João Alberto | Notícia

A potência de Elba Ramalho

Todas as segundas-feiras, a Coluna João Alberto apresenta entrevistas exclusivas com personalidades de destaque na sociedade pernambucana

Por Julliana Brito Publicado em 28/09/2026 às 0:00

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Poucas vozes traduzem tão bem a alma nordestina quanto a de Elba Ramalho. Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, a cantora paraibana construiu uma trajetória singular na música brasileira, transitando pelo forró, frevo, MPB e por diferentes ritmos que ajudaram a formar sua marca artística. Dona de uma presença marcante nos palcos e de uma história ligada às raízes culturais do Nordeste, Elba segue celebrando a música e mantendo viva uma história que atravessa gerações.

Felipe Monegai/Divulgação
Elba Ramalho se denomina Cantriz, a junção de cantora e atriz - Felipe Monegai/Divulgação

Como foi sua infância em Conceição, na Paraíba?

Minha infância foi típica de uma criança que tem muitos irmãos, brincava muito, ia para a Igreja com minha mãe, gostava das festas que eram todas em função das festas religiosas. Me encantava quando meu pai permitia que eu viajasse com ele para ajudar na projeção dos filmes de cinema. Meu pai foi dono de um projetor, um cinema itinerante.

Como se apaixonou pela música?

Meu pai tocava saxofone, era um tremendo pé de valsa, gostava de tocar e dançar. Acredito que a música já se fez presente na minha vida desde muito cedo. Meu pai pernambucano ouvindo rádio e eu observando tudo sem entender, mas já gostando de tudo. A música também era um elo de ligação entre nós.

Quando a música poderia se transformar em profissão?

É difícil pontuar, pois eu queria mesmo era ser atriz e fazer teatro. Não pensava em ser cantora, mas aos 14 anos eu tocava bateria na bandinha do colégio que se chamava “As Brasas”. Já me consolidando como atriz, fazendo a “Ópera do Malandro“ de Chico Buarque, surgiu o primeiro convite para gravar profissionalmente. Em 1978, a convite de Chico Buarque, eu participei do seu disco, interpretando “O meu amor“, em dueto com Marieta Severo. Ali nascia a cantora.

O que o teatro trouxe para a sua formação artística?

Tudo me deu régua e compasso. Me deu disciplina, técnica e improviso também. Eu me defino como uma “cantriz”, pois a atriz em mim sempre está presente.

O que o Nordeste representa na sua identidade?

É o meu DNA. É a minha raiz e minha essência. Assim como o barro é moldado e se transforma em arte, eu sou o fruto de uma árvore nordestina. Raízes profundas, bebendo de uma fonte inesgotável. Passando por adversidades, mas resistindo e crescendo.

Que barreiras precisou enfrentar na carreira?

Hoje em dia vejo que rompi preconceitos, mas na época eu não tomei conhecimento. Eu criei asas e voei. Certamente as dificuldades eram muitas, mas passei por cima. O forró sempre foi muito masculino, Marinês foi a pioneira e eu ajudei a popularizar. As novas gerações talvez não entendam que o forró não chegava nas rádios FM. Hoje em dia a comunicação é muito fácil, é muito acessível; antes não era assim. “Bate Coração” foi o primeiro forró a tocar nas rádios FM de todo o Brasil.

Quais artistas foram fundamentais para a sua formação?

A Bossa Nova foi marcante, a Tropicália foi marcante e a invasão nordestina não teve uma nomenclatura, mas tomou conta do país. Zé Ramalho, Fagner, Belchior, Alceu, Geraldo, Ednardo e Amelinha foram nomes que conquistaram um espaço imenso na MPB.

E como surgiu o Grande Encontro?

Zé Ramalho esteve nos três primeiros discos. Um projeto lindo, marcante na história da nossa MPB. Geraldo Azevedo e Ramalho estavam fazendo um show juntos no Canecão no Rio de Janeiro. Quis o destino que eu e Alceu Valença estivéssemos na plateia no mesmo dia para assistir o show deles. Acabamos subindo no palco para uma canja. Assim, surgia O Grande Encontro.

