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Conversas de 1/2 minuto ( 45) e Jaguar

Jaguar deixou escrito quais eram suas últimas vontades. E tudo (muito) natural. "Já que a minha vida é uma bagunça sem remédio"..............

Por JOSÉ PAULO CAVALCANTI FILHOjp@jpc.com.br Publicado em 29/08/2025 às 0:00 | Atualizado em 29/08/2025 às 10:04

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ADVOGADOS (Final). Agora, o complemento da coluna anterior. Dedicada, em seu mês, aos advogados, em livro que estou escrevendo (título da coluna). Antes, bom lembrar como tudo começou: “Lei de 11 de agosto de 1827. Dom Pedro Primeiro por graça de Deos e unanime Acclamão dos povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpetuo do Brasil fazemos saber a todos os nossos Sudditos que a Assembleia Geral Decretou e Nós Queremos a Lei seguinte: Art. 1. Crear-se-hão dous Cursos de Sciencias Juridicas e Sociais, hum na Cidade de S.paulo e outro na de Olinda, e nelles no espaço de cinco anos e em nome Cadeiras, se ensinarão as matérias seguinte:... Dada no Palacio do Rio de Janeiro aos onze dias do mez de Agosto de mil oitocentos e vinte-sete. Sexto da Independecia e do Imperio”. Pois é, foi assim. E vamos logo às conversas:

MARCELO NAVARRO RIBEIRO DANTAS, ministro do STJ. Cerimônia de entrega do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, em que fui um dos seis membros. Marcelo disse, de minha gravata,

– É a mais bonita que já vi.

Entreguei, na hora. E ele

– Vou guardar para usar em sua posse na Academia Brasileira de Letras.

E usou mesmo (em 2022), oito anos depois, trata-se de um vidente.

* * *
O barzinho que frequenta, na Praia de Pirangi (RN), tem nome curioso (mandou foto), Comeu Morreu bar, lanchonete e bodega. Nele, esta placa (outra foto)


Pão na chapa:
Com manteiga, 2,50.
Com margarina, 2,00.
Sem manteiga, 1,50.
Sem margarina, 1,00.
* * *
Também mandou foto de cartaz em outro bar, daquela mesma praia, que dizia num português castiço

Horário:
Abrimos quando chegarmos
Fechamos quando sairmos
Se vier e não estivermos
É porque não chegamos ou já saímos.

* * *
Outra de barraca por ele vista, em suas andanças matinais na praia,

Horário de funcionamento:
Nós abrimos às 8:00h ou 9:00h, às vezes às 10:00h.
Fechamos às 18:00 ou 19:00, às vezes às 20:00h.
Às vezes, nem abrimos!

* * *
E mais uma, de certo Bar Cu do Mundo. Perguntei se ficava na sua terra e respondeu, como poeta,

Se for, erraram no título, que deveria ser Barco do Mundo.

* * *
Ao pensar nas dores da alma, escreveu


– Amargura?
Amar cura.
Solidariedade?
Só lhe dar a idade.
Morri?
Amar, ri.
Sentimento?
Sem ti minto.
Jamais?
Já, mas...

RAMADA CURTO, advogado e dramaturgo. Na Primeira República, deputado e ministro das Finanças. Em Portugal, esteve presente nos mais célebres processos-crime de seu tempo. Neste caso um cliente havia dito ser, o autor da ação, um filho da puta. E Ramada começou a fala chamando atenção para o fato de que, muitas vezes, utilizamos essa expressão como se fosse um elogio

Ganda filho da puta, és o melhor de todos!

Dá cá um abraço, meu grande filho da puta!

E concluiu suas alegações dizendo, ao juiz do feito,

Até aposto que, neste momento, V.Exa. está a pensar o seguinte: vejam algo que este filho da puta não se havia de ter lembrado, só para safar o seu cliente!

Na hora de ler a sentença o juiz, olhando para o réu

O senhor está absolvido, mas bem pode agradecer ao filho da puta do seu advogado.

ROBERTO ROSAS, advogado. Lembrou que perguntaram ao Ministro Orozimbo Nonato, do Supremo,

– O senhor foi juiz?

– Fui.

– E quando largou o apito?

RUI BARBOSA, advogado e homem público. Ruy usava um tipo de óculos diferente, sem hastes, pendurado no nariz. E, com esses óculos, também marcava a páginas dos livros que estava lendo. Com frequência, fechava o dito livro e lá se perdia mais um. No inventário de sua biblioteca, depois de sua morte, acharam mais de 40. Certa vez aquele homem culto, fundador (em 1897) da Academia Brasileira de Letras e seu Presidente (em 1908/19, até ser sucedido por Carlos de Laet), considerado Águia de Haia na II Conferência da Paz (1907), por não encontrar os ditos óculos, perguntou à gorda cozinheira que estava no ponto

Que ônibus é esse?

