Fibromialgia atinge 4 milhões de brasileiros: entenda por que mulheres são as mais afetadas
Além da dor, a condição é marcada por fadiga e "névoa cerebral"; diagnóstico exige avaliação multidisciplinar para diferenciar de outras patologias
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A fibromialgia é uma condição clínica complexa que desafia pacientes e médicos devido à sua natureza "invisível". Caracterizada por dor muscular generalizada e crônica, a síndrome afeta entre 2% e 4% da população mundial.
No Brasil, o Ministério da Saúde estima que a doença atinja cerca de 2% dos brasileiros, aproximadamente 4 milhões de pessoas. Apesar da alta prevalência, o caminho até o diagnóstico correto ainda é marcado por desinformação e estigma.
A fibromialgia não possui uma causa única. Trata-se de uma alteração no processamento central da dor, onde o sistema nervoso do paciente interpreta estímulos de forma amplificada.
Predominância feminina: hormônios e genética
Um dos aspectos mais marcantes da fibromialgia é o recorte de gênero. Estima-se que entre 80% e 90% dos diagnósticos ocorram em mulheres, especialmente na faixa etária entre os 30 e 50 anos. Essa disparidade não é meramente estatística, mas baseada em fatores biológicos e psicossociais.
O neurocirurgião Marcelo Valadares, pesquisador da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que a ciência ainda busca respostas definitivas, mas já aponta caminhos claros.
“Embora a ciência ainda explore o assunto, acredita-se que as mulheres estejam mais suscetíveis à fibromialgia. Entre as possíveis explicações para isso estão as flutuações hormonais, que desempenham papel na sensibilidade à dor na regulação do sistema nervoso; fatores genéticos; ou fatores psicossociais, como estresse crônico, condições de saúde mental como ansiedade e depressão", explica.
"Além disto, em relação ao sistema nervoso central, também podemos ressaltar que as mulheres tendem a produzir níveis menores de serotonina, um neurotransmissor associado à sensibilidade à dor”, afirma o especialista.
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Além da dor
É um erro comum acreditar que a fibromialgia se resume à dor no corpo. A condição é uma síndrome que engloba uma série de manifestações que comprometem severamente a qualidade de vida e a produtividade do indivíduo.
Entre os sintomas mais relatados, destacam-se:
- Fadiga extrema, cansaço que não melhora com o repouso;
- Distúrbios do sono, o paciente acorda com a sensação de que não descansou (sono não reparador);
- "Névoa cerebral", dificuldade de concentração, lapsos de memória e lentidão cognitiva;
- Rigidez muscular, sensação de corpo "travado", especialmente ao acordar;
- Alterações de humor, forte associação com quadros de ansiedade e depressão.
“A fibromialgia pode se manifestar de maneira diferente em cada pessoa. Enquanto algumas pessoas podem experimentar dor intensa em todo o corpo, outras podem ter dor localizada em áreas específicas. Além disso, os sintomas podem variar em gravidade. O tratamento personalizado e multidisciplinar é essencial para lidar com essa variedade de sintomas”, esclarece Valadares.
Mitos e desafios do diagnóstico
Por não apresentar alterações em exames de imagem (como ressonância) ou de sangue, o diagnóstico da fibromialgia é estritamente clínico. Isso frequentemente leva a equívocos, com a condição sendo confundida com tendinites, artrite reumatoide ou até esclerose múltipla.
Outro ponto de atenção é que, embora seja mais comum em adultos, a fibromialgia também pode afetar adolescentes e crianças.
Nesses casos, o diagnóstico é ainda mais complexo, pois os jovens muitas vezes têm dificuldade em descrever a natureza da dor e o impacto da fadiga em suas rotinas escolares.
É fundamental destacar que a causa não é puramente psicológica. Embora o estresse possa agravar as crises, a doença tem bases neurobiológicas concretas na forma como o cérebro processa os sinais dolorosos.
Tratamento multidisciplinar é o padrão-ouro
Atualmente, não existe cura definitiva para a fibromialgia, mas o controle dos sintomas permite que o paciente leve uma vida normal. O protocolo recomendado por órgãos oficiais e especialistas descarta o uso exclusivo de medicamentos. O foco deve ser a melhora da funcionalidade.
O médico Marcelo Valadares defende que a abordagem deve ser ampla.
“Além dos fármacos para alívio da dor, é necessário incluir tratamentos como fisioterapia, a inclusão de exercícios físicos na rotina, como o pilates, terapia ocupacional, técnicas de relaxamento, mudanças na dieta e estilo de vida, entre outras abordagens multidisciplinares. O tratamento deve ser individualizado, considerando todo o histórico do paciente”, reforça o médico.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diretrizes para o tratamento da dor crônica que incluem desde a oferta de medicamentos específicos até práticas integrativas e complementares (PICS), como acupuntura, que podem auxiliar no manejo da síndrome.