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"Nada de novo no front"

A manhã era de vento forte e Pessoa, para a minha surpresa, decidiu tirar o chapéu da cabeça. Esse gesto fez com que ele ganhasse a minha simpatia

Por DAYSE DE VASCONCELOS MAYER Publicado em 03/11/2025 às 5:00

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"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Foi esse o verso que me fez lançar um repto a Fernando Pessoa: Poeta, aceitas um passeio comigo? Com o sim peremptório, saímos em direção ao centro do Recife. Já na Praça da República, apontei para algumas crianças, livres e soltas, na calçada da Caixa Econômica. Um número bem maior iríamos localizar na rua do Imperador em frente ao Palácio da Justiça. A quantidade aumentava sempre. Vês o Convento e a Igreja de Santo Antônio - que abriga a Capela Dourada e a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco? É muito cedo, mas os “putos” já estão saboreando o almoço, indiferentes aos ponteiros do relógio. Não fiques surpreso. A máquina do tempo inexiste para os pobres. Serve apenas para cronometrar as esperanças que não se materializam. Todavia, tem a vantagem de lembrar a frase de Hélio Pelegrino: “recuperação da dimensão orgiástica” no sentido de resgate da liberdade ou do raro prazer de existir sem barreiras, restrições e limites impostos pela sociedade.

A manhã era de vento forte e Pessoa, para a minha surpresa, decidiu tirar o chapéu da cabeça. Esse gesto fez com que ele ganhasse a minha simpatia. Enfim, a imagem icônica do poeta que não prescindia do chapéu, dos óculos e do bigode, havia evanescido. Pensei em documentar aquele momento, mas tive receio. Percebi que os cabelos de Pessoa, com a refega, foram levantados em cachos que deslizavam pela testa onde caíam gotículas de suor. Olhes lá em frente – digo eu. Estás a ver dois miúdos nus andando de gatinhas? Essa observação constrangeu Pessoa. Afinal, o português é demasiado pudico ou casto, qualidade que sempre me encantou no homem. Mas a razão poderia ser outra. “Fatti gli affari tuoi e campi cent’anni” (meta-se com os seus assuntos e completarás 100 anos).

Mudo o tom e o tema da conversa: recordas a tela de Eliseu Visconti: “menina com ventarola”? É o retrato de uma garota desnuda. Percebendo que o semblante de Pessoa continuava austero, comentei: “Não te inquietes tanto, poeta, “é desdentado o lobo que uiva lá fora pela nossa carne”. Estás a perceber que não somos lobos? O olhar gélido do poeta me inquietou e a frase explodiu: o dia mais inútil da tua vida é aquele em que não esboças um sorriso. Como se estivesse lendo meus pensamentos, ele sorriu timidamente.

Em seguida, voltou a colocar o chapéu como se estivesse tão desnudo quanto os miúdos que voltejavam na calçada. Ele agora observa vigilante as mulheres que cavaqueiam alegres, indiferentes às coisas que nos afligem. Confirmam o provérbio japonês: o sapo que está dentro do poço não conhece a grandeza do oceano. Repentinamente, Pessoa revela interesse em palrar com as mulheres e eu estaciono o carro.

A pergunta me surpreende: Tens recebido ajuda mensal do Governo? Escuto um sim seguido de um refilar sobre o valor irrisório do pagamento. Segue-se outra inquirição: sabes dizer onde estão os José da feira e os João da construção? Elas respondem que eles trocaram o “domingo no parque” pela água-benta ou bagaceira. Esclareço, sem sincronia temporal, que há prédios construídos em zonas nobres do Recife com empregadas bem fardadas e treinadas. Nenhuma delas deseja carteira assinada para não perderem as benesses do Governo. Mas li, esta semana, que 2 milhões de pessoas deixaram o Bolsa Família para viver do seu trabalho, que o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome e que tivemos a menor mortalidade infantil da história. Essas notícias alvissareiras estão registradas na última revista Piauí. Estamos pertinho das eleições.

