Marcos Baptista: entre projetos, arte e gestão
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Arquiteto de formação, Marcos Baptista reúne experiências na publicidade, no marketing cultural e na gestão pública, trajetória que hoje se reflete à frente da Oficina Francisco Brennand. Desde que assumiu a presidência, em 2023, vem ampliando a atuação da instituição, com novos projetos, frentes de internacionalização e ações voltadas à sustentabilidade, sem perder de vista a preservação do legado de Francisco Brennand. Casado com Andreia e pai de João e Ana, traz aspectos da sua vida pessoal, os desafios da carreira e os caminhos que vem construindo à frente da Oficina.
Você é arquiteto de formação. Como foi esse início?
Minha história profissional é muito diversa. Eu comecei a trabalhar antes da faculdade, aos 15 anos. Era office boy do Banorte, que é um banco que nem existe mais. Comecei muito cedo porque queria ganhar o meu dinheiro. Cheguei a fazer três anos de Economia, inclusive antes da Arquitetura. Deixei e fui fazer Arquitetura. No final da faculdade, comecei a trabalhar na Secretaria de Planejamento Urbano do Recife.
E a entrada no marketing?
Da Secretaria de Planejamento, passei para a Fundação de Cultura, onde permaneci por cinco anos, estreitando a relação com museus, teatros, equipamentos culturais e a organização do Carnaval e das grandes festas da cidade. Ao deixar o governo, em 2000, entrei na área de comunicação e marketing cultural, conectando marcas e empresas a projetos culturais. Nesse período, trabalhei em agências como Ampla, no Recife, Level, na Bahia, e Black Ninja, em São Paulo. Foram quase 15 anos de atuação, principalmente em marketing cultural, mas também com experiências em marketing político, ao lado de Lavareda, e no setor imobiliário.
O que uniu essas diferentes fases da sua carreira?
Existe uma coisa que une tudo isso: gestão. Eu sempre fui um gestor, mesmo quando necessariamente não estava contratado para essa função específica. Seja coordenando um projeto, seja à frente de alguma área estratégica. Tenho a habilidade de montar equipe. Uma das coisas mais importantes é ter gente muito competente junto de você, trabalhando com você. Você não pode ter medo disso. Acho que tudo o que une essa diversidade do setor público, terceiro setor e setor privado.
Como aconteceu sua passagem pelo governo de Pernambuco?
Voltei para o setor público e tive uma passagem pelo governo de Pernambuco, no governo de Paulo Câmara. Fui presidente do Conselho de Suape, secretário de Planejamento e também passei pela Secretaria de Habitação.
Como foi assumir a gestão de Suape?
Foi desafiador. Era uma área em que eu nunca tinha atuado. Mas sempre fui e sou uma pessoa muito interessada em economia, economia pernambucana. Sempre leio muito. Suape é um ativo muito importante do Estado. Criei muitos laços com outros portos, entrei logo na Associação Brasileira dos Portos. Fui me articulando de forma a poder dar conta desse desafio. Suape tem uma vantagem para quem senta na cadeira de presidente: é um porto que tem um planejamento muito consolidado, que vem de décadas, de mais de 40 anos de atividade. Esse planejamento vem sendo tocado sempre. Os governos mudam, mas o planejamento está acima das questões político-partidárias.
O que a experiência em Suape ensinou sobre liderança?
Numa posição de CEO, de presidente, de liderança, você sempre tem que ter capacidade de articulação política. E não estou falando exatamente da situação com políticos, mas da política que deve estar sobre o seu ambiente de trabalho, da capacidade de negociar. Isso faz parte do dia a dia de qualquer liderança.
Existe algum projeto que você considera um dos grandes desafios da sua carreira?
Um dos maiores desafios da minha trajetória foi montar, em 2004, uma exposição em Nova York sobre a chegada dos judeus que saíram de Pernambuco para os Estados Unidos. O projeto, realizado pelo Arquivo Judaico de Pernambuco, envolveu captação de recursos, diferenças culturais e transferência de obras. Foi uma experiência completa e muito ligada à cultura. Hoje, a Oficina é o projeto que mais tem me dado satisfação e também grandes desafios.
Como aconteceu seu reencontro com as artes e a cultura?
Foi um reencontro por acaso. Em 2019, já havia sido sondado para assumir a posição que tenho hoje, quando a Oficina Francisco Brennand se tornou um instituto sem fins lucrativos, mas o momento não permitiu. No fim de 2022, fui novamente convidado, justamente durante a transição do espaço de criação e ateliê para um equipamento museológico. Aceitei o desafio, motivado pela preservação do legado, pela sustentabilidade do equipamento e pela minha admiração pelo artista. Em março de 2023, assumi a presidência da Oficina, com autonomia e apoio da família e do grupo Cornélio Brennand.
As principais transformações da gestão?
A principal foi consolidar a Oficina como um espaço museológico, com novos horários, programação e estrutura de museu, incluindo atividades aos fins de semana. Também ampliamos o programa educativo, com formação de professores, gratuidade para escolas públicas e projetos que integram a mata, a natureza e a Oficina.
Mudanças promovidas nesse período?
A principal foi ampliar o acesso aos objetos de arte da Oficina. Produzidos até hoje pela equipe de oleiros e decoradores, eles sintetizam a obra de Francisco Brennand em peças mais acessíveis, permitindo que mais pessoas tenham contato com sua arte.
