Volta às aulas: sinais de bullying e cyberbullying exigem atenção dentro e fora da escola

Conflitos, exclusões e rivalidades que surgem na convivência escolar costumam migrar para redes sociais, jogos on-line e aplicativos de mensagens

Por Mirella Araújo Publicado em 26/01/2026 às 14:07

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Com a volta às aulas, cresce a necessidade de atenção por parte de professores, coordenadores, equipes pedagógicas e famílias para lidar com situações de bullying e cyberbullying nas escolas.

O problema não se restringe aos espaços físicos: o ambiente digital também funciona como um amplificador das agressões. Conflitos, exclusões e rivalidades que surgem na convivência escolar costumam migrar para redes sociais, jogos on-line e aplicativos de mensagens, onde ganham maior alcance e agravam os impactos sobre as vítimas.

No ano passado, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) emitiu recomendações às redes pública e privada de ensino para a adoção de um Protocolo de Ação voltado à prevenção, mediação e enfrentamento da violência escolar, incluindo práticas de bullying e cyberbullying.

Desde janeiro de 2024, essas condutas passaram a ser tipificadas no Código Penal. A Lei nº 14.811/2024 define bullying como a intimidação sistemática, individual ou em grupo, por meio de violência física ou psicológica, praticada de forma intencional e repetitiva, sem motivação aparente, envolvendo humilhações, discriminações ou agressões de natureza verbal, moral, sexual, social, psicológica, física, material ou virtual.

De acordo com a legislação, a pena prevista é multa, quando a conduta não configurar crime mais grave. Já o cyberbullying é caracterizado como intimidação sistemática realizada por meios digitais. Quando ocorre pela internet, redes sociais, aplicativos, jogos on-line ou transmissões em tempo real, a punição pode chegar a reclusão de dois a quatro anos, além de multa.

Vulnerabilidade na Internet

Dados do estudo Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet, realizado pelo ChildFund, indicam que o ambiente on-line é visto por adolescentes como um espaço marcado por insegurança, exposição ao bullying e outras formas de violência.

A pesquisa ouviu 8.436 jovens de 13 a 18 anos, de escolas públicas e privadas, em todas as regiões do país, combinando métodos quantitativos e qualitativos.

“O cyberbullying potencializa os danos à pessoa que sofre bullying, especialmente em crianças e adolescentes, que ainda não desenvolveram totalmente o seu arcabouço psíquico para enfrentar tais questões”, explicou Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund

Entre os sinais mais frequentes estão mudanças bruscas de humor, ansiedade, crises de pânico, tristeza persistente, irritabilidade, perda de apetite e isolamento social.

Os resultados também mostram diferenças na percepção de segurança on-line entre meninas e meninos. O sentimento de insegurança é relatado por 21% das meninas, contra 10% dos meninos. Nos grupos focais, foram registradas sete menções a episódios de bullying feitas por meninas e três por meninos, o que indica que elas podem estar expostas a esse tipo de ameaça cerca de 2,3 vezes mais. Os relatos envolvem xingamentos, comentários ofensivos, ataques à aparência física e assédio.

Redes sociais e jogos ampliam a exposição à violência

Ao apontarem os ambientes digitais considerados mais inseguros, os adolescentes citaram o Instagram como o principal, concentrando 68% das menções. Em seguida aparece a plataforma de jogos on-line Roblox, com 12%. Jogos como Free Fire também foram associados a ofensas verbais, enquanto o TikTok foi relacionado à exposição a comentários agressivos.

Em um dos depoimentos coletados na pesquisa, um adolescente relatou a invasão de sua conta no Instagram, usada para o envio de mensagens ofensivas a terceiros. Em outro, um jovem contou ter sido ameaçado por um usuário desconhecido durante uma partida no Roblox.

A pesquisa identificou ainda diferenças entre estudantes das redes pública e privada. Jovens de escolas públicas relataram maior exposição ao bullying e ao assédio on-line: 63% afirmaram ter sido abordados por pessoas desconhecidas. Já entre alunos da rede privada, os dados apontam maior presença de mecanismos de proteção, como orientação, controle do uso da internet e redes de apoio.

“A supervisão do acesso à internet por pais e responsáveis é um fator importante de proteção, mas ainda aparece de forma limitada na rotina dos adolescentes brasileiros. Apenas 35% dos jovens relataram algum tipo de acompanhamento, o que reforça a necessidade de ampliar o diálogo e a orientação sobre convivência e segurança no ambiente digital”, destacou Mauricio Cunha.

Recomendações para enfrentar a violência digital

O ChildFund aponta algumas estratégias prioritárias que podem ser adotadas por escolas, famílias e responsáveis para reduzir riscos, enfrentar o cyberbullying e fortalecer a proteção de crianças e adolescentes no ambiente on-line:

- Riscos e resposta a ameaças digitais: implementação de módulos educativos, inclusive com abordagens gamificadas, sobre cyberbullying, além da oferta de informações claras sobre como denunciar e onde buscar ajuda, integradas às plataformas mais usadas pelos adolescentes.

- Privacidade e segurança: campanhas educativas sobre configuração de contas e proteção de dados em redes como Instagram e TikTok.

- Controle digital equilibrado: uso de ferramentas de controle parental, como o Family Link, aliado ao diálogo aberto e transparente entre adultos e adolescentes.

- Formação de pais e responsáveis: ações voltadas à capacitação de adultos para lidar com segurança digital e incentivar conversas contínuas com crianças e jovens. O ChildFund oferece gratuitamente o curso Safe Child em seu site.

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