A era do apodrecimento cerebral
Momentos de ócio são tão importantes para a criança como oferecer leitura de qualidade, pois um leitor se forma desde o berço........
Clique aqui e escute a matéria
Pois é, o tempo de tela está corroendo o cérebro e cada vez mais fica difícil nos darmos conta disso. Apesar de vivermos na era do conhecimento, a chamada riqueza de informação nos distrai, cria pobreza de atenção por um tempo prolongado, causa desgaste e confusão - fato constatado já no século passado pelo economista, professor e cientista político norte-americano Herbert Simon, Prêmio Nobel de Economia/1978 (citado pelo jornalista Franklin Foer no livro O mundo que não pensa, de 2018). Somos levados a consumir cada vez mais as telas, sendo direcionados por combinações algorítmicas que nos fazem acreditar que dominamos as informações e não o contrário. Vivemos o tempo da manipulação e dos monopólios, que cria profundos danos ao indivíduo.
Mas, se já estamos cansados de saber disso, então por que ninguém faz nada?
O consumo de vídeos de curta duração, de baixa qualidade e com um conteúdo empobrecido, tem causado o chamado brain rot, que, em tradução literal, significa 'apodrecimento cerebral'. Brian hot foi eleita a palavra do ano de 2024 pela Oxford University Press, que significa a exaustão mental da vida moderna. O cérebro se deteriora, e com isso a saúde mental das crianças e adolescentes é prejudicada. Apesar de ainda não haver nenhuma comprovação na estrutura cerebral, os estudos vão avançando nesse sentido. O fato é que alguns sintomas aparecem com frequência. Os mais comuns são o cansaço mental e a dificuldade de concentração, que acabam gerando falta de memória, aumento dos sintomas de ansiedade e depressão, alteração na qualidade do sono, crescimento da irritabilidade; tudo isso resultando em impaciência e, por fim, na falta de criatividade.
Na minha experiência clínica e escolar, com frequência entro em contato com crianças e adolescentes que manifestam total desmotivação e interesse em socializar fora das telas, assim como de ler, brincar ou frequentar a escola. Tudo o que está fora do campo das redes sociais ou jogos eletrônicos causa profundo tédio, e isso pode ser comprovado na pesquisa TIC Kids Online Brasil 2022, cujo resultado aponta que 60% das crianças e adolescentes têm uma conta no Tik Tok, e 35% delas afirmaram que se trata da rede social que mais utilizam.
Outras pesquisas estimam que entre 16% a 19% de crianças e adolescentes relatam impacto negativo no uso excessivo dos dispositivos tecnológicos. Outros 14% sofrem com algum desafio relacionado ao ambiente digital, incluindo o esgotamento. Temos 93% das crianças e dos adolescentes conectados, um número bem significativo, que cria uma geração com adoecimentos consequentes, potenciadores de algo que já poderia fazer parte ou não da constituição psíquica desses sujeitos.
E pasmem! Não há qualquer lei brasileira que regulamente de fato o controle na exibição de vídeos curtos e com conteúdos rasos, os principais responsáveis por esses danos. Há, no entanto, uma tentativa de regulamentação ligada à responsabilidade das plataformas por conteúdo criminoso, os direitos autorais e o combate à desinformação. Recentemente tivemos sancionada a Lei nº 15.211/2025, do ECA Digital - Lei do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente -, que impõe novas obrigações para as plataformas digitais, incluindo redes sociais e aplicativos de vídeo, como controle de idade, proteção de dados, conteúdo nocivo e remoção de conteúdo.
Portanto, o papel da família é fundamental para que esse controle aconteça, tanto durante a infância quanto na adolescência. É recomendado manter contato zero de telas para crianças até os 2 anos, e, no máximo, 1 hora para crianças até os 6 anos. Nessa fase da vida, o ideal é oferecer materiais pouco estruturados - como folhas, galhos, caixas etc. - em vez de somente brinquedos plásticos, que se esgotam rapidamente em seu propósito de prender por mais tempo a atenção das crianças. Essa pode ser uma boa estratégia para manter as crianças envolvidas em algo prazeroso e fora das telas. Além disso, levá-las para ambientes abertos, como parques, praças, praias; até pequenos jardins é um bom programa para desconectá-las da tecnologia e conectá-las com a natureza.
Momentos de ócio são tão importantes para a criança como oferecer leitura de qualidade, pois um leitor se forma desde o berço. É melhor abrir um livro do que uma tela. Para estimular os pais, sugiro a leitura do livro Faça-os ler! Para não criar cretinos digitais, do neurocientista francês Michel Desmurget. O autor defende que o contato com a leitura oferece criatividade, desenvolvimento da linguagem, identificação e saúde mental. Um outro recurso que pode ser utilizado são os chamados aplicativos de controle parental, que podem ajudar na restrição dos acessos a conteúdos e também do tempo que os pequenos dedicam às telas.
Quanto aos adolescentes, esse controle é um grande desafio, pois cortar esse circuito de rápida recompensa ao qual o cérebro se vicia é muito complexo. Então, se faz necessário acompanhamento, muita escuta e boas conversas, para que desenvolvam um olhar de criticidade sobre os efeitos danosos das redes, além de combinados sobre o uso em locais adequados e limitação de horários, Esses acordos devem ser cumpridos com a finalidade de garantir um desenvolvimento socioemocional e cognitivo saudável, pois, os danos para os adolescentes são maiores ainda, por estarem sujeitos a desafios que colocam em risco a própria existência e à comparação com modelos ideais de vida e de corpos perfeitos, o que estimula o consumo exagerado, e o uso desenfreado de pornografia. Além das dificuldades geradas em atividades de longa duração e conteúdos com maior profundidade.
As escolas também entraram nessa batalha contra o uso excessivo de telas amparadas pela Lei que proíbe o uso de celular dentro das instituições educacionais. Mesmo que muitos adolescentes ainda escondam seus aparelhos, a redução já vem mostrando benefícios na interação de crianças e jovens, assim como no aumento dos seus rendimentos escolares. Maior atenção e engajamento nas relações e nas brincadeiras já começam a provocar mudanças nos comportamentos, provando que com pequenas ações a escola e a família podem mudar o panorama do apodrecimento cerebral.
Lembrando sempre que limites não causam traumas e sim dão estrutura ao sujeito. Portanto, não tenha medo de usá-los, pois em tempos de brain rot, impor esses limites é um ato de amor, um gesto de proteção psíquica e social.
Rita Amado é psicóloga clínica e escolar, especialista em educação infantil e desenvolvimento da aprendizagem da Escola Vila Aprendiz, psicopedagoga e neuropsicopedagoga.