Estudante antecipou uso de novo modelo de questões do Enem quase um ano antes, diz Folha
Edcley Teixeira publicou em 2024 que o Enem adotaria blocos de questões baseados em um mesmo texto, formato que estreou este ano
Clique aqui e escute a matéria
O estudante de medicina Edcley Teixeira mencionou publicamente, ainda em dezembro de 2024, o formato de questões que estreou no Enem 2025, segundo apuração da Folha de S.Paulo.
Nas redes sociais, ele descreveu o “testlet” — um grupo de perguntas elaboradas a partir de um único texto-base — meses antes de o Ministério da Educação anunciar oficialmente a mudança.
A Folha teve acesso aos prints das postagens temporárias no Instagram, e o universitário confirmou ao veículo, por videochamada, que comentou sobre o modelo quase um ano antes do exame.
Ele afirma ter chegado à conclusão após analisar editais e documentos públicos do Inep, que citavam oficinas e processos de elaboração de testlets no contexto do Novo Enem.
O que é o “testlet” e como ele apareceu na prova
O formato reúne cinco questões ancoradas em um mesmo texto. Embora Edcley afirmasse que o modelo só entraria em teste após 2025, ele foi aplicado já no primeiro dia do Enem deste ano e voltou a aparecer na reaplicação realizada no Pará, no último domingo (30).
Três dias após a primeira prova, o MEC apresentou oficialmente o testlet como uma das inovações do Enem 2025, justificando que o formato mantém a independência dos itens, mas torna a prova mais contextualizada.
Ao jornal, o presidente do Inep, Manuel Palacios, reforçou que a adoção do modelo “não era sigilosa” e que o instituto vem estudando sua incorporação desde 2023. Segundo ele, a mudança acompanha as transformações do Ensino Médio e deve ser mantida nas próximas edições.
O que Edcley havia publicado
Segundo a Folha, o estudante mostrou em stories trechos de chamadas públicas e editais voltados à seleção de elaboradores de itens que mencionavam “oficinas de elaboração de testlets” e blocos de questões não independentes.
Ele afirmou acreditar que o Inep pretendia, gradualmente, substituir a TRI (Teoria de Resposta ao Item), usada desde 2009, por uma metodologia mais recente, a TRT (Teoria de Resposta ao Testlet).
A Folha confirmou a existência da página citada, mas não encontrou o edital mencionado; Edcley diz que o arquivo foi removido posteriormente.
O documento, segundo o jornal, detalhava etapas internas do processo, como seleção de textos-base, elaboração, revisão, painéis técnicos e relatórios, com atividades previstas entre agosto e dezembro de 2024. Todos os colaboradores estavam sujeitos a cláusulas de sigilo.
Repetição de padrões e previsões do Enem
Edcley atribuiu sua previsão à análise de padrões de prova e à leitura de documentos oficiais, algo que chama de “método de percepção algorítmica”.
Ele diz ter participado de diversos exames e pré-testes oficiais, como o Prêmio Capes Talento Universitário, usados pelo Inep para calibrar itens que futuramente podem entrar no Enem.
O estudante ganhou repercussão nacional após divulgar, em uma live no YouTube, dias antes da aplicação das provas, questões muito semelhantes às que apareceram no Enem 2025. Três itens foram anulados, e o Inep solicitou investigação da Polícia Federal.
Inep contesta coincidências integrais
Em nota, citada pela Folha, o Inep afirmou que “nenhuma questão coincide integralmente” com as mostradas nas redes sociais do estudante, embora reconheça “similaridades pontuais”.
O instituto também reforçou que elimina, rotineiramente, itens que não discriminam de forma adequada o nível de proficiência dos candidatos, parte do processo de calibração do exame.
Questionado pelo jornal sobre sua participação em pré-testes, Edcley preferiu não comentar, mas admitiu que, às vezes, utilizava “marketing agressivo” para divulgar seus cursos e mentorias para o Enem.
Confiança no processo
À Folha, o presidente do Inep reiterou que a modernização do exame já estava em curso e que o uso do testlet era esperado. O documento citado por Edcley, disse ele, faz parte do plano de trabalho para remunerar colaboradores externos e não possui acesso restrito.
O estudante, por sua vez, declarou confiar no processo técnico. “Eu confio no Enem, confio no Inep. Continuo apaixonado pelo exame e acredito muito na capacidade técnica deles”, afirmou à Folha de S.Paulo.