrando o impacto da vacina sobre a pandemia e novos horizontes positivos, ainda tem gente que foge dela tanto quanto da perna cabeluda e do Papa-figo. No caso do Papa-figo, o homem corcunda com saco nas costas oferece doces para atrair crianças, tirar-lhes o fígado e usá-lo como remédio para sua doença rara, mas deixa dinheiro para custear o sepultamento da vítima, reza a lenda. No mundo real existem os que causam muito mais vítimas, sem pagar nada. São piores do que o Papa-figo.
Sérgio Gondim, médico