Teço comentários sobre o desperdício de dinheiro público no Brasil e falo dos juros de 15%; do pagamento de emendas que não são emendas porque nada regeneram, erradicam ou corrigem; da política do “toma lá e dá cá”; da penúria de lideranças políticas jovens; do voto que pode converter o ladrão em político” (Gustavo Krause); do investimento de 379,8 milhões de reais da Secretaria de Comunicação Social para diversificação da mídia e conquista de mentes e corações durante a batalha eleitoral.

Em sussurros, esclareço ao poeta que os três Poderes deveriam aplicar verbas públicas como se adquirissem armas para destruição de um inimigo poderoso - a ignorância. Indago se já inventaram as cotas em Portugal? Por aqui há cotas para tudo, até mesmo para a abertura de uma Faculdade de Medicina para os sem-terra. Os pobres, no futuro, terão médicos compatíveis. Retorno à conversa anterior: o Executivo poderia aproveitar a vocação daqueles que desejam realmente ensinar. Afinal, a maioria dos nossos docentes optam pelo magistério porque não há outras alternativas. Pagar salários de acordo com a competência dos professores, construir escolas com dois turnos; prover alimentação digna para as crianças carentes são decisões impreteríveis. .E, antes que me soprassem que eu não deveria falar que “os traficantes são vítimas dos usuários de drogas” revelo o meu sorriso à Leonardo da Vinci.

Pessoa permanece silente, mesmo quando eu sugiro a supressão da frota de carros dos três Poderes e a redução do número de assessores - especialmente do Legislativo; o extermínio das rachadinhas no Legislativo estadual e federal. Assevero que o Brasil está a viver como os ricos em fase de declínio ou falência: todas as reservas econômicas são destinadas ao pagamento da fatura do cartão de crédito e dos juros acumulados.
De súbito, o poeta diz “adeus” aproximando a boca das costas da minha mão direita e sobrestando antes de tocá-la. Decido, então, esquecer, temporariamente, a pobreza porque a vida tem seus antônimos. Lembro o livro publicado pelo antropólogo Michel Alcoforado - “Coisa de ricos: A vida dos endinheirados brasileiros”. Conta-se – e nunca se sabe se é verdade – que no lançamento tinha gente pendurada em árvore. O livro converteu o autor em “um antropólogo de luxo”.

O êxito, penso, talvez se deva à capacidade do escritor de fazer concessões: escrita na configuração de bisbilhotice, capacidade de fustigar a vaidade dos acadêmicos; a customização do conteúdo ao gosto do consumidor literário. Graças ao estatuto que alcançou, Alcoforado pode conceder entrevistas no “Les Deux Magots”, café parisiense onde se reuniam, entre outros, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Pablo Picasso e Ernest Hemingway.

Durante a entrevista concedida a Angela Klinke, em 10.10.25 (À Mesa com Valor). Alcoforado exibiu refinamento e elegância. Entre um leve mordiscar do croissant ou da minibaguete servida com geleia e manteiga da região de Charentes-Poitou, o escritor teceu comentários sobre a sua vida, a obra que publicou e o êxito alcançado. Enfim, o livro é uma investigação da vida secreta das elites, algo semelhante ao “romance de Agatha Christie em que todos são suspeitos de terem mais dinheiro do que revelam”.

Sinto-me, repentinamente, macambúzia. Afinal, ninguém deseja escutar a minha indignação: “É preciso fazer acontecer alguma coisa”! Lillian Hellman responderia com o título do seu livro: “Talvez”...modalidade de reversão de circunstâncias presentes nas tragédias gregas – a “peripécia” - instante em que o protagonista percebe que tudo está errado, mas a infelicidade pode se converter, repentinamente, em alegria e vice-versa. Enfim, a vida é um eterno jogo de dúvidas, desequilíbrios e incoerências. É preciso acreditar que o advérbio de dúvida tem o poder de capturar a esperança e transformar o presente em algo melhor. Por enquanto, a frase é mesmo de Erich Maria Remarque: “nada de novo no front”..

Dayse de Vasconcelos Mayer é doutora em ciências jurídico-políticas

 

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