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O trem Sonho Azul que ligava Recife a Fortaleza

Quem viaja de avião ou ônibus para outros estados do Brasil provavelmente nunca parou para pensar em como seria fazer longas viagens de trem

Por JOÃO ALBERTO MARTINS SOBRAL Publicado em 29/08/2025 às 0:00 | Atualizado em 29/08/2025 às 10:04

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O que hoje parece distante da realidade brasileira era habitual no meio do século passado. Na década de 1970, destacou-se a linha Expresso Asa Branca, que conectava Fortaleza a Recife, em homenagem ao rei do forró. No entanto, o que tornou essa linha histórica foi a inauguração do trem Sonho Azul, em 1975, que percorreu esse trajeto com um diferencial: sua estrutura luxuosa. Realizava uma viagem semanal entre as duas capitais. Justificando sua denominação, os vagões eram pintados de azul royal. Para suportar as longas horas de viagem, havia uma infraestrutura completa, incluindo poltronas reclináveis e acolchoadas, ar-condicionado, sistema de som, banheiros e outros confortos, exceto as cabines-leitos, que são bastante utilizadas nos trens da Europa. Havia um vagão-restaurante, com serviço de garçons e um cardápio requintado.

Fui um dos convidados para a viagem inaugural, que acabou sendo um desastre. O ar-condicionado quebrou logo no começo, e o calor ficou insuportável. Em Gravatá, foi informado que a viagem prosseguiria no calor, e o conserto só seria realizado em Fortaleza. Desci junto com a maioria dos convidados. Um dos convidados solicitou que seu carro fosse trazido do Recife para nos transportar de volta, após muito esforço para conseguir realizar uma ligação telefônica, em uma época em que o celular ainda era apenas um sonho. As passagens no trem eram caras e cobradas por trechos, que eram muitos no roteiro. O Sonho Azul se tornou extremamente deficitário após apenas dois anos de operação. Nem mesmo a disponibilização de vagões para o transporte de cargas reduz o prejuízo.

O Sonho Azul era um trem caro, tanto em manutenção quanto em operação, devido às vantagens proporcionadas durante a viagem. Como resultado, os passageiros também enfrentavam altos custos, na compra das passagens. As viagens eram custeadas por trechos, e a guerra entre árabes e israelenses teve um impacto direto no fornecimento de combustível. As locomotivas eram abastecidas principalmente pelas reservas de petróleo da Arábia. Por esse motivo, o Sonho Azul circulou por cerca de dois anos apenas.

A extinção das linhas de trem de longa distância, em razão dos altos custos, não ocorreu apenas em Fortaleza. "No Brasil, os custos de manutenção e operação dos trens eram bastante elevados, e a Rede Ferroviária do Nordeste considerava os trens de carga mais lucrativos do que os de passageiros." No Ceará, ela cobria pelo menos 70% dos custos, uma vez que as passagens eram baratas e não eram suficientes para cobrir as despesas. Ademais, segundo o pesquisador, "não houve modernização dos cargos, tornando o trem obsoleto e perigoso". Em 1988, descontinuaram totalmente as operações dos trens de longa distância.

Tive a chance de recordar o Sonho Azul alguns anos depois. Fui convidado por um casal amigo para jantar no "Le Train Bleu" ("O Trem Azul"), um sofisticado restaurante localizado na Gare de Lyon, em Paris. Um lugar incrível, inaugurado em 1900 com a finalidade de proporcionar uma experiência gastronômica luxuosa para os viajantes que passavam por ali. Afinal, é dessa estação que partem os trens para outras cidades francesas.

O sonho da volta de um trem assim está totalmente fora da realidade. Mesmo a Transnordestina, quando estiver pronta, não tem previsão de ter no seu roteiro trens de passageiros, apenas de carga. Quem sonha em fazer passeios de trem no Brasil, tem que ir ao Rio Grande do Sul, Paraná ou São Paulo, onde ainda existem trens de passageiros, mas apenas em roteiros turísticos.

 

João Alberto Martins Sobral, editor da coluna João Alberto no Social 1

 

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