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Clubes do livro como estímulo às relações interpessoais e resistência à era da hiperconectividade

Essa dinâmica conquista leitores de todas as idades, oferecendo troca de experiências, pertencimento e novas perspectivas sobre a leitura e a vida

Por Alice Lins Publicado em 28/08/2025 às 9:00

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Fixar em uma história o dia todo. Chegar em casa e pegar um livro. Folhear mais de trinta páginas em uma noite, esquecer o que acabou de ler e retomar ao último parágrafo lido. Se perguntar: "Poxa, o que será que fulaninho acharia disso?". Pegar o celular e enviar uma mensagem para um amigo sobre a narrativa, mas ainda assim não ser o suficiente. "Clube do livro", pensa. "Essa é a solução". E, no final, o que se sente é isso: fazer com que a leitura pare de ser individual e se torne coletiva.

A vontade de pertencer aos clubes do livro têm se tornado cada vez mais presente na vida das pessoas. Não apenas para os jovens, que descobrem um novo hábito, mas todas as idades. Esse movimento mostra a busca por conexões reais em meio a uma rotina acelerada, criando um espaço no qual a leitura vai além das páginas e se transforma em troca de experiências, acolhimento e pertencimento.

Existem diversos tipos de clubes do livro, cada um com dinâmicas e métodos diferentes. Para a jornalista Beatriz Alcântara, de 28 anos, isso nasceu da vontade dela e de um amigo, que se tornou parceiro da criação do clube, de compartilhar leituras sem a obrigação de seguir um único título em comum.

"A gente tem um gosto muito parecido, mas também algumas diferenças, e não queria ficar presa a ler sempre o mesmo que todo mundo. Então pensamos: cada um traz o que está lendo e a gente aproveita para conhecer outros livros também", contou.

Divulgação/Arquivo Pessoal
"Clube do Lido", um clube do livro remoto, mas com encontros presenciais em João Pessoa, na Paraíba, duas vezes ao ano - Divulgação/Arquivo Pessoal

No início, os encontros ocorriam remotamente, uma vez por mês, pelo Meet, sempre com espaço para que cada participante comentasse o que estava lendo, havia finalizado ou pretendia ler. Com o tempo, o grupo também passou a experimentar leituras coletivas, algumas bem-sucedidas e outras nem tanto, como a primeira votação, que terminou em decepção geral.

A escolha pelo formato online permitiu a participação de leitores de diferentes estados, embora, eventualmente, os membros também se encontrem presencialmente em João Pessoa ou Recife. "Hoje em dia, já não é só sobre debater os livros. A gente se reúne, conversa, fofoca, e isso também faz parte da dinâmica que a gente gosta", diz Beatriz.

Falando em encontros diferenciados, o de Maura Campanilli, jornalista e escritora de 61 anos, é bem característico: o Círculo Feminino de Leitura foi formado há mais de 15 anos por 11 mulheres de São Paulo, todas com mais de 50 anos. E não para por aí, pois uma das características mais marcantes desse clube é o fato das mulheres se vestirem segundo as temáticas dos livros.

"Cada reunião é na casa de uma pessoa. A pessoa só prepara comida, decoração, atividade, todas envolvendo no livro", começa Maura.

Ela lembra que, já na primeira reunião em que o grupo escolheu um livro para debater "Mulheres Francesas Não Engordam", de Mireille Guiliano, surgiu espontaneamente uma brincadeira que acabou marcando a identidade do clube. "Sem combinar, todas apareceram vestidas como francesas, de tubinho preto, pérolas, aquele estereótipo clássico. A partir dali, decidimos que cada encontro teria uma inspiração ligada à obra escolhida, e isso se tornou parte da nossa dinâmica", conta.

Em outra ocasião, o grupo leu "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen, e a preparação para o encontro foi tão especial quanto a própria leitura. A anfitriã enviou os convites como se fosse uma personagem do século XVIII, recriando o clima da época. No dia da reunião, todas compareceram vestidas à moda antiga, algumas chegaram até a alugar trajes de época, deixando o encontro muito mais imersivo.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Círculo Feminino de Leitura, formado há mais de 15 anos por 11 mulheres de São Paulo, todas com mais de 50 anos - Divulgação/Arquivo Pessoal

Além desse tipo de dinâmica, os clubes do livro também podem priorizar a construção de experiências coletivas que vão além da leitura em si. Cada encontro se torna uma oportunidade de interação, troca de ideias e celebração da literatura, reforçando laços entre os participantes e estimulando a criatividade na forma de abordar os livros.

A designer de interiores Franciely Menegotto, de 34 anos, compartilha que participa de clubes do livro há cerca de cinco anos e destaca a importância da curadoria na experiência. "Às vezes, você entra numa livraria e fica perdido com tantas opções, então ter alguém que escolhe o livro por você ajuda muito", explica.

Ela conta que começou com o clube da Gabriela Prioli, voltado a temas mais políticos, mas hoje participa de clubes mais diversos. Além disso, Franciely valoriza e ressalta como os clubes podem ser um momento em que você pode ser você mesmo.

