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Aos 82 anos, Fernando Machado transforma memórias em livros e inspira novos começos

O autor, de três livros e seguindo para o quarto, encontrou na escrita uma maneira de tornar experiências pessoais em narrativas envolventes

Por Alice Lins Publicado em 23/08/2025 às 13:00

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Muitas vezes, a escrita pode surgir como refúgio, exercício de memória ou até mesmo como uma nova paixão em fases da vida na qual muitos acreditam já não ter espaço para recomeços. Longe de ser apenas um tipo de arte, o ato de escrever também pode ser considerado terapêutico e libertador, fazendo com que lembranças se transformem em narrativas e que experiências encontrem voz nas páginas escritas.

Em um período em que cada vez mais se fala sobre viver ativamente até os últimos anos da vida, exemplos de pessoas que redescobrem passatempos ou iniciam novas trajetórias aos 70, 80 anos ou mais, ajudam a desconstruir a ideia de que existe um prazo de validade para se ter talentos.

É nesse cenário que surge a história de Fernando Machado, com 82 anos, que encontrou nas palavras uma forma de ressignificar a própria vida. Engenheiro civil formado pela Universidade Mackenzie em 1968, construiu uma carreira na área de obras de engenharia sanitária e, posteriormente, abriu a própria empresa.

No início dos anos 2000, após encerrar as atividades profissionais, ele ainda criou um espaço multicultural até se aposentar definitivamente e se mudar para Florianópolis. Foi lá que uma recomendação transformou totalmente o rumo da vida dele: incentivado pela psicóloga, Fernando começou a registrar as memórias como um exercício de autoconhecimento. Essa organização de ideias logo se tornou um projeto literário.

"Sempre achei importante me acompanhar de uma psicóloga ou psiquiatra, de forma cíclica. Não porque estivesse doente, mas justamente para não ficar doente. Gostava desse processo de terapia em períodos, e a última delas aconteceu já mais perto da pandemia de Covid. Foi nessa terapia que tudo começou", afirma Fernando.

E prossegue: "Minha psicóloga, certa vez, disse: 'Fernando, você está me contando coisas muito interessantes. Por que não anota? Pode ser bacana ter esse registro'. Eu falava não só sobre a minha vida, mas também sobre acontecimentos históricos: o casamento da princesa Diana, a morte de Kennedy, o surgimento da televisão, o nascimento da Bossa Nova, os Novos Baianos, fatos políticos, crimes, o regime militar, a redemocratização, até mesmo o episódio do Collor confiscando o dinheiro das pessoas. Eu relatava com tanta naturalidade e riqueza de detalhes que ela ficou curiosa e insistiu para que eu começasse a escrever".

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Fernando Machado, escritor aos 82 anos - Divulgação

Fernando ressalta que, por ser muito persistente, decidiu seguir o conselho. E, sempre que saía da terapia, chegava em casa e fazia anotações, guardando os pensamentos sem muita organização. Em certo momento, a psicóloga sugeriu que ele fizesse um inventário de tudo o que ele já tinha escrito. Assim, surgiu "Gastura", o primeiro livro publicado pelo autor. Ele é autor de mais dois livros, "Spoiler" e "Phenix".

Sobre o processo de escrita, ele diz que faz algo diferente do comum. Por ser engenheiro, ele começa desenhando o que ele quer que esteja no livro, depois vai criando o enredo a partir do que já tem desenhado.

"Não consigo simplesmente pegar uma página em branco e começar a escrever, isso sempre me trouxe dificuldade. Para o meu terceiro e quarto livros, desenvolvi um método diferente: primeiro, defino o tema, a sinopse e a ambientação da história, como cidade, país e detalhes gerais," diz Fernando. "A partir daí, começo a criar um ‘mapa mental’, desenhando cidades, ruas, hotéis, hospitais, praças, fronteiras, tudo com posições relativas e precisas, mesmo sem saber se esses elementos serão usados depois".

"Os personagens recebem liberdade para se desenvolverem, como se tivessem vida própria, e eu os acompanho percorrendo esse espaço que já construí. Só então começo a escrever a história em si. Não parto de uma página em branco, mas sim de um verdadeiro tabuleiro que organizei previamente", ressalta.

Falando em lançamentos, "O Velho e o Cão" é o mais novo trabalho do autor e está prestes a ser lançado entre o fim de setembro e o início de outubro (segundo spoilers de Fernando). O livro aposta em uma escolha narrativa incomum: a de contar a história pelo ponto de vista do cachorro Brown, companheiro de vida Fernando.

