Compromisso ético com o passado
No Brasil, 19 de agosto celebra o Dia da Historiadora e do Historiador. A data é mais que uma homenagem de calendário .........................
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Ela recorda que pensar história é, antes de tudo, falar do presente e disputar sentidos sobre o que vivemos. Em um ambiente saturado por versões apressadas, boatos virais e revisionismos convenientes, o trabalho histórico permanece como uma das principais ferramentas contra a desinformação. Para cumprir esse papel, não basta alinhavar fatos. É preciso método, paciência com as fontes e um compromisso ético com as vidas e as violências que o passado carrega até nós.
A trajetória de Lucie Varga ajuda a dar contorno a essa exigência. Austríaca, judia, radicada na França em meio ao endurecimento do nazismo, Varga escreveu em 1937 dois ensaios luminosos que só recentemente chegaram ao público brasileiro. Seu apagamento por décadas não foi acidente, mas efeito de estruturas que conhecemos bem: as vozes silenciadas por um universo predominantemente masculino. Resgatar sua obra é mais do que reparar uma injustiça. É recuperar instrumentos intelectuais para pensar o agora com um olhar mais fino.
Entre os textos reunidos em Lucie Varga: entre as mentalidades e o tempo presente (FGV, 2024), organizado por Celso Castro e por mim, destaco "A gênese do nacional-socialismo", publicado originalmente em 1937. Ali, Varga pergunta se a história poderia ser observada "ao vivo", com o historiador em campo, colhendo documentos e escutando práticas no calor dos acontecimentos. Sua resposta é afirmativa e corajosa. A história não é apenas arquivo, registro encerrado em si, mas também presença e escuta. O passado se deixa compreender quando nos dispomos a examinar, com rigor, os mecanismos que organizam crenças e comportamentos no tempo em que vivemos.
Para escrever sobre a expansão do nacional-socialismo, Varga deixou a segurança da França e foi à Alemanha. Em um território cada vez mais hostil à sua própria existência, frequentou arquivos, analisou fichas de filiação, organizou dossiês, observou sociabilidades em clubes e associações. O que emergiu desse mergulho foi o mapa de um processo que não se explicava por decretos isolados. Havia uma engenharia afetiva que convertia humilhações difusas em promessa de pertença. Havia dualismos morais que simplificavam o mundo e reorganizavam lealdades: amigo ou inimigo, camarada ou adversário, força ou fraqueza, caçador ou caça. Ao identificar essas gramáticas do pertencimento, Varga mostrou que regimes autoritários prosperam quando oferecem explicações totais para medos complexos.
O ensaio também é valioso pelo método. Em outro estudo, Varga toma de empréstimo à etnografia duas precauções simples e poderosas. A primeira diz que nada é tão "natural" a ponto de dispensar descrição. A segunda recomenda resistir à tentação de substituir, sem exame, as categorias dos sujeitos investigados por nossas categorias atuais. Essas duas atitudes evitam anacronismos, erro frequente em tempos de respostas fáceis. Para quem deseja que a história funcione como antídoto à desinformação, o lembrete é direto: situar as palavras, reconstruir contextos, comparar fontes, reconhecer silêncios.
Pensar história, portanto, não equivale a apaziguar conflitos com cronologias elegantes. Ao contrário, implica admitir que a memória pública é terreno em disputa e que o trabalho do historiador consiste em tornar mais nítidos os fios e as escolhas que nos trouxeram até aqui. Implica, ainda, reconhecer os silêncios de classe, gênero, raça e território, e não reproduzi-los. O compromisso ético com o passado começa na recusa de respostas vingativas e progride quando assumimos a dúvida metódica como regra de trabalho.
No Brasil de 2025, esse compromisso se traduz em tarefas concretas. Proteger arquivos e bibliotecas, garantir políticas de preservação e acesso, financiar pesquisa e ensino de história desde a educação básica até a pós-graduação. Valorizar a produção historiográfica local, das histórias indígenas e afro-brasileiras aos estudos do trabalho, da cidade e das periferias, porque é nelas que a sociedade encontra espelhos menos distorcidos de si mesma. E, sobretudo, cultivar no cotidiano um modo histórico de pensar: perguntar de onde vêm as informações, ler as notas de rodapé, estranhar o que parece óbvio, buscar o texto e o contexto que dá sentido aos dados.
Celebrar o 19 de agosto não é apenas felicitar profissionais. É reafirmar um pacto democrático: a convivência precisa de memória honesta e de crítica informada. Ao recolocar Lucie Varga no centro de uma conversa que ainda nos interpela, reconhecemos a força de sua inteligência e a atualidade de seu método. A pergunta que ela formulou continua válida: podemos observar a história enquanto ela acontece? A resposta depende de nós. Depende do cuidado que dedicamos às fontes, da coragem de encarar os conflitos do presente e da ética que sustenta o nosso ofício. Quando esse compromisso orienta a prática, a história se converte, de fato, em uma linguagem comum contra a desinformação e em favor da vida democrática.
Dirceu Marroquim, doutor em História Social pela USP e Sócio do IAHGP.