"Meio que acaba se mostrando, se abrindo muito, porque eu acho que ninguém tá ali para te julgar. Então é um espaço livre de julgamentos. Cada um tem o seu tempo ali para falar do livro do jeito que quer, expressar seus sentimentos do como quer. Eu acho que essa troca acaba sendo muito verdadeira", comenta.

Também é o caso da estudante de medicina Letícia Campos, 21 anos. A criação do clube do livro dela nasceu do desejo de compartilhar leituras que antes vivia de forma solitária. Inicialmente formado por amigas próximas, o grupo foi crescendo e se estruturando em torno de um propósito: priorizar autores negros e obras que dialogassem diretamente com as vivências das participantes.

"Eu queria muito que a leitura conversasse com a nossa realidade, com experiências que atravessam nossas vidas. Esse acabou sendo o diferencial do clube e o que nos uniu desde o começo", explica.

A iniciativa também é uma forma de ressignificar espaços historicamente negados às pessoas negras. "O sentimento em relação a essa iniciativa é pertencimento, se sentir pertencente. Também de poder fazer parte de algo que diziam que a gente não podia fazer parte, sabe? Ocupar esse lugar de intelectualidade, ocupar esse lugar de conhecimento e de produção, de senso crítico. Era uma coisa que historicamente nos foi negada", afirma.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Integrantes do "Afroclubinho", clube do livro afrocentrado no Recife - Divulgação/Arquivo Pessoal

Além de estabelecer e estimular novas conexões interpessoais, com aquele gostinho de pertencimento e acolhimento, os clubes do livro também podem representar um certo tipo de resistência que as pessoas estão tendo ao uso excessivo de redes sociais. Desde a pandemia do COVID-19, a obrigação de permanecer dentro de casa sem ter muitos passatempos ou formas de lazer acabou deixando as pessoas reféns do próprio celular.

Um levantamento da Electronics Hubs mostrou que, de 2019 a 2021, o uso de smartphones no Brasil cresceu em 45%. Até os dias atuais, a maior forma de entretenimento de um brasileiro médio continua sendo um aparelho telefônico. Em 16 horas que o brasileiro passa acordado, 9 horas e 13 minutos são destinadas às redes sociais, e o Brasil é o segundo maior país do mundo que mais tem tempo de uso de telas, perdendo apenas para a África do Sul (9 horas e 24 minutos), segundo estudos da We Are Social e Meltwater.

A psicóloga Laura Brito, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (CRP 02/29133), explica que vivemos em uma sociedade que não sabe lidar com o tédio e, por isso, muitas vezes evita emoções consideradas difíceis, mas igualmente importantes para o desenvolvimento emocional. Segundo ela, a leitura, especialmente em espaços coletivos como os clubes do livro, ajuda a ampliar esse repertório, já que permite o contato com diferentes perspectivas e sentimentos, além de estimular a tolerância à frustração.

"Quando um livro desperta opiniões divergentes, não significa que uma esteja certa e a outra errada. É justamente nesse diálogo que se constrói uma nova síntese, a partir do encontro entre experiências, valores e crenças diferentes", destaca. Esse exercício é fundamental em tempos marcados pela polarização, pois ensina a ouvir e respeitar o olhar do outro.

A psicóloga também reforça que o ambiente também exerce um papel fundamental na construção de hábitos como a leitura. Estar cercado por pessoas que valorizam determinada atividade aumenta a motivação para participar dela, mas, segundo ela, é essencial que esse movimento esteja alinhado ao autoconhecimento.

"Não é porque está na moda que eu preciso fazer. O importante é entender o que faz sentido para mim. Se eu não gosto de terror, não adianta forçar a leitura de Stephen King, mas se eu gosto de romance, por exemplo, é ali que encontro prazer", explica.

Mais que acompanhar tendências, o hábito da leitura precisa ter significado pessoal, e os clubes do livro se tornam espaços que ajudam cada leitor a descobrir o que realmente importa na relação com os livros. A leitura também funciona como uma forma de conexão consigo mesmo, algo que dificilmente se encontra no consumo rápido de entretenimento nas telas.

Ela explica que, ao mergulhar em um livro, o leitor entra em contato com emoções e pensamentos que passam muitas vezes despercebidos no cotidiano, estimulando presença e autoconhecimento.

"É quase como uma prática de atenção plena, em que você observa como se sente diante daquela leitura, se está gostando ou se acha entediante. Esse processo gera questionamentos importantes, porque nos ensina a tolerar o tédio e o desconforto, que também fazem parte da vida", conclui.

No fim, os clubes do livro mostram que a leitura vai muito além das páginas: é encontro, diálogo e conhecimento próprio. Seja no formato virtual ou presencial, essas comunidades reforçam o valor da troca de experiências e do pertencimento.

Em um tempo marcado pela rapidez e pela distração constante, desacelerar para compartilhar histórias se torna não apenas um hábito, mas também um gesto de cuidado consigo mesmo e com o outro.

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