Fibromialgia atinge 4 milhões de brasileiros: entenda por que mulheres são as mais afetadas

Além da dor, a condição é marcada por fadiga e "névoa cerebral"; diagnóstico exige avaliação multidisciplinar para diferenciar de outras patologias

Por Maria Clara Trajano Publicado em 23/02/2026 às 16:08

Clique aqui e escute a matéria

A fibromialgia é uma condição clínica complexa que desafia pacientes e médicos devido à sua natureza "invisível". Caracterizada por dor muscular generalizada e crônica, a síndrome afeta entre 2% e 4% da população mundial.

No Brasil, o Ministério da Saúde estima que a doença atinja cerca de 2% dos brasileiros, aproximadamente 4 milhões de pessoas. Apesar da alta prevalência, o caminho até o diagnóstico correto ainda é marcado por desinformação e estigma.

A fibromialgia não possui uma causa única. Trata-se de uma alteração no processamento central da dor, onde o sistema nervoso do paciente interpreta estímulos de forma amplificada.

Predominância feminina: hormônios e genética

Um dos aspectos mais marcantes da fibromialgia é o recorte de gênero. Estima-se que entre 80% e 90% dos diagnósticos ocorram em mulheres, especialmente na faixa etária entre os 30 e 50 anos. Essa disparidade não é meramente estatística, mas baseada em fatores biológicos e psicossociais.

O neurocirurgião Marcelo Valadares, pesquisador da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que a ciência ainda busca respostas definitivas, mas já aponta caminhos claros.

“Embora a ciência ainda explore o assunto, acredita-se que as mulheres estejam mais suscetíveis à fibromialgia. Entre as possíveis explicações para isso estão as flutuações hormonais, que desempenham papel na sensibilidade à dor na regulação do sistema nervoso; fatores genéticos; ou fatores psicossociais, como estresse crônico, condições de saúde mental como ansiedade e depressão", explica.

"Além disto, em relação ao sistema nervoso central, também podemos ressaltar que as mulheres tendem a produzir níveis menores de serotonina, um neurotransmissor associado à sensibilidade à dor”, afirma o especialista.

Videocast Saúde e Bem-Estar: mitos e verdades sobre dor e anestesia

Além da dor

É um erro comum acreditar que a fibromialgia se resume à dor no corpo. A condição é uma síndrome que engloba uma série de manifestações que comprometem severamente a qualidade de vida e a produtividade do indivíduo.

Entre os sintomas mais relatados, destacam-se:

  • Fadiga extrema, cansaço que não melhora com o repouso;
  • Distúrbios do sono, o paciente acorda com a sensação de que não descansou (sono não reparador);
  • "Névoa cerebral", dificuldade de concentração, lapsos de memória e lentidão cognitiva;
  • Rigidez muscular, sensação de corpo "travado", especialmente ao acordar;
  • Alterações de humor, forte associação com quadros de ansiedade e depressão.

“A fibromialgia pode se manifestar de maneira diferente em cada pessoa. Enquanto algumas pessoas podem experimentar dor intensa em todo o corpo, outras podem ter dor localizada em áreas específicas. Além disso, os sintomas podem variar em gravidade. O tratamento personalizado e multidisciplinar é essencial para lidar com essa variedade de sintomas”, esclarece Valadares.

Mitos e desafios do diagnóstico

Por não apresentar alterações em exames de imagem (como ressonância) ou de sangue, o diagnóstico da fibromialgia é estritamente clínico. Isso frequentemente leva a equívocos, com a condição sendo confundida com tendinites, artrite reumatoide ou até esclerose múltipla.

Outro ponto de atenção é que, embora seja mais comum em adultos, a fibromialgia também pode afetar adolescentes e crianças.

Nesses casos, o diagnóstico é ainda mais complexo, pois os jovens muitas vezes têm dificuldade em descrever a natureza da dor e o impacto da fadiga em suas rotinas escolares.

É fundamental destacar que a causa não é puramente psicológica. Embora o estresse possa agravar as crises, a doença tem bases neurobiológicas concretas na forma como o cérebro processa os sinais dolorosos.

Tratamento multidisciplinar é o padrão-ouro

Atualmente, não existe cura definitiva para a fibromialgia, mas o controle dos sintomas permite que o paciente leve uma vida normal. O protocolo recomendado por órgãos oficiais e especialistas descarta o uso exclusivo de medicamentos. O foco deve ser a melhora da funcionalidade.

O médico Marcelo Valadares defende que a abordagem deve ser ampla.

“Além dos fármacos para alívio da dor, é necessário incluir tratamentos como fisioterapia, a inclusão de exercícios físicos na rotina, como o pilates, terapia ocupacional, técnicas de relaxamento, mudanças na dieta e estilo de vida, entre outras abordagens multidisciplinares. O tratamento deve ser individualizado, considerando todo o histórico do paciente”, reforça o médico.

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diretrizes para o tratamento da dor crônica que incluem desde a oferta de medicamentos específicos até práticas integrativas e complementares (PICS), como acupuntura, que podem auxiliar no manejo da síndrome.

Compartilhe

Tags