Uso racional de analgésicos e diagnóstico preciso são fundamentais no manejo da dor

Além de tratar sintomas, médicos alertam para a importância de identificar a origem do problema e evitar a dependência de substâncias como os opioides

Por Maria Clara Trajano Publicado em 19/02/2026 às 14:07 | Atualizado em 19/02/2026 às 14:10

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O tratamento da dor, seja ela aguda ou crônica, vai muito além da simples ingestão de comprimidos. Embora o alívio imediato seja o desejo da maioria dos pacientes, especialistas alertam que a prescrição medicamentosa não deve ser, necessariamente, a primeira ou única linha de cuidado.

O uso indiscriminado de analgésicos, impulsionado pelo fácil acesso e pela automedicação, pode mascarar doenças graves e gerar efeitos colaterais severos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dor crônica — aquela que persiste por mais de três meses — afeta cerca de 30% da população mundial. O desafio atual da medicina é tratar essa condição de forma individualizada, considerando que a dor não é apenas física, mas uma experiência sensorial e emocional complexa.

Entendendo os diferentes tipos de dor

Desde 2020, a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) atualizou conceitos que ajudam médicos e pacientes a entenderem que nem toda dor nasce do mesmo mecanismo. Identificar a categoria correta é o primeiro passo para um tratamento eficaz:

  • Dor nociceptiva: resulta de inflamações ou lesões estruturais (como um corte, uma queimadura ou uma batida).
  • Dor neuropática: causada por lesões no sistema nervoso (como a dor ciática ou a neuropatia diabética).
  • Dor nociplástica: ocorre quando há uma alteração no processamento da dor pelo cérebro, mesmo sem uma lesão física evidente (comum em casos de fibromialgia).

O objetivo principal do tratamento não é apenas zerar a escala de dor, mas devolver a funcionalidade ao indivíduo.

“O uso de medicamentos deve ser entendido como parte complementar ou temporária de uma estratégia mais ampla e individualizada, que inclui reabilitação física, condicionamento funcional, e até mesmo auxílio psicológico em alguns casos”, explica o neurocirurgião funcional Marcelo Valadares, pesquisador da Unicamp.

Consumo de opioides no Brasil

Um dado que acende o alerta das autoridades de saúde é o aumento expressivo no consumo de opioides em território nacional. De acordo com o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid), o uso de substâncias como codeína, tramadol e morfina cresceu aproximadamente oito vezes entre 2012 e 2023.

Embora sejam fundamentais para dores oncológicas ou pós-operatórios severos, esses fármacos exigem vigilância estrita. O uso prolongado sem acompanhamento pode levar à tolerância (quando o corpo precisa de doses cada vez maiores) e à dependência química.

“O tratamento da dor exige raciocínio clínico estruturado e responsabilidade ética. O uso racional de analgésicos protege o paciente tanto da dor mal controlada quanto dos riscos associados ao uso indevido de medicamentos”, reforça Valadares.

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Classes de medicamentos e suas funções

A escolha da substância depende diretamente do diagnóstico. Confira as principais classes utilizadas no manejo clínico:

CLASSE MEDICAMENTOSA EXEMPLOS COMUNS INDICAÇÃO PRINCIPAL
Analgésicos simples Paracetamol, dipirona Dores leves a moderadas
Anti-inflamatórios (AINEs) Ibuprofeno, diclofenaco Dores com componente inflamatório e musculoesquelético
Moduladores neuronais Pregabalina, duloxetina Dores neuropáticas e crônicas (atuam no sistema nervoso)
Opioides Tramadol, morfina, oxicodona  Dores intensas ou que não respondem a outros tratamentos

Sinais de alerta para o uso abusivo

A vigilância deve ser constante tanto por parte dos médicos quanto dos familiares. Alguns comportamentos podem indicar que o uso do medicamento saiu do controle terapêutico e tornou-se um risco:

  • Solicitação de renovação de receitas antes do prazo previsto;
  • Busca por aumento de dose sem que haja melhora na capacidade de realizar tarefas diárias;
  • Uso de álcool associado aos analgésicos;
  • Troca constante de médicos para obter múltiplas prescrições;

O acompanhamento multidisciplinar continua sendo o "padrão ouro". Pacientes que seguem orientações que integram exercícios físicos e higiene do sono costumam apresentar uma melhora funcional muito superior àqueles que dependem exclusivamente da farmácia.

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