Uso racional de analgésicos e diagnóstico preciso são fundamentais no manejo da dor
Além de tratar sintomas, médicos alertam para a importância de identificar a origem do problema e evitar a dependência de substâncias como os opioides
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O tratamento da dor, seja ela aguda ou crônica, vai muito além da simples ingestão de comprimidos. Embora o alívio imediato seja o desejo da maioria dos pacientes, especialistas alertam que a prescrição medicamentosa não deve ser, necessariamente, a primeira ou única linha de cuidado.
O uso indiscriminado de analgésicos, impulsionado pelo fácil acesso e pela automedicação, pode mascarar doenças graves e gerar efeitos colaterais severos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dor crônica — aquela que persiste por mais de três meses — afeta cerca de 30% da população mundial. O desafio atual da medicina é tratar essa condição de forma individualizada, considerando que a dor não é apenas física, mas uma experiência sensorial e emocional complexa.
Entendendo os diferentes tipos de dor
Desde 2020, a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) atualizou conceitos que ajudam médicos e pacientes a entenderem que nem toda dor nasce do mesmo mecanismo. Identificar a categoria correta é o primeiro passo para um tratamento eficaz:
- Dor nociceptiva: resulta de inflamações ou lesões estruturais (como um corte, uma queimadura ou uma batida).
- Dor neuropática: causada por lesões no sistema nervoso (como a dor ciática ou a neuropatia diabética).
- Dor nociplástica: ocorre quando há uma alteração no processamento da dor pelo cérebro, mesmo sem uma lesão física evidente (comum em casos de fibromialgia).
O objetivo principal do tratamento não é apenas zerar a escala de dor, mas devolver a funcionalidade ao indivíduo.
“O uso de medicamentos deve ser entendido como parte complementar ou temporária de uma estratégia mais ampla e individualizada, que inclui reabilitação física, condicionamento funcional, e até mesmo auxílio psicológico em alguns casos”, explica o neurocirurgião funcional Marcelo Valadares, pesquisador da Unicamp.
Consumo de opioides no Brasil
Um dado que acende o alerta das autoridades de saúde é o aumento expressivo no consumo de opioides em território nacional. De acordo com o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (Obid), o uso de substâncias como codeína, tramadol e morfina cresceu aproximadamente oito vezes entre 2012 e 2023.
Embora sejam fundamentais para dores oncológicas ou pós-operatórios severos, esses fármacos exigem vigilância estrita. O uso prolongado sem acompanhamento pode levar à tolerância (quando o corpo precisa de doses cada vez maiores) e à dependência química.
“O tratamento da dor exige raciocínio clínico estruturado e responsabilidade ética. O uso racional de analgésicos protege o paciente tanto da dor mal controlada quanto dos riscos associados ao uso indevido de medicamentos”, reforça Valadares.
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Classes de medicamentos e suas funções
A escolha da substância depende diretamente do diagnóstico. Confira as principais classes utilizadas no manejo clínico:
| CLASSE MEDICAMENTOSA | EXEMPLOS COMUNS | INDICAÇÃO PRINCIPAL |
| Analgésicos simples | Paracetamol, dipirona | Dores leves a moderadas |
| Anti-inflamatórios (AINEs) | Ibuprofeno, diclofenaco | Dores com componente inflamatório e musculoesquelético |
| Moduladores neuronais | Pregabalina, duloxetina | Dores neuropáticas e crônicas (atuam no sistema nervoso) |
| Opioides | Tramadol, morfina, oxicodona | Dores intensas ou que não respondem a outros tratamentos |
Sinais de alerta para o uso abusivo
A vigilância deve ser constante tanto por parte dos médicos quanto dos familiares. Alguns comportamentos podem indicar que o uso do medicamento saiu do controle terapêutico e tornou-se um risco:
- Solicitação de renovação de receitas antes do prazo previsto;
- Busca por aumento de dose sem que haja melhora na capacidade de realizar tarefas diárias;
- Uso de álcool associado aos analgésicos;
- Troca constante de médicos para obter múltiplas prescrições;
O acompanhamento multidisciplinar continua sendo o "padrão ouro". Pacientes que seguem orientações que integram exercícios físicos e higiene do sono costumam apresentar uma melhora funcional muito superior àqueles que dependem exclusivamente da farmácia.