Algum encontro que considera especialmente transformador?

Tive o privilégio de ter convivido com Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Dominguinhos. Aprendi muito com eles. Minha história com Geraldo Azevedo também é muito especial.

Alguma música do seu repertório tem uma história especial?

Já que estou falando em Dominguinhos, vou citar “Aconchego”, uma parceria de Dominguinhos e Nando Cordel. Eu estava em estudos terminando o disco, Dominguinhos me mostrou a canção em forma de “shot” e eu não prestei atenção. No mesmo estúdio, estava um diretor da TV Globo selecionando músicas para uma novela e queria uma canção romântica. Dominguinhos deu uma nova roupagem, e a música que era um xote, tornou-se uma bela canção romântica.

O que o São João representa para você?

Não só para mim, mas para todos os nordestinos é a grande festa da família. É a festa das comidas fartas, dos santos católicos, da colheita, da chuva, das roupas coloridas, das quadrilhas, da música, da cultura popular que se expressa em todas as formas.

Quem é a Elba quando está longe dos palcos?

Uma pessoa que gosta de rezar, de ficar em casa curtindo a família e a neta. Lenine já disse que “neto, é filho melado de mel“. Ele estava certo. Adoro estar com minha neta!

Como a maternidade mudou sua maneira de enxergar a vida?

Pergunta difícil. Meu filho é meu maior presente e é uma experiência muito pessoal que vai mudando, que vai evoluindo, que traz novas experiências, que agrega uma nova família, netos e alegria. Certamente é uma experiência transformadora.

Há algum sonho pessoal que você ainda não realizou?

Paz de forma geral. Em todos shows eu canto os versos da música “Gostoso Demais”…Estou nos braços da paz. Meu desejo mais profundo é que todos estejam em paz.

Qual é o papel da fé na sua vida?

Minha fé é inabalável. Minha religião, devoção e fé me conduzem. O conceito de fé é muito individual, ouço algumas pessoas dizendo que não tem fé. Se você acredita em algo, você tem fé. Espero que todos possam vivenciar o amor de Deus.

O que a maturidade trouxe para sua vida?

Sabedoria, paciência e um olhar que busca enxergar mais longe. O tempo nos ensina muitas coisas. Tudo tem seu tempo.

O que gostaria que as novas gerações lembrassem?

Que a minha música sempre teve o objetivo de levar alegria, de contar uma história e emocionar. Que nos meus shows, sempre ofereci o que eu tinha de melhor naquele momento. Que a minha entrega sempre foi de alegria.

Como é sua relação com Pernambuco?

Sou suspeita, eu amo Pernambuco e acho que Pernambuco também me ama. É um amor correspondido, cheio de cumplicidade. Seja no carnaval ou no São João, é em Pernambuco que me sinto em casa. Em qualquer lugar do mundo onde eu esteja fazendo show, até na China, tem pernambucano na plateia. O pernambucano tem orgulho das suas raízes, tem orgulho da sua bandeira e eu incorporo a cultura pernambucana. “Sou de Pernambuco, eu sou leão do Norte“.

Felipe Monegai/Divulgação
"Seja no carnaval ou no São João, é em Pernambuco que me sinto em casa", afirma Elba em entrevista - Felipe Monegai/Divulgação

RAIO-X

  • Time: Flamengo
  • Restaurante: Arvo
  • Comida: Cartola
  • Filme: “Cinema Paradiso”, do diretor Giuseppe Tornatore
  • Livro: A Bíblia
  • Música: “Dia Branco”, de Geraldo Azevedo
  • Local favorito: a praça do Marco Zero no Carnaval
  • Hobby: Meditar

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Imagem de Julliana Brito

Julliana Brito

jlbrito@jc.com.br

Assistente da coluna social de João Alberto