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Adriano Oliveira: A ilusão e Tarcísio de Freitas

O governador de São Paulo será, segundo a ilusão da direita, o herdeiro natural dos votos do bolsonarismo

Por ADRIANO OLIVEIRA Publicado em 30/08/2025 às 19:10

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O futuro de uma ilusão de Sigmund Freud e O que é identitarismo de Douglas Barros são duas obras fantásticas que têm a ilusão como pauta. Para ambos, a ilusão deve ser entendida como propulsora da ação contínua, mas que não necessariamente o objetivo definido será conquistado em razão dela. O indivíduo pode até acreditar que alcançou os propósitos, mas, no final, caso ele exista, é tudo ilusão.

Freud aborda a religião como propulsora da ilusão. Barros acredita que a construção das identidades são frutos da ilusão. A leitura de ambas as obras me fazem lembrar da direita brasileira e em especial de Tarcísio de Freitas. Ambos sofrem de profunda ilusão e acreditam que estão conquistando os objetivos definidos.

O que Tarcísio e a direita desejam? Vencer a eleição presidencial de 2026. O governador de São Paulo será, segundo a ilusão da direita, o herdeiro natural dos votos do bolsonarismo. Como o governo Lula chegará enfraquecido, e não o bolsonarismo, Tarcísio de Freitas será eleito presidente da República. Tal premissa sofre de excesso de ilusão não notada em razão de carecer de evidências. O grande erro dos bons políticos é desprezar as evidências.

Para que Tarcísio de Freitas seja candidato a presidente da República, ele precisará renunciar à reeleição. Se isto acontecer, o PT adquire condições de conquistar o governo paulista e, também, a presidência da República. Imagine se isto ocorrer! E não me diga que é uma ilusão. É provável.

Lembrem que Tarcísio de Freitas comemorou a eleição de Donald Trump. Certamente, a sabedoria do governador de São Paulo não o fez enxergar que o trumpismo é semelhante ao bolsonarismo, isto é: eles são demasiadamente inquietos e são produtos de crises. O bolsonarismo trouxe Trump para a campanha brasileira e consolidou as chances da reeleição de Lula. Como Tarcísio explicará Trump e Jair Bolsonaro numa campanha presidencial?

Tarcísio de Freitas é candidato competitivo à presidência da República? Será, se Jair Bolsonaro apoiá-lo ou ele desbolsonarizar o seu discurso. Mas não vejo sabedoria ao governador de São Paulo para a segunda escolha. O ex-presidente apoiará Tarcísio sem pedir nada em troca? Não. Portanto, Tarcísio terá que assumir que defenderá a anistia e o indulto de Bolsonaro caso seja eleito. Pesquisas revelam que parcela majoritária da população não apoia esses dois pontos. Portanto, o governador de São Paulo perderá votos. Lembro que há muito tempo frisei que a melhor estratégia para Tarcísio era abandonar o bolsonarismo.

Se Tarcísio de Freitas for candidato a presidente da República, a família Bolsonaro renunciará a, no mínimo, 20% de votos. Em troca de quê, Bolsonaro deve renunciar ao seu capital eleitoral? Ora, se Tarcísio for eleito presidente, o bolsonarismo poderá seguir murchando, pois ninguém desejará ressuscitá-lo. Portanto, Jair Bolsonaro confiará no governador de São Paulo? Entre Michele Bolsonaro e Tarcísio, em quem Bolsonaro deve confiar?

Por outro lado, alguém dirá: Tarcísio de Freitas será candidato, independente de Bolsonaro. Excelente escolha, mas Tarcísio tem enorme dificuldade de caminhar sem o ex-presidente. Ele fala em gratidão. Mas será só isto? E mais: Se o político paulista for candidato sem o bolsonarismo, a direita terá vários competidores, e o excesso deles favorece a reeleição de Lula. Portanto, a candidatura de Tarcísio é produto da ilusão da direita que segue perdendo tempo ao insistir no bolsonarismo. O fim poderá ser trágico para ela, qual seja: novo sucesso eleitoral do Lula.

Por Adriano Oliveira – Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa qualitativa & Estratégia

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