E como isso foi ampliado?
Ampliamos os pontos de venda, com presença no Iguatemi, em São Paulo, no MASP e na Mau, loja do arquiteto Maurício Arruda, além de um corner na Garcia d’Ávila, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Também implantamos o e-commerce. Hoje, trabalhamos com um mix de mais de 100 peças produzidas pela Oficina. Além de levar a obra de Francisco a um público maior, esse canal se tornou importante para a sustentabilidade da Oficina: a receita com as vendas mais que dobrou desde 2023.
Esses pontos de venda já existiam antes da sua gestão?
Não existiam. Foram implementados depois que cheguei. Começamos a testar o mercado. Participamos, por exemplo, da Casa Cor, em São Paulo. Tivemos duas vezes na Casa Cor de São Paulo um espaço exclusivo nosso. Na Casa Cor de Pernambuco também. Muitos arquitetos que assinam projetos na Casa da Arquitetura, tanto em São Paulo quanto em Pernambuco, usam objetos nossos. Eles pedem. Participamos também da SP-Arte, uma das maiores feiras de arte do país.
Como enxerga a relação entre arte e mercado?
Escolhemos e definimos muito bem onde queremos estar, priorizando lugares que têm identidade com nosso público. Em São Paulo, estamos em três pontos estratégicos. No Iguatemi, inclusive, fomos convidados pelo próprio shopping, que nos procurou por entender que nossa marca se identifica com seu público. Além dos pontos de venda, trabalhamos a imagem de Francisco Brennand por meio de royalties, permitindo que marcas utilizem sua obra em produtos. Recentemente, fizemos isso com a Sauer, que lançou uma coleção de joias inspirada na obra de Brennand, com lançamento em Nova York, São Paulo e Rio de Janeiro.
Como está acontecendo o processo de internacionalização?
São várias etapas, mas iniciamos o nosso ciclo do centenário agora em junho, que vai até junho de 2027, com uma exposição de desenhos de Brennand para a cartilha de Paulo Freire. Brennand fez os desenhos para essa cartilha. É uma coleção de desenhos que estamos expondo na Maison do Brasil, um espaço da Capes, em Paris, na França, que apoia pesquisadores que estão lá.
Por que trazer a Bienal de São Paulo para a Oficina?
Acho que temos o maior projeto, que é a Bienal aqui na Oficina. Para mim, esse é o projeto que, de fato, sintetiza o desejo do próprio artista de que a obra dele e outros públicos e outros artistas pudessem estar aqui junto da obra de Brennand. A Bienal é o grande momento dessa política educacional e artística, dessa programação artística da Oficina.
Foi difícil trazer a Bienal para cá?
Não foi complicado. Conversei com a direção da Fundação Bienal de São Paulo em novembro do ano passado e a ideia foi prontamente aceita. O fato de termos conselheiros que também integram o Conselho da Bienal facilitou o diálogo. Eles já tinham o desejo de voltar ao Recife e encontraram na Oficina um espaço adequado. As equipes de curadoria, produção e educativo das duas instituições trabalharam muito bem juntas.
Quais os maiores desafios à frente da Oficina?
O maior desafio é buscar a sustentabilidade junto à preservação do legado. São coisas que andam juntas: sem sustentabilidade, não conseguimos preservar esse legado. Acho que temos construído esse caminho com o maior acesso aos nossos objetos de arte, o trabalho de internacionalização e a comunicação no Instagram do museu e da loja. É um conjunto de ações que representa essa abertura para a sociedade e para novos públicos.
O que a Oficina oferece além da visita ao acervo?
Além das exposições permanentes e temporárias, temos o “Ocupa Oficina”, que leva música, teatro, dança e cultura popular para dentro do espaço. Também realizamos trilhas pela mata do entorno, em parceria com o coletivo Boi na Mata, formações para professores e programas voltados a pessoas com deficiência, como visitas sensoriais. Recebemos ainda espetáculos, como o Festival de Circo. A ideia é trazer outras expressões artísticas e públicos, mantendo a Oficina como um espaço vivo e de permanente interesse.
Como imagina a Oficina no ciclo do centenário de Francisco Brennand?
Além da grande exposição do centenário, prevista para o segundo semestre de 2027, teremos exposições em São Paulo, no Sesc, em novembro, e na Galeria Kogan Amaro, no primeiro trimestre de 2027. Também temos recebido demandas de curadores e instituições interessados em mostrar a obra de Brennand, sempre com cuidado e critério para preservar o acervo e garantir sua permanência na Oficina.
O que gostaria de melhorar na experiência de quem visita a Oficina?
O grande desafio é oferecer sempre a melhor experiência ao visitante. Ouvimos nossos orientadores de público e buscamos atender às demandas. Já instalamos bancos para descanso ao longo do percurso e vamos investir na identificação das obras por QR Code e em audioguia. Outro desafio é a acessibilidade. Por ser um espaço com mais de 100 anos, buscamos fazer adaptações na medida do possível e estamos sempre trabalhando para melhorar a experiência dos visitantes.
RAIO-X
- Time: Sport.
- Lugar bonito: Oficina Francisco Brennand.
- Livro: Os Miseráveis, de Victor Hugo.
- Filme: “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore.
- Hobby: Sair com os amigos.
- Mania: Organização.
- Comida: Cozido.
- Restaurante: Leite.
- Amor: Minha família.