E ela, olhando aquele velhinho com dó,

O senhor me desculpe mas eu também sou analfabeta.

* * *

A única gravação que se tem, com sua voz, é homenagens à mulher. Trecho

A mulher foi, tem sido e será sempre, um bálsamo para todas as feridas do coração. Um raio de sol que nos alumia, nas trevas cerradas de uma existência atribulada. A estrela que nos aponta para o Norte, nesta pedregosa senda da vida. Enfim, o consolo para todos os desalentos, o alívio para todas as dores, a mão que nos sustenta quando, já exaustos, corremos a precipitar-nos no abismo da morte ou da degradação moral.

No Senado, ante críticas feitas por um partidário do presidente Hermes da Fonseca que o acusava de ser velho, respondeu

Que nada, tenho ainda muita força.

O que levou seus inimigos a distribuir, pelas ruas do Rio, maldosa quadrinha implicando a mulher de Ruy

Ao ouvir-lhe a gabolice
Maria Augusta se abrasa
Se tem tanta quanto disse
Por que não gasta em casa?

SIGMARINGA SEIXAS, advogado e homem público. Redigi, para o governo (FHC), o Decreto 3.551 (publicado em 4 de agosto de 2000); que, atendendo recomendação da UNESCO (1985), instituiu o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial. Até ganhei da UNESCO uma comenda, por isso. E decidimos comemorar no primeiro desses patrimônios escolhidos, um Quarup ritual, em homenagem aos mortos ilustres, celebrado pelos povos indígenas do alto Xingu. Na hora da viagem houve imprevisto e não pude ir. Na volta, Sig disse como foi

Durante o dia, mil mosquitos em nossa volta. E, de noite, dois mil. Não dava nem para respirar. Você foi sábio, ao correr de lá.


SOBRAL PINTO, advogado. Miguel Arraes (governador de Pernambuco) estava em Fernando de Noronha, preso. Sobral requereu Habeas Corpus para ele negado, claro, pela justiça da Ditadura. José Almino (da Casa Rui Barbosa), filho mais velho, perguntou quanto seriam seus honorários e Sobral

Nada, não recebo dinheiro de comunista.

SYLENO RIBEIRO, advogado. Dayse de Vasconcelos Mayer, amiga antiga, indo ensinar Direito em Portugal o procura e diz

Vim me despedir, Syleno, por ter certeza de que vou morrer muito cedo.

E ele, famoso por sua sinceridade absoluta,

E não acha muito tarde para morrer cedo?

* * *
SAUDADES DO AMIGO JAGUAR. Luiz Gravatá mandou, no zap, um desenho do ratinho Sig (criação do cartunista) chorando. Foi a senha. Mais um entre tantas mortes de amigos queridos. Mais uma. Lembrei de Pessoa (Passos da cruz),

“Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Num crepúsculo de espadas.
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas...

Todas essas perdas entre tantas bandeiras desfraldadas do passado. E como despedida lembro, triste, duas historinhas (entre muitas) dele de que fui testemunha:

1. Indo para Petrópolis, na frente do carro, Jaguar. Atrás, no meio, Nássara. Gênio. E surdo. Faziam as perguntas, Jaguar escrevia num caderno, mostrava e ele ia respondendo. Falou quase duas horas, sem parar. Já chegando, Jaguar arrancou do caderno as folhas com perguntas, fez um bolo, abriu a janela e disse

Isso é que eu chamo jogar conversa fora.

E jogou mesmo.

* * *
2. Na Lagoa Azul, fiz as apresentações. Ele

– Muito prazer, dona Lectícia. Por falar nisso e o Thomas?

– Thomas? Que Thomas?

– Eu tomo o que tiver, mas prefiro cachaça.

Previdente, Jaguar deixou escrito quais eram suas últimas vontades. E tudo (muito) natural. “Já que a minha vida é uma bagunça sem remédio, pelo menos resolvi planejar direito a minha morte. Para começar, decidi ser cremado e que as cinzas sejam espalhadas pelos bares que bebi. Vai faltar cinza, foi o comentário de Chico OPF. Se acharem que é muito bar para pouca cinza, basta incinerar um pangaré velho para inteirar”. Viva Jaguar!!!

José Paulo Cavalcanti Filho, advogado

 

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