A decisão de adotar a perspectiva animal abre espaço para uma sensibilidade diferente daquela que um narrador humano poderia alcançar. Brown, como observador, testemunha momentos que podem escapar do olhar das pessoas.

"Eu queria me provocar para ver se eu conseguiria fazer essa obra. De criar um cachorro que se identifica com o seu dono, mas eu queria saber do lado dele. Porque você jogar uma bolinha para o cão buscar, é uma coisa. Outra coisa é você falar: 'Brown, vamos conversar' e ele vem até você", diz.

Um fato curioso é que Fernando afirmou ter ficado, muitas vezes, na mesma altura que o cachorro para ter mais propriedade ao falar pelo ponto de vista do animal.

"Por vezes, eu deitei no chão e tentei enxergar algumas coisas pela visão dele. Por exemplo, como é atravessar numa balsa? O que ele vê numa balsa não é o que a gente vê. Ele não percebe o mar como nós, mas sim a estrutura de ferro, cada detalhe do ambiente, de um jeito totalmente diferente. E ele pensa: 'Pô, isso aí é para se divertir? Não acho'", brinca.

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Fernando Machado ao lado de Brown, seu cachorro - Divulgação

Essa atenção aos detalhes permitiu que Fernando construísse uma relação cada vez mais intensa com Brown, aproximando ainda mais a realidade e a narrativa no livro.

"Ao longo do processo, cada experiência que eu ia fazendo com ele aumentava nossa proximidade. Hoje, na vida real, não tenho dificuldade de me comunicar com ele. Se eu digo: 'Vamos passear', ele pula de alegria. Mas, na mesma situação, se eu disser: 'Vamos passear, por favor, espere que já volto', ele entende que precisa esperar e fica parado", explica.

Enquanto anseia para ver a quarta obra ganhar vida, ele já mergulha na construção do quinto livro, que promete explorar novas possibilidades narrativas.

Diferente de tudo o que escreveu até agora, a história se organiza em uma ordem cronológica inversa: o primeiro capítulo apresenta o protagonista já idoso, e, a partir daí, os seguintes recuam no tempo, revelando episódios da juventude, maturidade e início de vida adulta, com memórias que o marcaram profundamente. Assim, Fernando brinca com o tempo literário, que costuma estar sempre na ordem cronológica dos fatos.

A história acompanha um homem que alcançou sucesso, construiu família e carreira, mas, com o tempo, se tornou autoritário e tomou decisões ruins, entrando em decadência e ficando sozinho.

"Esse é o livro que estou escrevendo agora, e estou contando em primeira mão. Tenho apenas um parágrafo escrito, mas já está inteiro na minha cabeça", revela.

No momento final, ele se conecta com uma ou duas pessoas de confiança, e Fernando decidiu narrar a trama de forma invertida: o personagem, um coronel idoso e instável, está em um asilo nos arredores de Ilhéus, prestes a morrer, e recebe a visita do capataz e de um padre para uma última despedida.

Com mais um livro (e outros em mente), essa decisão de se lançar em algo novo, independentemente da idade, exige coragem e determinação. Muitas pessoas ainda carregam o receio de iniciar novas trajetórias quando já estão em fases mais avançadas da vida, como se o tempo fosse o maior vilão para o aprendizado ou para a criatividade.

O medo de não ser bom o suficiente, de não ter mais espaço para recomeços ou até de ser julgado, acaba silenciando desejos antigos. É justamente nesse ponto que Fernando costuma trazer uma visão inspiradora, lembrando que nunca é tarde para dar o primeiro passo e que não existe idade certa para começar.

"Não importa se você escreve qualquer coisa. Depois de escrever muito, mesmo que pareça bobagem, você faz a primeira revisão, tira os 'lixinhos' e começa a formar a história. O importante é sentar e escrever, sem ficar pensando demais", aconselha.

O percurso literário do autor de 82 anos não é apenas um exemplo de reinvenção pessoal, mas também um convite para refletir sobre como a arte pode surgir em qualquer etapa da vida.

Os livros mostram que cada lembrança pode se transformar em narrativa e que cada experiência guarda potencial para se tornar história. Muito mais que apenas um hobby "tardio", a escrita se tornou para ele uma forma de diálogo com o passado e de abertura para novas possibilidades no futuro.

Tudo isso reforça a ideia de que nunca é tarde para encontrar novas formas de se conectar com o mundo. As próprias vivências podem servir como grandes enredos e a criatividade permanece sem limites de idade, sempre pronta para florescer em qualquer fase da vida.

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