Priscila Lapa e Sandro Prado: Violência, política e a batalha pelo controle das redes sociais
O caso do Rio expõe, ainda, a interdependência entre as estruturas do crime organizado, o funcionamento do Estado e o poder da comunicação
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A chacina ocorrida no Rio de Janeiro, que deixou mais de cem mortos, em uma das maiores operações policiais da história recente do país, mostra não apenas a face brutal da violência urbana, mas também o modo como o fenômeno da violência se articula com a comunicação política e com o comportamento digital da nossa sociedade.
O episódio, coberto em grande amplitude pela mídia nacional e internacional, foi acompanhado em tempo real por milhões de pessoas, gerando intensa movimentação nas redes sociais e evidenciando um novo campo de disputa em relação à narrativa sobre o uso da força e a legitimidade do Estado diante do crime organizado.
Blocos
Nas horas seguintes à operação, hashtags favoráveis e contrárias à ação dominaram as plataformas digitais, dividindo o país em dois grandes blocos. De um lado, formou-se uma base de apoio ao governador Castro, que, ao adotar uma retórica de guerra ao tráfico, ampliou sua visibilidade e seu capital político, em pouco tempo, mais de meio milhão de pessoas passaram a segui-lo nas redes sociais.
De outro, surgiram críticas que questionaram a legalidade e a moralidade da operação, apontando possíveis abusos e violações de direitos humanos. Essa polarização evidencia como a violência, quando disseminada pelos meios digitais, deixa de ser um fenômeno circunscrito à segurança pública, para se transformar em um fenômeno comunicacional e político, capaz de redefinir percepções, fidelidades e disputas eleitorais.
Bolhas
A comunicação política tem mostrado como episódios de violência urbana produzem picos de engajamento, reforçam bolhas ideológicas e aceleram processos de identificação política. As plataformas se tornam locais onde cidadãos, influenciadores, agentes públicos e veículos de imprensa competem para impor suas versões dos fatos.
É possível afirmar que a retórica da segurança e o discurso punitivista encontram forte ressonância nas redes, especialmente entre segmentos da população expostos a narrativas que associam o combate ao crime à restauração da ordem.
Afinal, quem não se recorda do fenômeno Enéas, do PRONA (Partido da Restauração da Ordem Nacional), que, em berros, afirmava que a restauração da ordem passaria por discursos duros e ações de embate com espetáculos dantescos de força policial? Essa dinâmica contribui para o surgimento de lideranças políticas populistas de direita que exploram a insegurança social como estratégia de mobilização afetiva e eleitoral.
Ambiguidade
Os meios de comunicação tradicionais, por sua vez, desempenham papel ambíguo. De um lado, cumprem a função de informar e fiscalizar, revelando o impacto social e humano da operação; de outro, ao repercutirem imagens de confrontos e declarações oficiais sem o devido contexto, acabam por reforçar a estética da violência e o discurso do heroísmo policial.
A cobertura internacional, observada em veículos como The New York Times e Clarín, destacou a gravidade do episódio e a escalada de letalidade nas periferias brasileiras, situando o caso do Rio de Janeiro dentro de uma lógica mais ampla de militarização das políticas de segurança na América Latina.
Esse olhar externo ajuda a compreender que o problema não é apenas local, mas parte de uma tendência regional em que a violência urbana se converte em instrumento de legitimação política.
Respostas instantâneas
O comportamento digital dos cidadãos diante da chacina revela a crescente fusão entre emoção, opinião e ação política. A velocidade com que os conteúdos são compartilhados e as narrativas se consolidam reduz o espaço para a reflexão crítica e amplia a força das respostas instantâneas. Nesse ambiente, algoritmos privilegiam o engajamento, e o engajamento tende a favorecer conteúdos polarizadores e, assim, a sociedade se divide, uma vez mais.
Dessa forma, o debate público é moldado por reações emocionais e por enquadramentos comunicacionais que transformam tragédias em ringues de disputa moral. O monitoramento desse comportamento digital torna-se uma necessidade, pois indica de que maneira as percepções coletivas são formadas e manipuladas em contextos de crise.
Interdependência
O caso do Rio expõe, ainda, a interdependência entre as estruturas do crime organizado, o funcionamento do Estado e o poder da comunicação. A operação, ao mesmo tempo em que mostrou a força operacional do aparato policial, evidenciou a fragilidade das políticas de prevenção, inclusão social e reconstrução do tecido urbano.
A resposta do governo, amplamente divulgada nas redes, foi marcada por uma lógica performática e deplorável: a de transformar o uso da força em ato de governo e o confronto em narrativa política. Esse movimento, amplificado pelas plataformas digitais, tende a produzir dividendos políticos de curto prazo para Castro e outras figuras políticas populistas do campo da direita, mas aprofunda a naturalização da violência e o descrédito nas instituições democráticas.
Discurso
Ao observar o comportamento digital e o discurso político que se consolidou após a chacina, percebe-se que a violência urbana no Brasil ultrapassou o campo da segurança pública. Ela se tornou um elemento estruturante da comunicação política, um recurso discursivo capaz de redefinir identidades e orientar o comportamento eleitoral.
O que está em jogo não é apenas a forma como o Estado reage ao crime, mas como essa reação é traduzida, compartilhada e consumida simbolicamente pelas redes e pelos meios de comunicação. A violência acaba por se tornar uma linguagem que comunica poder, autoridade e medo.
A análise do episódio do Rio de Janeiro nos mostra que compreender a violência contemporânea exige ir além das estatísticas e das operações policiais. É preciso olhar para os fluxos de informação, para as dinâmicas de engajamento digital e para as formas como o discurso político se apropria da dor coletiva para reforçar projetos de poder.
As redes não apenas reproduzem a violência, elas moldam o imaginário do cidadão sobre o que é justiça, ordem e cidadania. É nesse cruzamento entre política, comunicação e violência que o Brasil revela um novo país, em que as guerras travadas nas ruas, favelas e vielas continuam, com intensidade crescente e preocupante, nas telas, que poderiam servir à reflexão e à crítica, mas se tornaram palco da superficialidade e da manipulação emocional.
Priscila Lapa, jornalista e doutora em Ciência Política; Sandro Prado, economista e professor da FCAP-UPE.
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